Grandes empresas esperam mais vendas, as restantes estão pessimistas

Inquérito da CIP sugere que é nas micro, pequenas e médias empresas que a crise mais se tem sentido e que pouco mudará para melhor no primeiro trimestre de 2021.

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Adriano Miranda (arquivo)

Quanto mais pequeno o negócio, maior o impacto económico na pandemia até agora e menor a esperança numa reviravolta nos próximos meses. Numa frase, resume-se assim alguns dos dados mais relevantes do barómetro às empresas, promovido pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP) e pelo ISCTE.

O resultado do 11.º inquérito desde o início da pandemia sugere que, mesmo com novas promessas de apoios e com vacinas prestes a chegarem à população, a perspectiva de curto prazo é “muito negativa" nas “micro”, pequenas e médias empresas – que são 99,7% do tecido empresarial do país.

O presidente da CIP diz que os empresários “aplaudem” a iniciativa do Governo, que no final da semana passada voltou a apresentar medidas para ajudar a economia, mas sublinha que já se nota o “cansaço” de quem espera pela concretização das medidas. "Não chega anunciar, fazer anúncios atrás de anúncios; há que concretizar”, vinca António Saraiva.

Em termos gerais, a avaliação dos empresários mantém-se negativa quer em relação às medidas de apoio quer em relação ao futuro. Quatro em cada cinco inquiridos continuam a achar que o apoio público fica aquém do necessário, com o problema acrescido da “resposta tardia”.

“As medidas deveriam ser rápidas, mas rapidez é coisa que não tem havido. Têm sido lançadas tardiamente, nem sempre são de fácil acesso e a complexidade e o atraso das mesmas tem matado empresas e ameaça seriamente a manutenção de postos de trabalho”, comenta o presidente da CIP.

Os dados do barómetro mostram que há expectativas diferentes para os próximos quatro meses, consoante a dimensão da empresa inquirida. Apenas algumas grandes empresas inquiridas esperam um aumento das vendas este mês e no primeiro trimestre de 2021, o que mesmo assim não chega para contrariar a tónica geral de pessimismo em termos de emprego e investimento.

Sobretudo no que diz respeito ao investimento, a tónica geral, seja qual for a dimensão da empresa, é de pessimismo: 39% dos inquiridos dizem que vão cortar no investimento em 2021. Somente 19% acreditam que será possível investir mais e 42% acham que manterão o investimento face a 2020, que já foi um ano de cortes. É um “sinal negativo”, frisa Pedro Dionísio, professor do ISCTE e investigador da entidade que recolhe os dados, o Marketing FutureCast Lab do ISCTE, “porque o investimento das empresas tem um impacto directo na evolução de médio e longo prazo de uma economia”.

“Mesmo quem pensa aumentar o investimento, reduziu esse acréscimo de 38% para 28%”, anota ainda.

A diferença de opinião nas empresas é notória quanto à facturação: 40% das grandes empresas inquiridas (que são apenas 7% da amostra de 431 respondentes) acreditam que o volume de negócios vai melhorar no primeiro trimestre de 2021 face ao período homólogo de 2020; ao passo que nas restantes categorias de dimensão, predomina uma perspectiva mais negativa. Culpa disso, aponta António Saraiva, é o “medo” que continua a reinar entre os consumidores, e que atrasa uma retoma ainda débil, e também o “cansaço” e “desalento” que está a tomar conta de empresários “desiludidos” com a demora dos apoios.

“A CIP propôs medidas em Abril e Maio que só agora, oito meses depois, foram assumidas pelo Governo, como por exemplo o apoio a fundo perdido. Até agora perderam-se 110 mil empregos. Não vou dizer que todos se teriam salvado, caso o Governo tivesse sido mais célere e tomasse estas medidas de forma mais atempada. Mas é nossa convicção que algum desse emprego tinha sido salvo”, afirma Saraiva.

O barómetro evidencia ainda que, entre Novembro e Dezembro, houve uma deterioração dos prazos de pagamento em 18% das empresas, que agora demoram 40 dias a pagar. Além disso, o volume de negócios decresceu em Novembro em 55% das empresas inquiridas, com o impacto a ser menor nas grandes empresas do que nas restantes.

Tudo somado, o cenário em termos de emprego não é famoso. Apenas 12% dos inquiridos admitem que irão contratar mais pessoas no próximo trimestre, havendo nessa proporção um maior número de grandes empresas do que de outras dimensões. 

O inquérito foi respondido entre os dias 4 e 10 de Dezembro, portanto antes do anúncio de medidas como o apoio a rendas comerciais. O universo são as 150 mil empresas da CIP, que representam cerca de um terço das 468.595 empresas que havia em Portugal no fim de 2019, segundo o Banco de Portugal. As 431 respostas resultam de uma amostragem não probabilística, o que não garante a representatividade da amostra face ao todo nacional.