Aumento de mortes por malária “é uma escolha”, diz a Organização Mundial de Saúde

Em 2020, as mortes em excesso pela doença nas regiões mais afectadas deverá ser maior do que o número de óbitos provocados directamente pela covid-19, sublinha a OMS. A maioria são bebés.

Foto
Produção de redes mosquiteiras na Tanzânia, um dos países onde a malária é endémica Katy Migiro

Há cada vez mais pessoas a morrer de malária, a maioria bebés nas regiões mais pobres de África, alertou esta segunda-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS) – no ano passado, registaram-se mais de 409 mil mortes pela doença.

“E esta é uma doença que sabemos como se evita – por isso não o fazermos é uma escolha”, disse Peter Sands, director executivo do Fundo global para o combate à sida, tuberculose e malária.

Em comparação com a covid-19, doença para a qual ainda não há medicamentos de prevenção ou tratamento, as mortes adicionais por malária vão muito provavelmente ser, este ano de 2020, mais do que as causadas directamente pela covid-19, diz a OMS.

As restrições impostas em vários países por causa do coronavírus SARS-CoV-2 têm tido um impacto relativamente limitado nos serviços que lidam com a malária nos países afectados, ainda segundo a OMS. Mas o relatório alerta que mesmo uma perturbação pequena pode ter grandes efeitos: uma redução de serviços de apenas 10% na África subsariana levaria a mais 19 mil mortes. E se os serviços fossem afectados em 25% ou 50%, isso resultaria em mais 46 mil mortes, no primeiro caso, e 100 mil, no outro.

Ou seja, como notou Pedro Alonso, director do programa de malária da OMS numa conferência de imprensa, “é muito provável que as mortes adicionais por malária sejam mais do que as causadas directamente pela covid-19”.

“O mundo da saúde global, os media, e a política, estão todos fixados na covid-19, e estamos a prestar muito pouca atenção a uma doença que ainda está a matar mais de 400 mil pessoas todos os anos, na maioria crianças”, afirmou por sua vez Sands, citado pela agência Reuters. Estima-se que morra uma criança de malária a cada dois minutos.

Metade da população mundial está em risco de contrair malária, que é transmitida através de mosquitos. E com a luta contra a doença a sofrer uma espécie de estagnação em vários dos países mais afectados pela doença já desde 2016, “o sucesso de conseguirmos um mundo sem malária dentro de uma geração está longe de estar assegurado”, disse Alonso. Nos últimos quatro anos o número de casos em todo o mundo tem-se mantido praticamente inalterado (foram 229 milhões de casos em 2019).

O relatório faz notar os avanços feitos na luta global contra a malária nos últimos 20 anos, incluindo 21 países que eliminaram a doença, dez dos quais estão oficialmente certificados como não tendo malária pela OMS.

“Isto quer dizer que mais de metade de todos os países do mundo onde a malária é endémica têm possibilidades de a eliminar”, disse Alonso.

Mas a resistência a medicamentos e a falta de financiamento levaram a uma desaceleração dos progressos. O financiamento global para a malária foi no ano passado de 3 mil milhões de dólares, quando a agência das Nações Unidas estimava serem precisos 5,6 mil milhões.