TAP chega a Setembro com prejuízo de 700 milhões de euros

Terceiro trimestre foi o menos negativo deste ano, com a transportadora aérea a registar um prejuízo de 118,8 milhões. Cortes de empregos e salários estão a caminho.

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Terceiro trimestre foi responsável por perdas de 118,7 milhões de euros LUSA/MÁRIO CRUZ

A TAP chegou ao final de Setembro com um prejuízo de 700,6 milhões de euros, depois de acumular mais 118,7 milhões de perdas no terceiro trimestre. Mesmo assim, este foi o melhor trimestre desde o início do ano, depois do prejuízo de 395 milhões nos primeiros três meses (com forte impacto de Março, mês do início da pandemia) e dos 187 milhões do segundo trimestre.

Estes indicadores, divulgados esta segunda-feira de manhã pela empresa, dizem apenas respeito à transportadora aérea, não sendo ainda conhecidas as contas do grupo (que registou um prejuízo de 606 milhões no semestre). Desde Abril, com grande parte dos aviões parados, a TAP tem recorrido aos apoios estatais em vigor, como o layoff simplificado e o apoio à retoma progressiva, o que lhe permitiu poupar vários milhões de euros em custos com os trabalhadores.

Nos nove meses em análise, a empresa teve uma despesa de 311,7 milhões com pessoal, menos 200 milhões (ou 39,1%) do que em idêntico período de 2019. Aqui, é preciso ter também em conta os muitos contratos que não foram renovados a partir de Março. De acordo com a informação da TAP, até ao final de Setembro houve 729 trabalhadores que já saíram da empresa por falta de renovação de contrato. Em Setembro, havia 8510 trabalhadores na TAP, quando no final de Junho eram 8593. Sobre o apoio do Estado, a empresa afirma que a “natureza temporária” do regime em vigor “torna imperativa a adopção de soluções permanentes, a serem alcançadas através das negociações com os sindicatos representativos dos trabalhadores da TAP”.

"Forte e transversal corte de custos”

Os sindicatos, após a reunião que tiveram na sexta-feira passada com o presidente do conselho de administração, Miguel Frasquilho, e com o presidente executivo interino, Ramiro Sequeira, dizem ter sido confrontados com um cenário que, no total, implica menos 2000 postos de trabalho permanentes (entre 750 tripulantes, 500 pilotos e mais 750 trabalhadores de terra) e a redução dos salários em 25% (protegendo os mais baixos).

Num comunicado enviado aos trabalhadores, a administração fala num “forte e transversal corte de custos” para “evitar o fim da TAP”, e diz que irá apresentar, nas próximas semanas, um “pacote de medidas voluntárias”. Este incluirá “rescisões por mútuo acordo, licenças não remuneradas de longo prazo, trabalho a tempo parcial e outros mecanismos voluntários”. “Quanto maior for a adesão, menos será a necessidade de outras medidas a decidir futuramente”, sublinham os responsáveis da empresa, agora de volta à esfera pública (o Estado passou a deter 72,5%).

“Ainda assim”, acrescentam os responsáveis da empresa, estão “colocados para discussão cenários como a suspensão do pagamento de alguns complementos remuneratórios, cortes salariais transversais, garantindo um valor mínimo que assegure a protecção aos salários mais baixos, e ainda a possibilidade de adequar o número de trabalhadores a uma operação que nos próximos anos será reduzida em 30% a 50%, retrocedendo assim a valores vividos há mais de uma década”.

Na sexta-feira à noite, a TAP anunciou que ia prescindir do regime de apoio extraordinário à retoma progressiva no mês de Dezembro. Um dos requisitos para aderir a esta medida é o de não efectuar despedimentos. Aliás, o mesmo é válido nos 60 dias subsequentes à concessão do apoio (contados a partir do último dia da ajuda), período em que a empresa, de acordo com as regras, nem pode “iniciar os respectivos procedimentos, sob pena de incumprimento”.

Esta segunda-feira, os sindicatos começam a encontrar-se com o ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos. Resta saber se há margem de negociação, e qual a sua dimensão, até porque o plano de reestruturação tem de ser entregue em Bruxelas até ao dia 10 de Dezembro.

Novos travões via covid-19

No comunicado sobre as contas disponibilizado esta manhã, verifica-se que os gastos operacionais (envolvendo rubricas como despesas ligadas ao tráfego e o combustível, além dos trabalhadores) foram de 1451 milhões de euros até Setembro. Este é um valor bastante acima dos 841 milhões de rendimentos operacionais obtidos com passagens aéreas – que caíram a pique -, manutenção e carga no mesmo período. O resultado operacional foi negativo em 610 milhões de euros, quando em idêntico período do ano passado tinha sido positivo (em 43,6 milhões).

O número de passageiros transportados no terceiro trimestre, demonstra a TAP, caiu 83%, o que equivale a menos 4,2 milhões em termos homólogos. Já entre Janeiro e Setembro, a queda foi de 70%, equivalente a 9,1 milhões de passageiros (Janeiro e Fevereiro foram dois meses de crescimento).

A primeira metade do terceiro trimestre até trouxe boas notícias, através de vertentes como o “tráfego de lazer nas rotas europeias de médio curso” e o segmento que a empresa designa de visiting friends & relatives (visitas de amigos e familiares) no longo curso. No entanto, diz a transportadora, “esta recuperação foi revertida pelas novas restrições às viagens e pela queda da procura associada ao aumento dos casos de covid-19”.  O Reino Unido, por exemplo, deu um impulso quando colocou Portugal na lista de destinos seguros (sem obrigatoriedade de quarentena) a 22 de Agosto, mas revogou logo a medida a 12 de Setembro.

A TAP diz ter actuado “de imediato” para “ajustar a sua rede e mitigar o impacto negativo nos custos e no consumo de caixa”. Mas acrescenta que os indicadores do terceiro trimestre “evidenciam que ajustamentos mais profundos terão de ser realizados para reduzir a diferença entre a queda das receitas operacionais e o corte de custos”.

Menos aviões em terra e no ar

A TAP tem conseguido manter-se de pé, mas apenas graças aos 1200 milhões de euros que o Estado está a emprestar, o que conduz à necessidade de apresentar o plano de reestruturação em Bruxelas, onde terá de se demonstrar que a empresa é viável sem mais ajudas públicas.

Para já, a TAP está a consumir menos dinheiro de caixa (a empresa diz que a 30 de Setembro a liquidez era 326,8 milhões de euros, acima dos 182,6 milhões de Junho), tentando ajustar a oferta à procura e melhorar a taxa de ocupação, ao usar as aeronaves Embraer da Portugália ou os A321neo Long Range. Os aviões de maior porte ficam muito mais em terra, ou estão a ser usados em rotas com maiores necessidades de carga e ligadas ao longo curso.

A redução da estrutura da TAP passa também por uma descida do número de aeronaves, depois de um ciclo de crescimento. A transportadora aérea refere que no final de Setembro tinha 101 aviões, incluindo aqui as 13 aeronaves da Portugália. Em Junho, a frota era composta por 108 aviões, dos quais 102 estavam operacionais.

Na carta aos trabalhadores, a administração referiu que o objectivo é chegar às 88 aeronaves no ano que vem. Para já, foram adiadas novas entregas por parte da Airbus e com elas adiou-se o esforço financeiro. Depois, a empresa diz que os pagamentos “associados ao leasing operacional de aeronaves caíram 43 %, quando comparados com igual período do ano passado, reflectindo as negociações com lessors para diferimento de pagamentos e reduções de rendas”. Este ano, nota, “prevê-se que estas renegociações reduzam em cerca de 175 milhões de dólares” (cerca de 146 milhões de euros) a despesa em aeronaves.

Há casos em que as rendas baixaram, e outros há em que ficou estabelecido que a TAP só paga de acordo com as horas de voo do avião em causa, transformando assim custos fixos em variáveis. A redução inclui também a devolução de aeronaves cujos contratos vão chegando ao fim e a venda de antigos aviões, comprados por empresas que os desmontam para depois vender peças. Neste último caso, o ganho surge mais pelo corte na despesa de manutenção do que pela venda do activo.