Ministra diz que situação é “grave e complexa”. Número de internados em cuidados intensivos pode bater recorde esta semana

Marta Temido diz que previsões apontam para que no dia 4 de Novembro haja mais de três mil doentes internados, 444 dos quais em unidades de cuidados intensivos. E alerta que a este ritmo os hospitais vão ter de começar a encaminhar doentes para os sectores privado e social.

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ANTÓNIO COTRIM

A situação em Portugal é “grave e complexa”, avisa a ministra da Saúde, que admite que, se os números continuarem a evoluir a este ritmo – nos últimos 14 dias Portugal ultrapassou o limiar de 300 novos casos por 100 mil habitantes –, vai ser necessário desmarcar de novo actividade assistencial e, eventualmente, encaminhar os doentes que ficam sem resposta para os sectores privado e social, e também se equaciona a hipótese de decretar medidas mais restritivas noutros concelhos. “O Serviço Nacional de Saúde tem limites e temos o dever de proteger essa capacidade”, justifica.

Numa conferência de imprensa em que se propôs clarificar a capacidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para dar resposta à pandemia, Marta Temido apresentou as projecções do Instituto de Saúde Doutor Ricardo Jorge que indicam que, nesta quarta-feira, podemos ultrapassar o máximo de doentes com covid-19 em estado grave internados em cuidados intensivos na primeira vaga (271) e que, apenas uma semana depois, em 4 de Novembro, esse número poderá ascender a 444 pacientes internados nestas unidades de grande complexidade. Nas enfermarias, o ritmo de crescimento dos internamentos previsto também é preocupante. Se as medidas entretanto decretadas para conter o ritmo dos contágios não se revelarem efectivas, em 4 de Novembro haverá 2635 doentes internados, o dobro do pico registado na primeira vaga.

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A pressão sobre os hospitais decorre do crescimento dos novos casos em pessoas de todas as faixas etárias, mas a taxa de notificação do grupo com mais de 85 anos já “ultrapassou o máximo observado na semana de 20 a 26 de Abril, uma das semanas mais complicadas”, disse Marta Temido. “Dada a fragilidade dos indivíduos deste grupo etário, considera-se que esta situação pode levar a um aumento das hospitalizações e mesmo dos óbitos nas próximas semanas”, acentuou.

Quais são, então, os limites da capacidade de resposta do SNS? A resposta não é clara. Para picos de afluência em geral (covid e não covid), “e numa situação já muito extremada”, os hospitais públicos dispõem de 17.225 camas em enfermarias e 852 em unidades de cuidados intensivos, especificou a governante. Mas, em simultâneo, adiantou que, das 19.788 camas dos hospitais gerais, 17.741 poderão ser usadas para doentes com covid-19, ressalvando que “esta capacidade está afecta também a outros tratamentos”. 

Para aumentar a confusão, a ministra elencou os números da capacidade actual de internamento em cuidados intensivos nas cinco administrações regionais de saúde, que são substancialmente inferiores, porque ainda estamos em fases iniciais dos planos de contingência. Por enquanto, há apenas 318 camas de cuidados intensivos afectas a covid-19 e estavam ocupadas nesta segunda-feira 240, cerca de 75% do total, portanto, tendo a região Norte o maior número de internamentos (123 doentes, quando os hospitais de Lisboa e Vale do Tejo tinham esta segunda-feira 87). Marta Temido reforçou que a capacidade de internamento é “relativamente dinâmica e de gestão relativamente flexível”.

Sublinhando que a iniciativa de apresentar os números sobre a capacidade do SNS não pretendeu ser uma resposta às críticas das várias personalidades, nomeadamente ex-ministros da Saúde, que foram ouvidas nos últimos dias pelo Presidente da República - “estamos preocupados em responder às necessidades em saúde dos portugueses, não temos uma agenda para responder a outras circunstâncias” -, voltou também a destacar que o SNS dispõe agora de 1889 ventiladores quando em Março tinha 1142, mas não ficou claro se há ou não profissionais em número suficiente para operar estes equipamentos sofisticados. Revelou apenas que foi aberto um concurso para 48 médicos intensivistas e que vai ser aberto outro no início de 2021 para recrutar mais 46 especialistas em medicina intensiva

No longo rol de números que apresentou, a ministra fez ainda questão de destacar a “clara evolução do reforço de efectivos no SNS entre 2015 e 2019”, com “15.425 novos profissionais efectivos”, e isto é um saldo líquido, enfatizou. Entre 31 de Dezembro de 2019 e Setembro deste ano, o reforço foi de 5459 profissionais de saúde. Quanto a médicos, detalhou, nos primeiros nove meses do ano foram contratados mais 548 e, no mesmo período, foram recrutados 1727 enfermeiros.

Com Rita Robalo Rosa

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