Um ano de cabeça, coração e estômago

Um dia olharemos para isto tudo e escrevermos um romance. Mas como escrever sobre este tempo? Como ler neste tempo? Reflexões sobre um ano em que os livros passaram a chegar sobretudo pelo correio e em que as conversas sobre livros tiveram de ser higiénicas.

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Dan Tuffs/Getty Images

Os livros espalham-se sem ordem no chão de uma livraria. Há espaço e posso ir escolhendo, folheando. Hesito num título, descubro uma velha autobiografia numa nova edição reeditada, The Autobiography of Alice B Toklas, por Gertrude Stein, com ilustrações de Maia Kalman. São os primeiros dias de Março, há um pressentimento de acto interdito neste hábito velho, o de ir amontoando livros até me decidir por um. Pego naquele. Gostei do objecto, o conteúdo é conhecido, mas só por lhe tocar, por poder folheá-lo, ele tornou-se-me irresistível. Junto-o a outro, saído no final de 2019, Essays one, da romancista, contista e ensaísta Lydia Davis. Lá leio: “Mantenha-se em contacto o mundo físico.” É um conselho de escrita. Não li essa frase na altura, mas percebo agora como essa fisicalidade que permitia a descoberta de livros, o encontro com o inusitado, o acto de entrar numa livraria sem estar propriamente à procura de nada, mas com a possibilidade de sair com uma descoberta potencialmente transformada, se perdeu. Ou, se não se perdeu, tornou-se socialmente censurável porque não faz parte do mundo ameaçado por um vírus que se propaga com o toque.

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