Gustavo Carona

“Os mais informados estão nos hospitais com os doentes e os mais desocupados têm tempo para conspirar”

Em entrevista ao PÚBLICO, o intensivista alerta: “Estamos a chegar a um momento em que não vai haver serviços de saúde para todos”.

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Os médicos “não são treinados para comunicar e isso é um problema” Adriano Miranda

Já passou por cenários de guerra em mais de uma dezena de missões humanitárias em países como Iraque, Síria, Paquistão, Afeganistão, República Centro-Africana ou Congo, mas o desafio com que Gustavo Carona lida agora chama-se covid-19. O médico anestesista é intensivista no Hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos, e tem sido uma das vozes a reiterar a importância de educar o público sobre o vírus. Num vídeo entretanto tornado viral, o cronista do Ímpar explica por que é fundamental evitar o colapso dos hospitais e fala numa “manta curta” que vai acabar por “destapar” doentes.

Em entrevista ao PÚBLICO, Gustavo Carona admite que “é difícil encontrar a dose certa” entre manter o público informado e não o “exacerbar” de tal forma que leve a um “desinteresse”, fazendo com que as pessoas se “desliguem do vírus”. Ainda assim, considera que “é impossível contornar aquele que é o maior desafio das nossas vidas em termos colectivos”.

Ainda que os números e os dados sejam fundamentais para compreender o avanço da pandemia, o médico sublinha que “é importante perceber por detrás estão caras, pessoas, famílias” porque, caso contrário, “as pessoas ficam dessensibilizadas se os números diários estão em três ou quatro mil”.

Por isso, vinca, há que dar especial atenção à forma como é feita a comunicação. Gustavo Carona lamenta que, “acima de tudo, se vejam comentadores políticos na televisão” que “não têm os saberes nem a experiência que lhes permita ter uma visão sobre saúde”, e não deixa esquecer que “até já os comentadores desportivos falam da pandemia em jeito de conhecedores do assunto”.

Uma das soluções, acredita, está nos profissionais de saúde que poderiam assumir esse papel. A questão é que os médicos “não são treinados para comunicar e isso é um problema”. Ao mesmo tempo que o intensivista elogia a seriedade e calma dos colegas que marcam presença na comunicação social, afirma que, “por mais que tentem não ser tecnocratas e usar terminologia que seja compreensível ao público, são sempre de alguma forma enfadonhos” o que dificulta o “chegar facilmente às pessoas”.

Em resumo, o intensivista considera que “há demasiados comentadores políticos a falar do que não sabem” e falta “experiência em comunicação” aos médicos que “agarrem o público” no seu discurso.

“Sem energia” para rebater “temas absurdos”

Mas, se a comunicação usando as vias tradicionais pode não estar a ser a mais eficaz, as redes sociais não ajudam. Numa questão de saúde pública, “às vezes os debates mais importantes acontecem às mesas de café”, analisa o médico, sendo que “neste momento as mesas de café estão condicionadas às redes sociais”. Embora gostasse de ver “conversas que não fossem nocivas e conflituosas” no mundo virtual, o anestesista sabe que “isso é muito difícil”.

Questionado sobre se é um dever dos profissionais de saúde ter uma postura activa de contribuir para o debate e rebater a desinformação nas redes sociais, Gustavo Carona diz não ter a certeza se essa será uma obrigação dos médicos e fala do “paradoxo do tempo”. “Os mais informados estão nos hospitais com os doentes e os mais desocupados têm tempo para conspirar, para publicar e para se entreter em teorias da desinformação, explica.

Perante um paradoxo “difícil de combater”, o médico diz que já foi “confrontado com muita coisa”  eque por vezes não tem “força, energia nem disponibilidade mental” para rebater os argumentos que ouve. “Fica-se sem energia para debater temas absurdos”, desabafa. Ainda assim, afirma que nunca um doente seu chegou ao hospital a negar a pandemia. “Se são negacionistas, pelo menos nos hospitais não o revelam”, sublinha.

O intensivista faz a comparação e diz que não consegue “conversar com quem ache que a terra é plana”. “Há uma distância tão grande entre os factos e as crenças no inverosímil que muitas vezes fazem com que o diálogo seja impossível”, considera.

Não há “‘agenda’ escondida”

Para Gustavo Carona, “há um certo background de seriedade que é de alguma forma intocável”. Ou seja, lembra que “a comunidade médica deste país e do mundo esteve dedicada à saúde das pessoas” e afirma que “não há motivo nenhum para acreditar que foi enfeitiçada por uma varinha mágica” que vá ao encontro de “teorias da conspiração”. “Nós não podemos achar que há uma ‘agenda’ escondida por parte das instituições que sempre nos defenderam”, justifica.

 A desinformação, considera o médico, é “perigosíssima” porque nos “afasta da solução do problema”. “A desinformação é trágica”, reitera, e “deveria ser punida por lei num momento em que está tanto em jogo”.

E o que faz disseminar essa desinformação? “O problema é que, como estamos todos a sofrer, é da natureza humana querer acreditar nas mentiras que nos dão jeito”, aponta. Assim, “inverte-se a lógica e não são os argumentos que levam a uma conclusão”, existindo “uma conclusão predefinida” que leva a que as pessoas se “fechem numa bolha” e vão “atrás de todas as migalhas que possam reforçar a sua ideia”. 

O problema adensa-se quando são outros profissionais de saúde que colaboram para a desinformação, continua. “Nenhum destes médicos que estão a duvidar da pandemia é minimamente credível pelos seus pares nas áreas de interesse”, sublinha, pelo que são “pessoas que nunca trabalharam com estes doentes, portanto não sabem do que estão a falar e quando têm opiniões profundas sobre o assunto, obviamente, estão a exibir a sua ignorância”.

Gustavo Carona lamenta que “as pessoas sejam levadas pelo chavão do ‘se este é médico, sabe o que diz’”.

No que toca ao argumento de que existem situações de saúde mais graves por todo o mundo, por vezes utilizado para relativizar o impacto da pandemia, Gustavo Carona concede que, “obviamente, há outros problemas no mundo”, sendo ele próprio “testemunha disso” através das missões humanitárias que já fez, mas considera que “não se pode misturar problemas”.

Para o anestesista, “aceitar o desafio e a gravidade da doença é uma questão”, enquanto “aceitar que existem outros problemas no nosso país e no resto do mundo é outra questão”, sendo que as preocupações com ambas “podem e devem coexistir”.

“Se todos os países do mundo estão na mesma linha de pensamento [quanto à covid-19], fica difícil acreditar que possam existir argumentos que não sejam apenas e só teorias da conspiração”, completa. Assim, “é impossível coexistir seriedade intelectual e a contra-argumentação àquilo que são as acções de todos os Estados do planeta”.

Emoções duras que deixam “marcas profundas”

Para alguém que tem cenários de guerra no currículo, Gustavo Carona afirma que se questiona todos os dias se essas experiências o prepararam de alguma forma para o desafio que é a actual pandemia. A análise que faz é de que “existem alguns paralelismos”, sendo que a “experiência de lidar com emoções fortes” pode tê-lo tornado “mais resistente” ao “desafio emocional”, perante o “espírito de missão” e relacionado com o facto de “não conseguir em momento algum desligar do que está a acontecer”.

Contudo, admite que ainda que tenha vivido intensamente a dor das pessoas nos locais onde trabalhou, nunca foi a sua dor. “Nunca foi a minha família, nunca foram os meus amigos”, lembra. Acresce o facto de nessas missões ter a sensação de que se poderia ir embora quando “não aguentasse mais”. Pelo contrário, “neste momento o desafio está a 360 graus. Não há escapatória”.

No dia-a-dia com os colegas, conta que “há pequenos apontamentos que têm a ver com olhares, telefonemas para as famílias, conversas que se tem com os doentes quando estão acordados” que representam “pequenos recortes que transmitem imensas emoções” que são “imediatamente guardadas num lugar” para que não tenham de as gerir enquanto estão a trabalhar. “Não tenho a mínima dúvida que a grande maioria dos profissionais, quando saem do hospital, revivem essas imagens e certamente já foram para casa com as lágrimas nos olhos”, confessa Gustavo Carona. “Estamos a viver um conjunto de emoções que são muito duras e que nos deixam marcas muito profundas”, remata.

Informação dada “pela positiva”

Apesar do desafio emocional de lidar nos corredores do hospital com uma pandemia, o intensivista diz que tenta não assumir uma posição de superioridade moral perante quem não cumpre as regras ditadas no combate à propagação do vírus, sendo que acredita na primazia da “informação dada pela positiva”. “Eu não sei, se tivesse 20 anos, se não seria a pessoa que estaria numa dessas discotecas que vão sendo encerradas”, confidencia. E continua: “E não sei se não seria um dos que diziam que isto não é assim tão grave se fosse completamente ignorante às áreas da medicina.”

Ao mesmo tempo que considera o divertimento “uma parte importantíssima da nossa vida”, Gustavo Carona vinca que “é importante que as pessoas percebam que com as suas escolhas de diversão podem estar a condenar à morte os seus pais ou avós”. “Nós estamos a chegar a um momento em que não vai haver serviços de saúde para todos”, alerta, e julga que “a maioria das pessoas ainda não está suficientemente ciente desse facto”.

E como se deve passar essa mensagem? “É preciso ir além dos canais tradicionais, dos telejornais e dos jornais”, analisa, acrescentando que “há instagrammers e youtubers que têm milhões de seguidores e uma capacidade para entrar em determinadas camadas da sociedade”.

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