MF DOOM (1971-2020): morreu o rapper da máscara, o mestre da rima, o supervillain

Lendário rapper morreu a 31 de Outubro, mas notícia só foi divulgada a 31 de Dezembro. Deixa para trás uma obra ímpar, cujo expoente máximo é o brilhante disco Madvillainy.

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MF DOOM DR

Estávamos a escassas horas de dizer adeus ao tortuoso ano de 2020 quando fomos confrontados com uma última devastadora notícia: a 31 de Outubro, morreu aos 49 anos o rapper britânico Daniel Dumile, mais conhecido como MF DOOM, um dos seus muitos nomes artísticos. O desaparecimento deste que foi um dos mais talentosos, criativos, enigmáticos e prolíficos rappers do seu tempo foi anunciado na rede social Instagram pela sua mulher, Jasmine, que não divulgou a causa da morte. “O melhor marido, pai, professor, aluno, parceiro de negócios, amante e amigo que eu alguma vez podia ter pedido. Obrigado por todas as coisas que me mostraste, deste e ensinaste. O meu mundo nunca será o mesmo sem ti”, escreveu.

Daniel Dumile nasceu na cidade de Londres em Janeiro de 1971, mas mudou-se com a família para Nova Iorque ainda antes de atingir a idade adulta. Os primeiros passos na indústria musical seriam dados no final da década de 1980 ao lado do irmão Dingilizwe, ou DJ Subroc, com quem fundou o trio de hip-hop KMD. Durante o tempo em que integrou esse colectivo, que chegou a conseguir assinar um contrato com a Elektra Records — editora que lançou o seu álbum de estreia, Mr. Hood, em 1991, e que durante anos manteve na gaveta o polémico sucessor Black Bastards, que só veria a luz do dia em 2001, pela mão da ReadyRock —, Dumile assumiu o nome artístico Zev Love X. Mas o percurso dos KMD conheceria um fim prematuro: Subroc morreu num acidente em Abril de 1993, apenas aos 19 anos.

Doomsday, do disco Operation: Doomsday

Seguiram-se anos de reclusão para Daniel, que ressurgiu em 1998 enquanto MF DOOM, de longe a sua persona mais icónica. Inspirando-se no visual de Doctor Doom, super-vilão da Marvel Comics, o rapper começou a actuar e a aparecer em público quase exclusivamente com uma máscara a tapar grande parte do rosto. Operation: Doomsday (1999), primeiro disco de MF DOOM e berço de clássicos como Doomsday (canção notória pela forma como vai dialogando com Kiss of love, da cantora e compositora Sade, uma das grandes obsessões musicais do londrino) ou Rhymes like dimes, foi o projecto onde Dumile começou a brincar com os principais elementos da característica sonoridade a que hoje o associamos: samples de anúncios publicitários antigos ou filmes de ficção científica obscuros, beats meticulosamente “cozinhadas” no forno com a sensibilidade e a atenção ao detalhe de um melómano absurdamente dedicado ao coleccionismo, bars excepcionalmente eloquentes (e cheias de referências à cultura popular, umas mais fáceis de descortinar do que outras) ou esquemas rimáticos de uma complexidade extraordinária. Continua a ser uma das grandes pérolas do hip-hop dito underground, Operation: Doomsday.

Fancy Clown, do disco Madvillainy

O início do milénio traria novos alter-egos — King Geedorah, com que o britânico editou Take Me To Your Leader, ou Viktor Vaughn, com que criou Vaudeville Vaughn; os dois álbuns saíram em 2003 —, o segundo lançamento de MF DOOM (Mm.. Food — o título é um anagrama de “M.F. Doom” —, de 2004) e aquela que é inquestionavelmente a sua obra-prima: o disco Madvillainy (2004), que DOOM construiu com o lendário produtor Madlib. “Supervillain” supremo da rima com a caneta no bloco de notas, “beatmaker” intocável a cargo dos programadores: uma dupla essencialmente perfeita, que esculpiu um monumento sagrado da música contemporânea, uma viagem sci-fi na forma de um álbum de hip-hop alternativo que vai buscar especiarias ao jazz e concisão ao punk. Poucos serão os fãs de hip-hop que nunca tentaram estudar as rimas multissilábicas (ou ainda as rimas internas e as chamadas “holorhymes” — uma forma de rima em que duas sequências de sons muito semelhantes podem formar frases compostas por palavras diferentes e com significados distintos) em temas como Accordion, Meat grinder, All caps, Strange ways ou Fancy clown (canção onde Dumile actua como Viktor Vaughn, falando por telefone com uma mulher que o traiu com… MF DOOM), ou que não sabem declamar de cor a sample de America’s most blunted, que acaba com o autor Jack S. Margolis a defender os benefícios da marijuana.

Depois de Madvillainy, DOOM colaboraria com um vasto leque de nomes portentosos, de Danger Mouse a Ghostface Killah, de Bishop Nehru a Czarface, de Flying Lotus aos Avalanches, dos Gorillaz (November has come, faixa do projecto Demon Days) aos BADBADNOTGOOD (ainda estávamos a digerir o tema The chocolate conquistadors, que saiu nas últimas semanas de 2020). Os holofotes não lhe interessavam muito e os palcos também não: Dumile chegou a usar vários “impostores” nos seus concertos, provocando a ira dos fãs. Não que isso incomodasse o artista; “Para a próxima, sou capaz de chamar um gajo branco”, chegou a dizer à revista The New Yorker, acrescentando: “Whoever plays the character plays the character.”

Malachi Ekeziel, filho de Daniel Dumile, morreu em 2017, com apenas 14 anos. No Instagram, o artista descreveu-o como “o melhor filho que alguém poderia pedir”. “Faz uma viagem segura e que todos os nossos antepassados te recebam de braços abertos. És uma das nossas maiores inspirações. Obrigado por nos teres deixado ser teus pais. Amo-te, Mali”, escreveu.

Horas depois do anúncio da morte de MF DOOM, as homenagens choveram nas redes sociais. Flying Lotus, El-P (rapper da dupla Run the Jewels), JPEGMAFIA, Jay Electronica, Denzel Curry, Kenny Beats, Westside Gunn, Danny Brown, DJ Premier, Questlove e Ghostface Killah estão entre os nomes que expressaram a sua tristeza pelo desaparecimento do músico e a admiração pelo seu trabalho. “Ele era o MC preferido do vosso MC preferido”, apontou Q-Tip.

De certa forma, não poderíamos ter sabido do seu desaparecimento de outra forma: o génio DOOM, elusivo até na morte. Sobreviverá a sua relação absolutamente ímpar com as palavras. E recuperamos o lembrete que nos dá em All caps: “Just remember, ALL CAPS when you spell the man’s name.”