4. O fetichismo da tecnologia

A grande moda da digitalização abarca todos os domínios da vida social, está presente no vocabulário do discurso “inovador” e “vanguardista”, como se fosse a solução mágica para a resolução dos problemas do país. Puro engano!

É espantoso o desenvolvimento tecnológico verificado no último meio século. Se rebobinarmos a fita do tempo surpreendemo-nos com os “saltos” sucessivos que permitiram passar dos grandes computadores dos anos 70 para os milagres da miniaturização e das nanotecnologias, das caixas de cartões perfurados para os “big data”, alojados não se sabe bem onde, dos meios elementares de diagnóstico médico, do centenário estetoscópio à imagiologia e à cirurgia robótica, da automação industrial aos sensores e à inteligência artificial. Esta é a maior revolução tecnológica alguma vez concretizada na história da humanidade.

Na sua relação com as dinâmicas sociais e culturais identificam-se alguns traços distintivos dessa revolução tecnológica. Destaco, entre os mais relevantes, as relações tensionais entre individualismo e massificação, inovação e obsolescência, e, por último, a que daremos um pouco mais de atenção, o fetichismo da tecnologia.

A tensão entre individualismo e massificação está formulada, pelo menos, desde John Stuart Mill e Alexis de Tocqueville e centra-se na liberdade e diversidade de uma sociedade de indivíduos e cidadãos face ao que se temia ser o risco de “tirania das massas” ou, se quisermos, do despotismo das maiorias. Ambos convergiam na necessidade de criar instituições políticas que garantissem um indispensável equilíbrio entre os direitos fundamentais dos indivíduos, da sua liberdade e poder de diferenciação, e o respeito pela vontade das maiorias, por mais irracional e anacrónica que ela seja.

As novas tecnologias, nomeadamente as da informação e comunicação, vêm ampliar essa tensão e introduzir novos motivos de preocupação relativamente ao acesso massificado à informação, à opinião e ao poder que pequenos grupos têm para induzir ideias, conceções e comportamentos da enorme massa humana de utilizadores e consumidores. A visão orwelliana continua a pairar sobre o futuro das nossas sociedades, ainda que numa escala ampliada, mais descentralizada mas, também, mais fragmentada.

O segundo traço distintivo da revolução tecnológica identifica a relação entre o ritmo e amplitude da inovação com o problema da obsolescência. Esquecida durante décadas, a teoria da inovação de Joseph Schumpeter ganha especial relevância pela ajuda que nos dá para compreender a atual revolução tecnológica. A ideia de um modelo assente nos conceitos de “cachos de inovações”, da trajetória incremental e, talvez o mais divulgado, da “destruição criadora”, permite-nos compreender em que medida esta revolução traz algo de novo.

Em primeiro lugar, porque os “cachos de inovações” libertaram-se da sua associação a determinadas fases do ciclo económico para se inscreverem em processos contínuos de base incremental. Em segundo lugar, porque os ciclos de inovação tornaram-se cada vez mais curtos: o tempo que medeia entre a inovação e a sua obsolescência é mais reduzido. Em terceiro lugar, porque estamos perante um modelo autofágico, ou seja, cada inovação tende a destruir a inovação anterior que lhe deu origem. A destruição criadora já não afeta os empresários inovadores da geração anterior que não conseguiram adaptar-se à competição aberta, tende a destruir e a tornar obsoletas as suas próprias inovações. Ou seja, a figura do empresário inovador tende a ser substituída por sistemas despersonalizados de inovação contínua.

Por último, talvez o mais decisivo traço distintivo: o fetichismo da tecnologia.

Recordo um episódio verificado em 1996 e repetido em 1997. Pela primeira vez um computador ganhou uma partida de xadrez ao que na altura era considerado o melhor jogador de todos os tempos, Garry Kasparov. Em 1997, o computador criado pela IBM voltou a ganhar duas partidas, o que lhe permitiu ganhar o match de 6 (três empates e uma derrota). Muitos dos leitores lembrar-se-ão do nome do campeão de xadrez. Outros tantos recordarão o nome do computador, “Deep Blue”. Mas pergunto: quantos se lembram dos nomes dos programadores que desenvolveram o software? Cinco engenheiros e um ainda jovem Grande Mestre de Xadrez: Chung-Jen Tan, Murray Cambell, Feng-hsiung Hsu, Joseph Hoane Jr., Jerry Brody e Joel Benjamin.

O que ficou para a história foi Kasparov e o Deep Blue, o homem derrotado pela máquina. Todo o conhecimento que foi necessário mobilizar a partir do registo de 700 mil jogos envolvendo os grandes mestres do xadrez, bem como o complexo processo de programação, foi liminarmente colocado em segundo plano.

A nossa relação com a tecnologia de então para cá não se alterou de forma significativa. O fascínio da tecnologia faz esquecer o valor do conhecimento e da ação humana que a concebem e desenvolvem. À tecnologia são atribuídos poderes mágicos, por vezes sobre-humanos, quando de mágico não tem nada e a capacidade humana de produzir essas tecnologias está muito longe do seu limite.

O conceito de fetichismo foi pioneiro em Marx, quando, a propósito do conceito de alienação, falava do “fetichismo da mercadoria”. David Harvey – um geógrafo inglês de orientação marxista – transpõe a ideia para falar do fetichismo da tecnologia, entendendo-o como a propensão humana para “dotar objetos ou entidades, reais ou imaginárias, de poderes autocontidos, misteriosos e até mágicos para mover e moldar o mundo de maneiras distintas” (The Fetish of Technology: Causes and Consequences).

A ação e o discurso político, nomeadamente entre nós, refletem esse fetichismo da tecnologia. A grande moda da digitalização abarca todos os domínios da vida social, está presente no vocabulário do discurso “inovador” e “vanguardista”, como se fosse a solução mágica para a resolução dos problemas do país. Puro engano! Na melhor das hipóteses tornar-nos-emos melhores consumidores da tecnologia que outros concebem, produzem e comercializam, meros agentes passivos de um processo cujo valor acrescentado é reduzido.

O que nos poderá salvar é a produção de conhecimento inovador, incorporado ou não em tecnologia, suscetível de ser mobilizado para acrescentar valor aos bens que produzimos. Digitalizar sem uma prévia mudança dos processos é reproduzir os (maus) serviços existentes. Automatizar sistemas industriais obsoletos é dar-lhes uma nova roupagem, sem mudar a sua real natureza.

Quarto de uma série de dez textos de David Justino que publicaremos semanalmente, sempre às quintas-feiras, sobre os desafios que enfrentamos em várias áreas, em Portugal e no Mundo. Próximo artigo: “O futuro: entre o oráculo e a distopia"

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico​