Covid-19: dois máximos de mortes numa semana. Se restrições tiverem efeito, previsões “não serão tão pessimistas”

Portugal voltou a ultrapassar o máximo diário de vítimas mortais. Há previsões de que este número possa vir a aumentar nos próximos dias, mas só se as medidas impostas pelo Governo não se mostrarem eficazes. Especialistas dizem que é preciso esperar para ver e que é necessário um mapa de risco de todo o território português, não só das zonas a vermelho.

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REUTERS/Stephane Mahe

Numa semana, Portugal já registou dois novos máximos de mortes por covid-19. Esta terça-feira foi o dia mais mortal da pandemia — a doença causou 82 mortes em 24 horas. Foram mais 19 mortes do que no último máximo registado no domingo, 8 de Novembro, quando houve 63 mortes.​ A média diária de óbitos já ultrapassou os valores da primeira vaga, mas sabemos que agora as circunstâncias são diferentes: há mais casos, mais hospitalizações e mais doentes internados em unidades de cuidados intensivos. Pode tudo isto fazer com que o número de mortes continue a subir nos próximos dias?

Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), diz ao PÚBLICO que, segundo as últimas previsões, feitas esta segunda-feira, Portugal pode chegar a um pico de 11 mil novos casos e a uma centena de mortes diárias entre a segunda e a terceira semanas de Dezembro. Avisa, no entanto, que este cenário só se concretizará se as novas medidas do Governo — entre estas as restrições que afectam 121 concelhos e 7,1 milhões de portugueses — não forem eficazes no propósito de achatar a curva dos casos, das mortes, mas também dos internamentos.

Uma previsão semelhante já tinha sido feita na semana passada pelo investigador do Departamento de Matemática do Instituto Superior Técnico (IST), Henrique Oliveira, ao PÚBLICO. O também professor afirmava que se se começassem a sentir os efeitos das medidas adoptadas, Portugal chegaria às 80 mortes por dia, algo que aconteceu esta terça-feira — “e depois começaremos a baixar”, antecipava.

Sobre os óbitos registados esta terça-feira, Manuel Carmo Gomes diz que não esperava um número tão alto. “Fiquei surpreendido com um número tão elevado porque não é normal as mortes terem estes altos e baixos. Esperava algo entre os 60 e os 70”, diz o professor de epidemiologia​. “Temos de ver as médias semanais. Estamos a apontar para as 100 mortes na terceira semana de Dezembro. Se começamos com médias de 80 nesta altura é um mau sinal”.

O pneumologista Filipe Froes afirma que o que está a a acontecer “não é nada de novo”. “À medida que aumenta o número de casos, aumenta o número de pessoas com formas graves de doença que precisam de internamento em enfermarias e cuidados intensivos. E algumas delas acabam mesmo por falecer mesmo que a taxa de letalidade diminua, fruto da melhor capacidade de tratar, o aumento do número absoluto de casos condiciona o número absoluto de óbitos”, refere o também coordenador do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos. “A curva da mortalidade é sempre a última a aumentar, mas é a única que não desce”.

Além disso, o médico afirma que à medida que as condições de tratamento e a alocação de meios para tratar doentes se esgotar, o país perderá a vantagem dos conhecimentos que já adquiriu para tratar a doença. 

Há também que ter em conta (além da idade das vítimas mortais) a faixa etária dos casos internados, uma vez que a “probabilidade de morrer depende da idade do doente”, diz Manuel Carmo Gomes. Existem, segundo o boletim da Direcção-Geral da Saúde divulgado esta quarta-feira, 2785 doentes internados, 391 destes estão em unidades de cuidados intensivos, mas os dados da DGS não permitem saber que idades têm. “É natural que, se a idade média dos doentes internados começar a ser mais elevada, as perspectivas, nomeadamente em relação ao risco de morte, comecem a ser piores também”, refere o epidemiologista.

E sobre o número de casos, Manuel Carmo Gomes avisa que não podemos olhar para os dados diários, mas sim para as médias semanais, uma vez que os números da covid-19 são sempre mais baixos entre domingo e terça-feira (por causa dos laboratórios que estão encerrados aos fins-de-semana) e voltam a aumentar no resto da semana. E o ciclo repete-se. “Nos próximos dias, se a média não subir muito acima dos 5 mil casos é bom sinal. O número de casos pode continuar a aumentar, mas desacelera”, diz.

É preciso esperar pelo impacto das medidas

E quando é que começaremos a perceber se as medidas para conter a propagação do vírus resultam? Só dentro de alguns dias (ou semanas). “Tudo isto foi estimado a assumir que o que estávamos a observar até ali se mantinha exactamente igual, não havia qualquer impacto das medidas. Fizemos contas esta semana, mas ainda não conseguimos sentir o efeito das medidas. Se tiverem impacto, e só saberemos isso daqui a alguns dias, a previsão não será tão pessimista”, relata Manuel Carmo Gomes.

Para o epidemiologista, nesta altura é preciso estar atento ao valor do índice de transmissão da doença, o famoso Rt. Na prática, se este valor for igual a 1 quer dizer que uma pessoa infectada vai dar origem a outro caso de infecção. Caso esteja acima de 1, o número de casos irá aumentar; se for inferior a 1, haverá uma diminuição das infecções. Entre os dias 28 de Outubro e 1 de Novembro, os últimos dados disponíveis, o valor médio do Rt foi de 1,14, podendo o verdadeiro valor estar entre 1,13 e 1,15.

“O Rt esteve a descer desde o dia 10 de Outubro, mas agora quando o medimos estava estável no 1,15. A partir do momento em que ele esteja acima de um e não desça, esteja estagnado, temos crescimento exponencial. Se o Rt descer em relação ao 1, as coisas estabilizam”, explica o professor. “Para fazer com que as coisas não piorem e para o Rt baixar para o valor de 1, os portugueses terão que reduzir entre 15% e 20% os seus contactos”.

Um mapa de risco de todo o território

A opinião de Filipe Froes é que Portugal necessita de ter um mapa de risco que mostre a evolução da pandemia em cada concelho, algo que dotará as autoridades nacionais, mas principalmente as locais, de ferramentas para combater a propagação da doença nesse território em específico.

Os dados de infecções por concelho não são divulgados há mais de duas semanas, mas o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, admitiu esta quarta-feira que essa divulgação é “importante” e reiterou o compromisso de passar a divulgá-los aos autarcas para que “saibam com o que contam”. A partir dessa actualização, os boletins diários vão mostrar a incidência da doença (o número de casos nos últimos 14 dias por cada 100 mil habitantes) em cada concelho.

“Devíamos ter neste momento um mapa do risco, do nível de actividade por todos os concelhos. Dentro dos 121 concelhos da zona vermelha temos realidades muito díspares, e estamos a tratar realidades diferentes com medidas iguais”, refere Filipe Froes, que diz existirem zonas para lá do “vermelho”, a “roxo e preto”, por exemplo. “Um mapa deste tipo permitiria monitorizar todos os concelhos em tempo real, até porque há concelhos a amarelo que estão a crescer em casos e as pessoas não sabem e acham que está tudo bem”, sublinha o pneumologista, que defende que se adopte essa medida como forma de prevenir um descontrolo nessas situações.

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