PlayStation 5, um monólito presente no futuro

A Sony agitou as águas da indústria dos videojogos com a PlayStation 5. Rápida e poderosa, a nova consola é o vislumbre do futuro.

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O feedback háptico do comando da PS5 é suficiente para deixar a atenção em alvoroço Sony

Já se passaram umas semanas e a PlayStation 5 (PS5) continua a dar a sensação de início de viagem. É uma faixa de plástico negro ensanduichada entre duas folhas brancas, um monólito à espera para mostrar o que é capaz de fazer, maturado que estará o casamento entre software e hardware ao longo dos próximos meses e anos.

É uma consola que precisa de espaço: 390 milímetros de altura, 104 mm de largura e 260 mm de profundidade. Há coros que se apaixonaram instantaneamente pelo design e há coros que o odeiam com determinação. Como é habitual, a marcha do tempo fará a opinião geral cair algures no meio.

A experiência PlayStation 5

Antes do primeiro videojogo, os jogadores são recebidos com um interface remodelado. A Sony determinou que os jogos da PS5 terão centros onde são exibidos itens associados ao título que estão a jogar. Podem ser actividades (por exemplo, aceder directamente a missões ou a desafios específicos em determinado videojogo, consultar os Troféus e as respectivas percentagens de progresso), novos conteúdos ou transmissões que a comunidade esteja a fazer. É uma funcionalidade dinâmica que não obriga a que seja interrompida a sessão de jogo.

O dinamismo do interface está bem patente ao pressionar o botão PlayStation no comando, durante um jogo. Na primeira linha de ícones encontramos destaques contextuais da obra e também o Comutador (permite alternar entre jogos e aplicações recentes), as Notificações (a consola tem um modo Não Incomodar), consultar a actividade dos amigos e planear partidas no Game Base, controlar a música, o som, o microfone, os acessórios, os detalhes da conta, bem como as funções desligar, reiniciar ou modo de repouso.

Navegar os menus da consola é um processo que ganha naturalmente dinamismo com a experiência acumulada, contudo, há algumas dores de crescimento relativas ao que carregamos na memória. A performance é fluida, mas serão muitos os jogadores confrontados com as diferenças de interface em relação à PS4 — a memória construída é composta de automatismos, pelo que terá de haver um período de habituação.

É provável que a Sony trabalhe esta experiência ao longo do tempo através da publicação de actualizações do software do sistema — já recebeu três desde a chegada ao mercado e está confirmado que o Variable Refresh Rate será adicionado à consola, mas não é um arranque em falso. A empresa nipónica sabia que não podia reinventar a roda arriscando estilhaçar a sensação de continuidade, mas ainda assim apresenta novidades suficientes para que se saiba, inequivocamente, que estamos a operar uma PlayStation 5 e não a irmã mais velha. 

Uma consola compatível com o futuro

O hardware funciona invisivelmente dentro da carapaça esguia e robusta. A combinação de CPU (AMD Zen 2 personalizado com 8 núcleos a 3.5 GHz de frequência variável), GPU (10.28 Teraflops de potência baseada numa AMD Radeon RDNA 2 personalizada de frequência variável que chega a 2.23 GHz, e RAM (16GB) permitem um salto geracional que está agora nas mãos das produtoras, mas a PlayStation 5 é muito rápida, e essa rapidez está também atribuída ao disco rígido SSD. O tempo que um jogo demora a ser carregado é um dos indicadores inequívocos do salto entre gerações.

Todo esse poder computacional tem tradução nos mundos (jogos) que já estão disponíveis. É verdade que muitas das obras publicadas contam com modos que permitem dar prioridade à performance ou à fidelidade gráfica, mas o alinhamento de lançamento, mesmo estando longe de ser assombroso, promete.

A PlayStation 5 atinge uma resolução 4K e, caso a esteja ligada a um monitor através de uma ligação HDMI 2.1, a representação gráfica pode ser de 8K. Há suporte HDR e Ray Tracing, assim como uma taxa de fotogramas que chega às 120 por segundo e compatibilidade para 120 Hz em ecrãs 4K. São números e nomenclaturas que prometem tornar a consola compatível com o futuro.

Em termos práticos, este salto tecnológico faz a diferença. Por exemplo, Marvel's Spider-Man: Miles Morales implementa o Ray Tracing para que os reflexos nas janelas de Nova Iorque sejam muito mais detalhados, elevação gráfica que está presente também na iluminação e nos efeitos da água. Pode parecer pouco para justificar centenas de euros, mas há no desempenho da PS5 melhorias notórias. Um exemplo concreto: Miles Morales demora 1 minuto e 27 segundos para ser carregado na PlayStation 4. Na PS5? 17 segundos, segundo a The Verge.

Os jogos vão ser a prova do conceito

O poder cru está lá e os primeiros exemplos são promissores, contudo, o verdadeiro trunfo da PlayStation 5 será usar esta base para demonstrações de talento. Além de Miles Morales (obra que tem também versão PlayStation 4), há Demon’s Souls Remake e Sackboy: A Big Adventure como grandes exclusivos. Bugsnax e The Pathless são exemplos da frota independente e são exclusivos PlayStation 5 nas consolas, mas podem ser experimentados no PC. A PlayStation 5 recebeu um chorrilho de grandes produções que receberam ou receberão actualizações para tirarem partido do seu hardware (Assassin's Creed Valhalla, Borderlands 3, Call of Duty: Black Ops Cold War, Devil May Cry 5, Observer, FIFA 21), mas não “obrigam” à compra da consola, pois são também compatíveis com a PlayStation 4, entre outras plataformas.

São obras diversas, algumas das quais propícias para tempos partilhados em família, mas espera-se que seja em 2021 que a PlayStation 5 comece a ser verdadeiramente fundamental quando avaliada pelos videojogos que corre. Horizon Forbidden West, Ratchet & Clank: Rift Apart, Gran Turismo 7, Returnal (a nova proposta dos criadores do excelente Resogun) e God of War: Ragnarok foram anunciados e são muito antecipados. Sobre este lote há duas perguntas transversais: quanto tempo é que teremos de aguardar? E se serão exclusivos PlayStation 5 ou se a PlayStation 4 também terá direito às respectivas versões?

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Campanha publicitária no Metro de Londres Alex Davidson/Getty Images

Mesmo que a anterior consola os receba, será naturalmente a PlayStation 5 a ter direito às versões mais impressionantes. A Sony Interactive Entertainment (SIE) Worldwide Studios assegura o poder do videojogo como exclusivo capaz de vender consolas. É de antever o frenesim e a expectativa que uma obra desenvolvida pela Naughty Dog — em exclusivo para a nova consola — vai causar. E se na janela de lançamento temos direito a obras tão expressivas tecnicamente, com o hardware maturado e o talento da produtora que assina Uncharted e The Last of Us, as possibilidades são imensas.

A empresa nipónica sabe perfeitamente as valências e as ausências no alinhamento inicial da PlayStation 5. Além dos jogos mensais, os membros PlayStation Plus têm direito a aceder sem custos adicionais à Colecção PS Plus. São vinte jogos que definiram inequivocamente o catálogo PlayStation 4 e que estão disponíveis na PlayStation 5. De The Last of Us Remastered a Bloodborne e Resident Evil 7, passando por God of War, Monster Hunter, Persona 5 e The Last Guardian, são todas obras imperdíveis.

DualSense: o comando é um alvoroço

Há um jogo publicado em exclusivo na PlayStation 5 que ainda não foi mencionado: Astro’s Playroom. Não só a produção da SIE Japan Studio está pré-carregada na consola sem custos adicionais, é um título recomendado e uma excelente demonstração do que o comando sem fios DualSense consegue fazer. Esteticamente, é uma versão modernizada do DualShock 4 e há funcionalidades úteis, como o carregamento através de um cabo USB-C (a PlayStation 5 tem três portas USB-A, uma porta USB-C, uma porta Ethernet e uma porta HDMI 2.1). Contudo, é na jogabilidade que o brilhantismo se faz, literalmente, sentir. 

O feedback háptico é suficiente para deixar a atenção em alvoroço, algo que se torna ainda mais evidente quando conjugado com os gatilhos adaptáveis dinâmicos. A primeira funcionalidade apresenta um refinamento e uma elevação dos efeitos de vibração no comando. A interacção com os cenários reage de forma distinta, o impacto é reforçado, algo inequivocamente notório em Astro’s Playroom. O sorriso quando a personagem toca diferentes tipos de solo, por exemplo, é imediato. E a Sony foi inteligente, pois este feedback ajuda a uma imersão mais definida.

A outra grande funcionalidade, os gatilhos adaptáveis dinâmicos, proporcionam algo diferente com um desfecho idêntico. A tensão nos gatilhos muda consoante o que estiver a acontecer no ecrã. Abrir uma porta em Observer: System Redux é um bom exemplo do “peso” que a mesma tem e como é um exercício que simplesmente não era possível na versão PlayStation 4 da obra. Em Astro’s, por exemplo, a tensão da corda num arco ou a propulsão de um robô promovem esta funcionalidade. Em algumas tarefas, a força necessária para se pressionar o gatilho não só é uma novidade, também dinamiza a jogabilidade. O DualSense já faz a diferença, é inegável, mas pensar como o comando — que inclui também um microfone e uma coluna — poderá ser adaptado aos diferentes géneros é um exercício entusiasmante. 

É silenciosa, mas o espaço não é assim tanto

Por muito rápida que seja a velocidade de escrita e leitura do disco, rapidamente se tornou evidente que a capacidade vai obrigar a uma gestão cuidada dos títulos que têm instalado em simultâneo. Na caixa está anunciada uma capacidade de 825 GB, mas devido aos ficheiros do sistema, os utilizadores têm acesso a aproximadamente 667 GB. 

A bateria do DualSense não revoluciona, mas também não compromete, tendo autonomia para aproximadamente seis horas. As funcionalidades mencionadas têm impacto nessa autonomia, e mesmo nas obras que tiram máximo partido da mesma, nunca foi alarmante. O comando terá protagonismo consoante as produtoras apostarem no seu suporte. O potencial está lá e as primeiras impressões são incríveis, mas espera-se que os criadores não deixem cair as suas especificidades no esquecimento.

A PlayStation 5 é silenciosa, muito silenciosa. Durante estas semanas é um ponto que ajuda a fazer a diferença. Será interessante perceber se o continuará a ser com o passar do tempo, mas a Sony parece ter-se precavido, colocando no seu interior filtros capazes de apanhar o pó doméstico. Com o som a sair pelas colunas, este silêncio é muito bem-vindo. Aliás, estes pontos atestam o que a Sony aprendeu com as facetas mais criticadas da PlayStation 4. Não é uma consola perfeita, mas são poucos os erros repetidos. 

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Sony

Há dois modelos da PlayStation 5 no mercado. A Edição Standard é comercializada em Portugal por 499,99 euros e a Edição Digital tem um preço marcado nos 399,99 euros. Além da composição estética, a diferença entre ambas é que a Edição Digital não tem um leitor de discos Blu-ray, ou seja, todos os jogos e obras de entretenimento que comprarem terão que ser em formato digital. As valências técnicas são iguais nos dois modelos, portanto não se trata da versão mais barata ser menos poderosa, cenário que se verifica entre as duas consolas que compõem o alinhamento da concorrente Xbox Series.

Além dos preços das consolas, também há que prestar atenção ao que será cobrado por certos jogos. Demon’s Souls e Marvel’s Spider-Man: Miles Morales Ultimate Edition, por exemplo, são comercializados em Portugal por 79,99 euros cada. É um aumento comparativamente aos títulos PlayStation 4 e algo que deverá ser uma prática durante esta geração de hardware.

Uma besta mecânica

A PlayStation 5 é uma consola poderosa que faz muito e muito bem. Quem a conseguir comprar — o inventário continua a escassear — receberá uma máquina que impressiona nas primeiras impressões e que não fecha qualquer porta a um futuro risonho. O design e as dimensões podem continuar a ser debatidos, mas o que está abrigado pelas camadas de plástico é impressionante, transmite segurança e denota um trabalho de casa bem feito. 

Ninguém consegue prever o futuro de um pedaço de tecnologia, mas a Sony teria que cometer uma série de erros crassos para arruinar este início de ciclo. Serão os videojogos a provar o lugar da PlayStation 5 na história e, pela amostra que está disponível desde Novembro, as bases para uma posição confortável já foram lançadas.

Isto não quer dizer que a unidade da Sony transforme por defeito as restantes propostas da indústria em algo a evitar. Vale a pena pesquisar o que a Microsoft oferece com a Xbox Series e o que a Nintendo proporciona com a Switch, para encontrar a melhor consola para as necessidades, gostos e exigências de cada um. Contudo, quem gostar da PlayStation e estiver determinado a comprar uma PS5, não ficará decepcionado com a compra. Quando um 2020 atípico se prepara para despedir, 2021 tem tudo para ser um ano memorável, assim os criadores aprendam a dominar estas bestas mecânicas.