Austrália altera hino nacional para incluir papel dos aborígenes na História do país

Mudança reflecte o abandono da ideia da Austrália como um país “novo”, lembrando que durante milhares de anos o território foi habitado antes da chegada dos colonos europeus.

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A mudança sublinha que existia uma nação ancestral antes da chegada dos europeus Reuters

A Austrália decidiu alterar o hino nacional para reflectir a herança dos povos indígenas para a História do país. Na verdade, trata-se da substituição de uma única palavra, mas que representa uma “reconciliação verdadeira”, diz o ministro para os Australianos Indígenas, Ken Wyatt.

A iniciativa do Governo apanhou todos de surpresa quando foi anunciada nas últimas horas de 2020, mas contou com o apoio da oposição, incluindo da extrema-direita nacionalista. O primeiro-ministro, Scott Morrison, disse esperar que a mudança ao hino ajudasse o país a promover um “espírito de união” para os tempos futuros.

“Durante o último ano mostrámos uma vez mais o espírito indomável dos australianos e o esforço unido que sempre nos permitiu prevalecer como nação. É hora de assegurar que esta grande união é reflectida mais inteiramente no nosso hino nacional”, afirmou Morrison.

A partir de agora, a frase “porque somos jovens e livres” passa a ser “porque somos um e livres”. O objectivo é abandonar a ideia de que a Austrália é um país historicamente novo, mas sim uma nação ancestral onde muito tempo antes da chegada dos europeus já existiam povos e sociedades autóctones.

A ideia não é nova. Há alguns meses a governadora de Nova Gales do Sul, Gladys Berejiklian, criticou a letra do hino por excluir alguns grupos de pessoas ao ignorar o papel da “orgulhosa cultura das primeiras nações”, referindo-se aos aborígenes australianos.

A noção da Austrália como um país “novo” tem origem no período colonial, que se iniciou com a chegada dos primeiros navegadores ingleses no século XVIII, mas durante dezenas de milhares de anos a ilha foi habitada por vários povos.

“Mudar ‘jovens e livres’ para ‘um e livres’ não retira nada, mas acredito que acrescenta muito”, disse o primeiro-ministro. “Reconhece a distância que trilhámos como nação”, acrescentou, referindo-se à Austrália como “a nação multicultural mais bem-sucedida do planeta”.

O ministro para os Australianos Indígenas, Ken Wyatt, publicou um artigo de opinião no Sidney Morning Herald em que disse defender a mudança do hino há já algum tempo e declarou que se trata de um “momento de definição” para o Governo de que faz parte. Para além de sublinhar o espírito de união pretendido com a alteração, Wyatt disse que também estão reconhecidas “as dificuldades e desvantagens suportadas pelos indígenas australianos, não apenas hoje, mas nos anos desde que Cook chegou a Kamay”.

A alteração ao hino acontece numa altura em que a consciencialização face às desigualdades sociais baseadas na etnia é crescente na Austrália. Um dos indicadores mais expressivos é a diferença na esperança média de vida que é nove anos mais reduzida entre os homens aborígenes face ao resto da sociedade e oito anos no caso das mulheres.

O Governo comprometeu-se a adoptar medidas para que as diferenças sejam esbatidas durante a próxima década. No entanto, o executivo desapontou as associações aborígenes ao ter rejeitado uma mudança constitucional para incluir uma “voz no parlamento” indígena, lembra o Guardian.

O hino australiano, chamado Advance Australia Fair, foi adoptado em 1984, depois de ter sido escolhido através de um plebiscito para substituir o hino britânico God Save the Queen, numa época de relações tensas entre a Austrália e o Reino Unido. A música foi composta no final do século XIX e ganhou muita popularidade nas décadas seguintes, sendo tocada em vários actos oficiais. Actualmente, o God Save the Queen é apenas usado em cerimónias nas quais participem membros da Família Real Britânica.