Em 2021 prometo viajar. Porque preciso me encontrar, preciso te encontrar

Deixa-me 2020, preciso andar, quero nascer, quero viver. Se o ano velho nos cortou as asas, que o ano novo nos veja a renascer, mesmo que devagarinho. A canção de 2021 será esperança e acção ou não será nada.

Foto
Paulo Pimenta

“Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar.” É uma das canções-maravilha do Brasil, uma daquelas obras-primas tão simples e feita de coisas tão simples como aquelas que estamos habituados a tomar como garantidas, que estávamos habituados a tomar como garantidas. A liberdade do movimento, a liberdade do passeio e da viagem, a liberdade de festejar com os amigos e quantos mais melhor, a liberdade dos beijos e dos abraços.

Agora aqui sentado, parado no meu Deixe-me Preciso Andar, olho para trás para a triste canção de 2020. Sim, podemos agarrar no ano, dar-lhe voltas e descobrir coisas positivas. Cada um terá as suas. Há quem diga que é um ano para esquecer, eu não sou dessa opinião: é um ano para nunca esquecer. Afinal, a dor é informação e é com os tempos e dias maus que aprendemos muito. Muito. Aprendemos a sobreviver, aprendemos a viver. Assim que podemos, aprendemos a parar e a pensar nos passos dados atrás, nos passos a dar em frente. Se aprendemos muito com as catástrofes e os erros, então eu diria que 2020 é um ano de aprendizagem que vale por uma vida. Não, definitivamente não é ano para esquecer. Haverá quem passou mais ou menos incólume, haverá quem sofreu um ou vários infernos, há vida e há morte. E depois há tudo pelo meio.

A minha vida em 2020, presumo que a vida de muitos, ficou como que no limbo de um aeroporto, como quem não pode voltar atrás nem seguir em frente, sem terra, sem ar nem mar - algo como aquele homem que, tornado apátrida, ficou anos e anos a viver no Charles de Gaulle ("Sir Alfred”, Merhan Nasseri, cuja história real chegou ficcionada aos cinemas com Hanks no The Terminal). É das imagens mais icónicas do ano: os aeroportos vazios, como os hotéis e os restaurantes em estado de emergência (nós todos em estado de emergência). A minha vida e a de todos os que têm as viagens a voar-lhe na alma, a de todos os que, por profissão ou gosto, se encaminham por hotéis e restaurantes e bares, pelo imenso mundo do turismo. Fregueses, empresários, trabalhadores e todos os seus universos paralelos.

Permitam-me o egocentrismo temático, porque o melhor é cada um falar do que sabe: por aqui, profissionalmente, aguentamo-nos. Todos os dias alguém nos perguntava “como raio conseguem fazer vocês uma revista e um site de viagens, restaurantes, hotéis, turismo em geral nestes tempos"? A resposta é fácil: em equipa, com trabalho, seguindo a realidade, porque ela é como é; em equipa, com imaginação, não desistindo de sonhar, porque o sonho é como é. E porque contamos com muitos, muitos leitores fiéis. Não somos os únicos, felizmente. Mas sim, não faltaram nervos. Alguém por aí conseguiu sobreviver a 2020 sem alguns ou muitos ataques de nervos? Mas, como sabemos, poucos sectores se enervaram tanto (para não dramatizarmos ainda mais) como o turismo, restauração, hotelaria e tudo o que deles depende directa ou indirectamente (um universo, um grande bocado de PIB, por exemplo), dos guias a quem arrenda um quarto para fazer as contas do mês baterem certo. Se uns foram abrindo-reabrindo, abrindo-fechando (e outros fechando de vez), é bom lembrar que há sectores, caso dos bares e discotecas especializados, cujas noites ficaram de portas fechadas. Em Portugal e pelo mundo fora. 

Em 2020, ficamos ora fechados em casa e na aldeia e no concelho, ora conseguimos umas fugas pelo país. Foi um ano de redescoberta de Portugal para muitos, disso não há dúvida. Para nós, nesse aspecto, com as devidas adaptações, foi um ano como os outros: há 20 anos que damos voltas e voltas a Portugal, que apelamos a Fugas por Portugal. A diferença foi que ficamos com o resto do mundo quase em stand-by.

Em 2021, queremos dar ainda mais voltas (e voltas) a Portugal. E voltar a comer o mundo. Pode ser devagarinho, passo a passo, com cautelas e responsabilidade acrescidas. Mas vamos lá chegar. Como fénix, haveremos de erguer-nos das cinzas do tempo parado para recuperarmos o movimento. O movimento é a vida e a vida é movimento. Havemos de andar, voar, navegar, sentarmo-nos em festa no restaurante, no bar, havemos de dançar. Havemos de dar um abraço, um milhão de abraços.

Deixe-me, preciso andar, vou por aí a procurar, (r)ir pra não chorar, escreveu Candeia, cantou Cartola, cantou (para mim, há uns bons anos, foi a voz desta descoberta) Marisa Monte. A ideia da canção é a de uma caminhada, de uma procura, para nos encontrarmos. Caminhante não há caminho, faz-se o caminho ao caminhar, já dizia Antonio Machado. Entre Candeia a iluminar e Machado a cortar trilhos, deixo a ideia de que para nos encontrarmos temos também de encontrar-nos com outros, com o outro. Tanto com os que nos são tudo, inclusive necessários, como, claro, com os que nos são (ainda) desconhecidos.

Por mim, em 2021 prometo viajar. Porque preciso me encontrar, preciso te encontrar. Por agora, deixo-te a certeza da esperança, a de uma canção ainda por escrever e por cantar. Ou a de uma velha canção, que volta para nos reinventar: eu quero nascer, quero viver. Deixe-me, preciso andar. Feliz ano novo, boas viagens.