Zoom à mesa, famílias divididas por salas, avós sempre de máscara. Como estão as famílias a repensar o Natal?

“Repensar o Natal.” Marcelo Rebelo de Sousa já tinha alertado em Outubro que seria preciso adaptar estas festas às circunstâncias de uma pandemia. E com o alívio de algumas restrições já anunciado pelo Governo para a época natalícia, vários especialistas têm pedido isso mesmo: que cada família pense em soluções para reduzir o risco de a consoada se tornar num foco de contágio. Juntar menos pessoas, reduzir as visitas, não facilitar no uso da máscara são apenas algumas regras. De norte a sul do país, estes são os planos de quatro famílias.

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Fátima Bica explica: os dois ramos da família que se costumam juntar ficam este ano em mesas separadas Adriano Miranda

Família Oliveira

Esta consoada terá bacalhau, polvo e Zoom à mesa

Habituada a reunir 25 pessoas na consoada, a família Oliveira, em Braga, programou um Natal diferente para 2020. A noite de 24 de Dezembro vai ter metade das pessoas do que é costume, separadas por três espaços da casa. E o computador é a nova companhia à mesa. A plataforma Zoom é a solução pensada para chegar aos que não estarão.

“Graças a Deus, as minhas filhas vêm sempre todas. E os netos também. Mas neste ano não vai ser assim”, conforma-se Ortelinda Silva, do alto dos seus 85 anos. De há meio século para cá, o epicentro do Natal da família é a sua casa, erguida numa antiga quinta ladeada pela encosta da Falperra, em Braga. É ali que, ano após ano, recebe as seis filhas, os genros e os netos para a noite de consoada.

Na última década, têm-se reunido sempre 25 pessoas à mesa de Ortelinda e de Arlindo Oliveira, o marido, de 88 anos, severamente limitado pela doença de Alzheimer e pela falta de mobilidade, circunscrita a uma cadeira de rodas. Em 2020, nem metade da família vai cear junta. O casal vai receber 11 pessoas — os agregados familiares das filhas Ana, Laurinda e Sandra. E nem todas estarão naquela sala de piso assoalhado, já decorada com motivos natalícios: a árvore de Natal, o presépio e até os desenhos do azevinho na toalha sobre a mesa de madeira. “Três filhas vêm cá no Natal. No Ano Novo, vêm cá outras três: a Rosa, a Conceição e a Manuela. Teremos esta mesa aqui. Colocaremos outra ali [junto à árvore, na outra ponta da sala] e teremos outra na cozinha. Cada agregado senta-se numa mesa”, explica Ana Oliveira, 52 anos.

Também a cozinha estará menos “congestionada”, para se “reduzir o risco de contágio”. E assim, a preparação dos alimentos ficará nas mãos de uma das irmãs, apenas, indica Ana. Já a ementa será a mesma de sempre, embora em menor quantidade: polvo — à lagareiro ou com molho verde —, bacalhau, batatas e a couve galega para o jantar, seguindo-se os doces — aletria, mexidos, rabanadas e sonhos, por exemplo —, os queijos, o champanhe e o vinho do Porto.

A próxima consoada reserva ainda uma nova companhia: à cabeceira de cada mesa, estará um computador ligado à plataforma Zoom. Essa foi a solução encontrada para mitigar o distanciamento, quer entre as irmãs que estarão reunidas na casa da Arlindo e de Ortelinda, quer, e sobretudo, das que estão mais longe. “No dia 5 de Dezembro, quando o meu pai fez anos, cada família estava em sua casa, com uma garrafa de champanhe e bolo, para brindarmos juntos. Na noite de Natal, vamos utilizar o computador para o brinde, mas também para falar durante o jantar”, promete.

Outro momento que costuma definir o Natal da família Oliveira é a abertura de prendas, à meia-noite. Por ora, só se vê meia dúzia de embrulhos junto à árvore, mas esse número promete avolumar-se até à noite da consoada. Todos os familiares que costumam cear deixam ali os presentes para o Pai Natal — o papel de pai Natal costuma ser encarnado por dois ou três elementos da família, rotativamente, conta Ana — os entregar após a meia-noite. “As prendas estão todas identificadas. Neste ano, o Pai Natal vai distribuí-las a quem está. Quem não está, passa aqui no dia 25 para as abrir”, refere. “As nossas crianças acham sempre piada à figura.”

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Na última década, têm-se reunido sempre 25 pessoas à mesa de Ortelinda e de Arlindo Oliveira, o marido, de 88 anos Nelson Garrido

Mas também haverá menos crianças neste ano. Dos cinco netos que ali se vão reunir, apenas Isa e Miguel têm até 10 anos, estando já guardado um espaço para estarem à vontade, limitando ao máximo o contacto com o resto da família. “Os miúdos vão estar no quarto da minha mãe, com o ar condicionado e as televisões ligadas. Entretêm-se ali”, avisa. 

Ana não esconde a satisfação de consoar no “sítio de sempre”. Ao lado, a mais velha das irmãs, Rosa, 59 anos, admite ser difícil não celebrar o Natal com o resto da família, mesmo com o acesso ao Zoom. “Não sei se é por sermos raparigas, mas somos todas muito unidas. Depois, os nossos maridos, que têm todos famílias mais pequenas, encaixam todos e dão-se todos bem”, descreve. Mas, pelo menos este ano, terá mesmo de ser assim. 

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Inês, de 41 anos, e o marido têm três filhos e a época festiva é sempre vivida intensamente. Há “mais de dez anos”, a família alargada e os amigos — que “são aquelas pessoas de sangue, não sendo de sangue” que estão “sempre presentes” — reúnem-se Nuno Ferreira Santos

Família Costa

A avó vai estar sempre de máscara

No ano passado, a noite de Natal da família de Inês Costa foi passada com mais 40 pessoas numa quinta em Palmela. Este ano, vão ser sete, divididas por duas mesas em salas diferentes na casa em Paço de Arcos. “Não vai ser a mesma coisa”, lamenta. “Mas tem de ser.”

Inês, de 41 anos, e o marido têm três filhos e a época festiva é sempre vivida intensamente. Há “mais de dez anos”, a família alargada e os amigos — que “são aquelas pessoas de sangue, não sendo de sangue” que estão “sempre presentes” — reúnem-se para “estar em família”. “Rimos, brincamos, cantamos, fazemos jogos. É uma tradição muito gira”, recorda.

Para não terem “aquela chatice de comprar não sei quantas mil prendas”, e uma vez que consideram que “isso não faz sentido nenhum”, porque “a verdadeira intenção do Natal é que as pessoas estejam todas juntas a partilhar entre família”, a solução para a troca de prendas entre as dezenas de pessoas está numa versão do amigo secreto.

“As crianças adoram” quando chega a hora de cada um tentar explicar a quem vão dar a oferta, enquanto os restantes tentam adivinhar. “É a parte mais gira do Natal para eles”, refere Inês. Uma diversão que, na verdade, é para todos. “É aquela parte teatral em que estamos a tentar descrever alguém de quem gostamos muito com características do dia-a-dia da pessoa que tanto os mais velhos como os mais novos adoram”, explica.

Porém, “este ano vai ter que ser uma coisa muito mais simples”.

A noite de Natal vai ser passada em casa, com a mãe e a irmã, que vivem juntas. Por causa do vírus, é preciso “reduzir as festas” e “evitar ao máximo o contacto com pessoas” fora do núcleo familiar. Ainda assim, por precaução, a avó da família, “por ter 74 anos e ser de um grupo de risco”, vai manter sempre a máscara colocada, durante toda a noite. 

Uma vez que acreditam que “o contágio acontece sobretudo na hora da refeição”, quando “se tira a máscara e se está mais próximo a conversar”, as duas partes da família vão jantar em salas separadas. De um lado da lareira vai estar Inês, o marido e os filhos, e do outro a sua mãe e a irmã. “Felizmente”, as duas divisões permitem manter o contacto visual, enquanto se garante o distanciamento.

Um “Natal diferente” deixou “tristes” os jovens da família de 15, 13 e sete anos. Sabem que “a animação vai ser diferente” e que “o natal não vai ser tão divertido”. “Não é a mesma coisa”, aponta a mãe, mas diz que “eles percebem que, por uma questão de respeito pelos mais velhos e pelas pessoas de quem gostamos, pelo bem-estar e saúde deles, tem mesmo de ser”.

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Adriano Miranda

Já avó da família “até agradece” porque tem “imenso receio de apanhar covid e ter complicações”. Por isso, “para ela, estas medidas que tomámos foram um descanso”. Só assim se sente “minimamente confortável” porque, “caso contrário, não iria à ceia” afirma Inês. De resto, os netos não têm estado com a avó. “Ela tem medo por causa das escolas.”

“Esperemos que isto seja caso único”, diz, esperançosa. Mesmo que se saiba que “é por um bem maior”, a verdade é esta que deixa escapar: “Lá que custa, custa.”

“Espero que no próximo ano já estejamos todos juntos novamente, porque o Natal é mesmo isso: estarmos com aqueles de quem mais gostamos.”

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Na sala maior da casa será montada, neste fim-de-semana, a árvore de Natal, junto ao presépio, “este sim verdadeiramente representativo da tradição mediterrânica”, observa António Lobão Rui Gaudêncio

Família Lobão

A casa da família Lobão já cheira a Natal

Uma chuva miudinha e persistente e o ladrar de boas vindas de quase uma dezena de rafeiros alentejanos recebeu o PÚBLICO quando António Lobão, o patriarca de uma das famílias mais conhecidas do Alentejo, franqueou a porta do seu monte na Herdade Cabeça de Azinho, próximo da aldeia de À-do-Pinto, em Serpa, a poucos quilómetros da fronteira com Espanha.

No interior da habitação construída em 1880 a história tem um peso e uma importância particular que António Lobão persiste em realçar, contando episódios e passagens que marcam os antepassados da sua família. Um forte cheiro a incenso revela que já cheira a Natal a 14 dias da sua comemoração. Numa das lareiras da casa a lenha de azinho aquece o ambiente. “Vivemos numa “ilha”, diz António Lobão, aludindo ao facto de o monte estar permanentemente rodeado de animais “bovinos, ovelhas, cavalos e porcos pretos” que “não precisam de usar máscara”, ironiza.

E quanto a preparativos especiais? O patriarca de uma numerosa família já tomou, antecipadamente, as devidas precauções, apesar da situação particular de viver num monte isolado no centro de um extenso coberto vegetal, “onde se pode andar um ou dois quilómetros sem nos cruzarmos com ninguém”: os 17 membros da família por razões que António Lobão atribui aos cuidados que a pandemia obriga a considerar — e por razões familiares — foram distribuídos por três grupos, “qualquer dele cheio de netos”, que se deslocarão de fora da região rumo à Herdade Cabeça de Azinho, em três períodos diferentes, entre 24 a 28 de Dezembro.

“A coisa está resolvida”, acentua o mais velho da família, admitindo o risco sempre presente quando há um aglomerado — “apesar de termos um enorme espaço de liberdade de movimentos e onde não há contactos com outras pessoas”, acrescenta.

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Adriano Miranda

Outras preocupações já foram acauteladas: à entrada da casa, foram colocados frascos com desinfectante para garantir mais um elemento de segurança. E até os poucos empregados que trabalham na herdade seguem as orientações para evitar eventuais focos de contágio.

Na sala maior da casa será montada, neste fim-de-semana, a árvore de Natal, junto ao presépio, “este sim verdadeiramente representativo da tradição mediterrânica”, observa António Lobão, salientando um detalhe: é daquelas que já vêm pré-montadas.

“No sul do país e sobretudo no Alentejo, a verdadeiro Natal tem características mediterrânicas e é o presépio o seu elemento tradicional”, salienta quem se assume como católico. Como cristão realça a sua afinidade com a igreja ortodoxa, onde diz ter-se sentido muito bem, frisando que a bíblia hebraica descreve um tipo de paisagem que “podemos associar ao Alentejo”, pormenor que sempre o incentivou na aquisição do mais variado tipo de presépios. De entre os que apresentou ao PÚBLICO da sua colecção, destacou um que foi montado dentro de uma pequeníssima bilha de barro alentejana.

Na véspera de Natal, o bacalhau com grão, batatas e couve será a refeição da família Lobão. No dia seguinte “iremos para uma carne mais sanguínea, cabrito e porco preto em detrimento do peru, que dá mais trabalho”. Haverá lugar para a distribuição de prendas. “Mas recusamos a opulência. Ninguém vai receber ouro, incenso e mirra.”

Reportando-se aos actos litúrgicos próprios da época natalícia, fez uma referência aos cuidados especiais que devem ser tomados na assistência ao culto religioso. “Passámos a assistir pelos meios de comunicação social”.

Um extenso manto verde dos pastos em crescimento, como cavalos, bovinos e ovelhas rodeiam o monte transmitindo uma imagem de um presépio em grande dimensão. A lareira aquece a reunião da família, mais um sinal de que na casa de António Lobão já cheira a Natal.

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O filho de Fátima Bica é médico, tinha férias marcadas para Dezembro, mas o conselho de administração do hospital onde trabalha já lhe anunciou que estas estavam canceladas por conta da pandemia Adriano Miranda

Família Bica

Mesma casa, mesma sala, mas mesas diferentes

No Natal, costumam reunir-se os nove e assim deverá continuar a ser este ano. Mas há um detalhe, explica Fátima Bica: os dois ramos da mesma família que se costumam juntar na mesma casa, na noite de 24 de Dezembro, ficarão em mesas separadas, para garantir a distância de segurança. Pelo menos, é esse o ponto de partida.

“Um Natal normal costuma ser com a minha prima, o marido e os meus tios; eu, o meu marido, a minha mãe, o meu filho e a minha sogra”, introduz a professora que vive em Mira, distrito de Coimbra. “Os elementos que se juntam todos os anos estão de saúde e estamos a fazer tudo por tudo para nos juntarmos e vivermos esta alegria.”

Afinal, são apenas duas casas, “poucos, quando comparamos com outras famílias”. São apenas duas casas, “mas é como se fosse uma, ela é minha prima, mas é como se fosse minha irmã”, diz a Fátima Bica, para explicar que seria particularmente penoso cada um assinalar a data no seu canto. “De facto, imaginar os cinco aqui, a olhar uns para os outros ou a ver televisão, ou a falar pelo Whatsapp com eles [de casa da prima] era, de facto, pesado… era um sacrifício muito grande”, nota a professora de 54 anos. E acrescenta: “Por isso é que estamos a fazer tudo com as devidas cautelas para nos juntarmos no dia do Natal.”

O planeamento ainda está em fase de projecto. Ainda é preciso concertar intenções e acertar detalhes. “Em princípio, deverá ser em casa da minha prima.” Há ainda mais um factor de incerteza: o filho de Fátima Bica é médico, tinha férias marcadas para Dezembro, mas o conselho de administração do hospital onde trabalha já lhe anunciou que estas estavam canceladas por conta da pandemia. “Já ouviu dizer que lhe poderão dar alguns dias, mas estamos ainda sem saber como vai ser”, suspira. Faz também uma correcção ao número do agregado inicialmente avançado: são, afinal, “nove vírgula quinze”, contando com o Brownie, um cão de pequeno porte “que faz parte da família”. “Onde a gente vai, ele vai também.”

De resto, a distribuição de tarefas que já acontecia em anos anteriores garante que a logística de preparação da consoada possa decorrer nos mesmos moldes. Apesar de a mãe ser a “cozinheira-chefe”, cada um contribui com as suas especialidades para preencher a mesa da consoada.

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Adriano Miranda

No entanto, concede que a pandemia vem acrescentar um factor de stress a uma época do ano que a costuma deixar extenuada, entre o trabalho (o fim do período escolar exige sempre a longa maratona das avaliações), a cozinha e as arrumações.

A falar sobre os preparativos para o Natal de 2020, Fátima Bica recorda a bisavó Ermelinda, que morreu em 1992, mas que, tendo sido infectada, sobreviveu à pandemia do início do século. Foi através dela e dos relatos antigos que lhe chegou a memória do transporte de caixões em carros de bois para os cemitérios da região. “Também dizia que se fecharam casas em Mira, onde morreu toda a gente”, conta, lamentando não ter registado os relatos em gravação. Estava longe de imaginar que, em 2020, uma pandemia voltaria a abater-se sobre o mundo.

Quando pronuncia a palavra “alegria” para falar sobre este Natal, a professora pausa e pondera. Uma alegria que deverá caber na medida das circunstâncias de um ano atípico e que causa reflexão, diz. “Nós estamos aqui. Mas quantas famílias terão um Natal como costumavam ter?”