TAP adia novas compras e quer vender aviões

Grupo quer vender aviões, devolver outros mais cedo, e adiou um investimento de 854 milhões de euros em novas aeronaves. Os efeitos da pandemia, diz a TAP, “deverão continuar a ser significativos nos próximos trimestres”, depois de o grupo ter registado um prejuízo de 606 milhões.

Foto
TAP tinha uma frota da TAP de 108 aviões no final de Junho Nuno Ferreira Santos

A TAP está a reestruturar a dimensão da sua frota de aviões e já tem em curso “a possível venda de seis a oito aeronaves (seis A319 e dois A320). Além disso, está também a estudar “a devolução antecipada de aeronaves em regime de locação operacional e a potencial venda de aeronaves em regime de locação financeira”.

“A evolução futura da frota será naturalmente um dos temas estruturantes do plano de reestruturação que se encontra em elaboração” e que tem de ser entregue em Bruxelas até ao dia 10 de Dezembro, diz o grupo no relatório referente às contas do primeiro semestre divulgado esta segunda-feira à noite na CMVM.

Perante a necessidade de reduzir a estrutura da transportadora aérea devido aos efeitos que a pandemia de covid-19 está a provocar nas viagens, e de apresentar um plano de reestruturação em Bruxelas por causa das ajudas de Estado que podem chegar aos 1200 milhões de euros, o grupo diz que já negociou com a Airbus e outras entidades o adiamento da entrega de novas aeronaves.

Esse acordo, diz o relatório, foi concluído e envolve a “renegociação de datas de entrega previstas para o período entre 2020 e 2022”, com “impacto ao nível do diferimento dos compromissos com o pagamento de pre-delivery payments à Airbus, bem como a obtenção de outras vantagens comerciais ao nível da protecção do preço das aeronaves”.

De acordo com a TAP, ficou acordado o diferimento das datas de entrega de 13 aeronaves A320neo de 2012-2022 para 2025-2027, bem como de dois A330neo de 2022 para 2024, que podem ser trocados “por outros modelos, a avaliar em função da retoma de mercado e necessidades da TAP na altura”. Estas alterações nos prazos de entregas permitem ao grupo adiar um esforço financeiro ao reduzir o investimento previsto para 2020-22 em cerca de mil milhões de dólares (854 milhões de euros, ao câmbio actual).

Segundo a apresentação de resultados divulgada esta terça-feira, e que contém informação complementar, vão chegar oito aviões A320 neo até 2022 em vez dos 21 previstos. Seguem-se mais quatro em 2023 e em 2024, a que somam agora mais seis em 2025, cinco em 2026 e seis em 2017.

Conforme está descrito no relatório semestral agora divulgado, a TAP contratou com a Airbus a aquisição de 53 aviões (dos quais 39 A320neo e 14 A330neo) “a receber entre 2018 e 2025”. Em Junho, a frota da TAP, que ainda está em processo de renovação, era composta por 108 aviões, dos quais 102 estavam operacionais (no final do ano passado, a frota era composta por 105 aviões, contra os 75 que existiam no ano da privatização, em 2015).

Olhando para o segundo semestre, a TAP afirma que vão entrar em operação quatro novas aeronaves, (dois A321neo LR, um A320neo e outro A321neo).

124 milhões em “rendas vencidas não-pagas”

Ainda no que diz respeito à frota, as contas do primeiro semestre foram fechadas com 124 milhões de euros em “rendas vencidas não-pagas” a fornecedores de aviões em regime de leasing. De acordo com o relatório, a TAP “negociou com alguns dos seus fornecedores de serviços correntes planos de pagamentos até Dezembro de 2020 e o alargamento do prazo de pagamento, o que motivou o aumento das contas a pagar face a Dezembro de 2019”.

No caso concreto dos contratos de leasing de aeronaves, o grupo diz que tem “vindo a desenvolver negociações com os lessors no sentido de reduzir o valor mensal das rendas dos equipamentos” e a “obter o consentimento para o não-pagamento de rendas e o alargamento dos prazos contratuais”, “mantendo presente nessas negociações”, explica, “a eventual futura necessidade de redução de frota decorrente do plano de reestruturação”.

As negociações com estes fornecedores, diz a TAP, “estão a avançar a bom ritmo, sendo que, no final de Agosto, cerca de 60% da frota em regime de locação operacional já tinha a renegociação concluída ou com a discussão finalizada e em fase de formalização da respectiva documentação, não tendo ainda sido reconhecido no balanço de 30 de Junho de 2020 qualquer impacto”.

606 milhões de prejuízos e futuro turbulento

Em termos de resultados financeiros, o grupo TAP registou um prejuízo de de 606 milhões de euros. A esmagadora maioria dos resultados negativos vieram da TAP SA, com a transportadora aérea a sofrer um prejuízo de 582 milhões de euros, cerca de cinco vezes acima do valor registado em idêntico período de 2019 (e que já foi um resultado negativo).

Os outros 24 milhões de euros de prejuízos do grupo vieram das restantes actividades, como o catering, tratamento de bagagens (handling) ou a manutenção. Estes números são o resultado da paragem parcial de Março e quase total nos três meses seguintes, com a procura a cair a pique devido ao surto de covid-19.

A actividade de transporte de carga e correio ajudou a conter as perdas, com uma descida de 19% para 53,2 milhões de euros, menos expressiva do que a de passagens aéreas (-57,2% para 545,4 milhões). Houve, inclusivamente, a conversão de dois A330neo em aviões de carga, através da remoção das cadeiras da classe económica.

Os efeitos da pandemia, diz a TAP, “deverão continuar a ser significativos nos próximos trimestres”, o que pode ser agravado em caso de novos surtos significativos do vírus e da imposição de novas restrições à mobilidade (até que uma vacina ou um tratamento eficaz esteja disponível) ou simplesmente pela incapacidade das economias recuperarem significativa e rapidamente das condições económicas adversas causadas pela pandemia até ao momento, nomeadamente em termos de emprego, rendimento disponível e níveis de confiança do consumidor”.

Esta terça-feira, a IATA, associação mundial das companhias aéreas, afirmou que a recuperação que se estava a sentir no sector parou em meados de Agosto, com o anúncio de novas restrições à circulação em vários mercados relevantes. Ao falar de um Agosto “desastroso”, inserido no “pior Verão de sempre” para a indústria, a IATA reviu as suas estimativas para o total do ano, prevendo agora uma queda de 66% mais profunda do que os anteriores 63%.

Ajudas do Estado

Só em Julho, a TAP já recebeu 474 milhões de euros do Estado (39,5% do máximo previsto), tendo sido depois transferidos mais 25 milhões no final de Agosto. De acordo com o calendário estabelecido, haverá mais quatro tranches a entregar pelo Estado no final de Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro.

A TAP recorreu logo desde Abril ao layoff simplificado, tendo depois, em Agosto, passado para o apoio à retoma de actividade, com redução do horário de trabalho (entre os 70% e os 20%) em vez da suspensão total. A empresa vai renovar esse apoio para o mês de Outubro, e já sinalizou que poderá fazer até ao final do ano. Além deste apoio, o grupo recorreu também aos regimes temporários ligados ao cumprimento de obrigações fiscais e contribuições sociais, à suspensão de prazos judiciais, administrativos e tributários, e à protecção dos créditos das empresas (as moratórias), criados no âmbito do combate aos efeitos da pandemia.

Em curso está ainda o reforço do Estado no capital do grupo, passando de 50% para 72,5%, através da compra da posição de David Neeleman, faltando ainda a “luz verde” da Autoridade da Concorrência.