Mariana, a Miserável e Júlio Dolbeth juntaram a arte japonesa e o figurado português numa exposição

Partir é o nome da exposição que, até 14 de Janeiro, está na galeria Senhora Presidenta, no Porto. Os dois artistas aliaram a técnica kintsugi ao artesanato e criaram uma série de peças que, para já, estão intactas. Mas, em breve, deverão viajar para o Japão “mal acondicionadas”. O objectivo? Partir.

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Júlio Dolbeth e Mariana, a Miserável pegaram na técnica ancestral japonesa de reparar cerâmicas partidas e juntaram-na ao figurado português. Nasceu uma exposição. O nome? Partir. “Remete para a fragmentação em cacos, mas também para a viagem”, explicam, em comunicado enviado ao P3. 

Kintsugi, como é conhecida a técnica japonesa, não só repara as cerâmicas partidas, como utiliza pó de ouro ou prata para as consertar, “realçando deliberadamente a vida destas peças, imprimindo-lhes valor e reforçando a sua beleza única através do erro ou do acidente”. Os dois artistas acreditam que “numa época onde o consumismo é privilegiado, o kintsugi surge como um lugar de contemplação, de afirmação do belo, ancorado na história e nas narrativas possíveis que as peças cerâmicas têm para contar”. 

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Com essa ideia em mente, juntaram-lhe a inspiração do artesanato da região Norte de Portugal, ancorada em nomes como Rosa Ramalho, artesã barcelense e uma das mais conceituadas artistas portuguesas. O resultado: um conjunto de peças que, até 14 de Janeiro, podem ser vistas na galeria Senhora Presidenta, no Porto.

As peças estão a ser trabalhadas desde Outubro de 2019 e a exposição faz parte do processo para uma residência artística no Japão. A residência, que mostra também alguns desenhos dos artistas, conta com o apoio da Câmara Municipal do Porto, através do programa Shuttle, que tem como objectivo promover o trabalho de artistas da cidade. “Além do necessário tempo de experimentação e aprendizagem, faz parte do processo o envio de algumas peças mal acondicionadas para a galeria Almost Perfect, em Tóquio, de forma a que se partam pelo caminho”, referem. Nesta primeira exposição, as peças ainda estão intactas e “podem ser resgatadas do seu destino”. 

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Partir é, também, uma reflexão. “É impossível não tentarmos uma analogia entre esta arte japonesa e a vida humana no geral, no que diz respeito aos processos de aprendizagem: nós, pessoas, somos peças de porcelana, caímos, partimo-nos aos bocadinhos, aproveitamos o que resta, colamos os fragmentos, ficamos com cicatrizes.”