Governo guarda vacinas da covid-19 para garantir que a segunda dose é dada a tempo

Coordenador do plano de vacinação diz que esta necessidade está a ser precavida desde o primeiro dia. Reino Unido alarga período entre doses para aumentar imunização a curto prazo, mas Agência Europeia do Medicamento desaconselha prática.

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Vacinação começou no dia 28 de Dezembro Daniel Rocha

Se Portugal recebeu, durante o mês de Dezembro do ano passado, um total de 79.950 doses da vacina contra a covid-19, por que motivo apenas foram administradas 32 mil até esta terça-feira? A resposta a esta questão prende-se com a necessidade de garantir que existem vacinas suficientes para assegurar a segunda toma, um factor que as autoridades de saúde já estão a precaver, de acordo com o coordenador do plano de vacinação contra a covid-19.

“A razão [para essa diferença de números] é a [necessidade] de guardar doses para a segunda toma, que está a ser precavida desde o primeiro dia”, garante Francisco Ramos, em declarações ao PÚBLICO. O coordenador explica ainda que, do segundo lote com 70.200 doses, cerca de 20 mil foram endereçadas aos arquipélagos dos Açores e da Madeira. Das que ainda não foram administradas, sairá grande parte das segundas doses para os que já foram imunizados uma primeira vez. 

O número total de vacinações contra a covid-19 até esta terça-feira – cerca de 32 mil – foi adiantando pela directora-geral da Saúde, Graça Freitas, na tradicional conferência de imprensa de balanço da epidemia. A vacina da Pfizer requer que a segunda dose seja administrada num intervalo de tempo entre os 19 e 42 dias, para que a imunização possa chegar ao patamar dos 95%, o valor apresentado pela fabricante nos ensaios clínicos.

Apesar das dificuldades apresentadas por alguns países europeus, o plano de vacinação em Portugal está a decorrer de acordo com o previsto: esta segunda-feira chegou ao país mais um lote de 79.950 vacinas da Pfizer-BioNTech, a primeira de quatro tranches para este mês, anunciadas pela ministra da Saúde, Marta Temido, no final de Dezembro. Tudo somado – se não existirem mais constrangimentos de produção – chegam a Portugal no mês de Janeiro 319.800 doses.

Garantidas para o primeiro trimestre deste ano está um total de 1,2 milhões de vacinas da Pfizer, a única fabricante que já recebeu “luz verde” da Agência Europeia do Medicamento. Os números do plano de vacinação inicial traçado pela task force montada pela DGS assentavam na ideia de que as vacinas da AstraZeneca e da Moderna, com quem Portugal tem acordo assinado através da União Europeia, tivessem o selo de aprovação do regulador, conforme explica Francisco Ramos. “O valor de 1,2 milhões de doses são as únicas que estão neste momento garantidas, as da Pfizer. A juntar a essas, existem mais cerca de 260 mil da Moderna e ainda 1,4 milhões da AstraZeneca. No plano inicial estavam previstas 1,5 milhões de doses da Pfizer, mas existiu uma redução de cerca de 300 mil”, explica Francisco Ramos.

Reino Unido prolonga tempo entre tomas. Portugal mantém plano

Com a rápida subida do número de novos casos, as autoridades britânicas anunciaram que o intervalo entre as duas tomas da vacina seria alargado até 12 semanas. O objectivo passa por imunizar o maior número possível de pessoas, tentando “esticar” ao máximo o número de doses actualmente disponíveis no país.

A Organização Mundial da Saúde admitiu que a segunda dose pode ser atrasada “em circunstâncias excepcionais”, uma medida que a Agência Europeia do Medicamento não recomenda, considerando que o intervalo entre as duas doses não deverá ultrapassar os 42 dias (seis semanas), por não existirem dados científicos que comprovem a eficácia da vacina após esta barreira temporal.

Na conferência de imprensa desta terça-feira, Graça Freitas não adiantou alterações no intervalo de vacinação em Portugal, que respeita o período previsto nos ensaios clínicos da Pfizer. A directora-geral da Saúde diz porém que essa possibilidade está actualmente a ser discutida entre países e organizações de saúde. Também Francisco Ramos diz ao PÚBLICO não ter conhecimento de qualquer plano de alteração ao programa de vacinação para a covid-19.

No lado oposto do espectro, a Holanda ainda não administrou qualquer vacina, com o ministro da Saúde, Hugo de Jonge, a admitir falta de “agilidade” nas decisões tomadas pelo Governo. O país fez todas as preparações a contar com a aprovação da vacina da AstraZeneca, que não requer temperaturas tão frias como a da Pfizer para o armazenamento e transportes. Correndo atrás do tempo, a Holanda irá vacinar as primeiras pessoas esta quarta-feira, usando as vacinas da Pfizer que, de acordo com a Associated Press, estão armazenadas em arcas frigoríficas desde o final de 2020.