Miguel Manso
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Miguel Manso

Megafone

Lusco-fusco

Ainda estou para ouvir um argumento a favor do horário de Inverno que faça sentido nos dias de hoje

Há dois tipos de pessoas neste mundo: aqueles que odeiam o horário de Inverno e os sociopatas madrugadores que adoram passar as horas úteis não laborais num perpétuo estado de escuridão depressivo. Que exista gente a quem lhes apraz acordar, almoçar e beber um sunset drink de noite e antes do horário de abertura de locais de ócio é um dos grandes mistérios da humanidade (só suplantado pelo desaparecimento dos Fundos Europeus de Desenvolvimento por sucessivos governos portugueses). E que os haja entre os britânicos, já por si privados de melanina pela sua posição geográfica de alta latitude e operando na monocromática escala de cinzento graças a um aglomerado perene de stratocumulus, é de uma incredulidade total.

PÚBLICO -
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Figura 1 – Meio-Dia em Outubro: Portugal (esquerda); Reino Unido (direita).

A União Europeia decidiu finalmente considerar abandonar a prática odiosa e cruel de prolongar as noites miseráveis de Inverno e manter o horário de Verão o ano inteiro a partir de 2021. A euforia que senti ao ler esta notícia foi rapidamente substituída pelo horror de saber que esta decisão não se aplica ao Reino Unido porque este país decidiu dar tiros nos dois pés e fazer-se ao mundo, para alegrar os saudosistas dos tempos do império. Até se discute a possibilidade de ficar permanentemente na penumbra.

O relógio mudou no domingo. Ainda estou para ouvir um argumento a favor do horário de Inverno que faça sentido nos dias de hoje. De um lado da balança temos os produtores de leite, agricultores e highlanders da Escócia que podem assim acordar a dois terços da noite em vez de a meio da noite. Do outro lado temos todas as pessoas com bom senso que preferem a magia do caleidoscópico universo do Terrence Malick aos buracos negros do João César Monteiro. Faz cada vez menos sentido punir a população com um recolher obrigatório a meio da tarde, principalmente numa altura em que os governos nos quer encorajar a passar menos tempo dentro de casa.

Este ano aguentámos muito, desde hospitais a abarrotar, desemprego a disparar e gerações às quais devemos tudo o que temos a serem dizimadas. Avizinham-se tempos ainda mais difíceis com a segunda vaga associada a um “Brexit” descontrolado, um verdadeiro shitegeist. Fala-se de filas intermináveis de camiões e de atrasos de dois dias para sair da ilha. O exército está preparado para começar a racionar comida e os médicos alertam para a falta de medicamentos, caso não se chegue a acordo.

Entre a pandemia, o aumento do populismo, a erosão das estruturas democráticas, o desdém pelos peritos e o “Brexit”, observar a política interna e externa britânica tem sido como assistir a um acidente de viação em câmara lenta. O nosso Natal já foi cancelado e será servido um belo fish and chips harmonizado com uma cervejinha morna e sem gás. No entanto, a possibilidade de ter de escolher entre morrer de fome ou de tétano devido à falta de penicilina não me assusta tanto como o facto de viver num lusco-fusco permanente. 2020 está a ser mau o suficiente.  Não necessitamos de mais uma hora desta desgraça.

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