Torne-se perito

Cirurgião britânico premiado por técnica pioneira no tratamento do cancro rectal

O cirurgião britânico de 84 anos Bill Heald é director consultivo do programa de cancro colo-rectal da Fundação Champalimaud. Recebeu agora a Grande Medalha de Prata do Instituto Karolinska, atribuída pelo seu método cirúrgico inovador para tratar o cancro rectal.

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O médico-cirurgião Bill Heald inventou uma técnica de cirurgião para o cancro rectal nos anos 80 DR

Foi em 1982 que o médico-cirurgião britânico Richard John (ou Bill, alcunha pela qual prefere ser chamado) Heald propôs, quando trabalhava no Hospital Basingstoke and North (Reino Unido), uma modificação nas técnicas cirúrgicas para o tratamento do cancro do recto usadas até então. A técnica pioneira – excisão total do mesorrecto (ETM) – veio diminuir consideravelmente as taxas de recidiva local deste cancro e valeu agora ao actual director consultivo do programa de cancro colo-rectal da Fundação Champalimaud (em Lisboa) a atribuição da Grande Medalha de Prata pelo Instituto Karolinska (em Estocolmo, Suécia), a instituição que indica os laureados com o Prémio Nobel da Medicina.

Durante muito tempo, a localização do recto foi considerada um obstáculo ao acesso cirúrgico, dificultando o tratamento efectivo do cancro rectal. Até ao início do século XX, a abordagem cirúrgica fazia-se quase exclusivamente através das vias perineal (incisão na região entre a bolsa testicular ou a vulva e o ânus) e transanal (através do ânus), associadas a altas taxas de recidiva local deste cancro.

O primeiro grande avanço na cirurgia do cancro rectal foi representado pela excisão do recto através do acesso abdomino-perineal proposta por William Ernest Miles, em 1908. Tal significava a remoção do recto, canal anal e ânus, com a consequente colostomia (exteriorização do conteúdo intestinal através da parede abdominal para um saco) permanente. Apesar da obrigatoriedade de uma colostomia definitiva, a técnica popularizou-se, uma vez que os resultados foram inicialmente animadores.

Quarenta anos após a proposta de William Ernest Miles, face à taxa elevada do regresso da doença ao recto e aos elevados índices de mortalidade, o cirurgião norte-americano Claude Dixon sugeriu que se evitasse a colostomia definitiva, preservando-se o ânus e o segmento final do recto, ao qual se voltava depois a ligar o intestino (anastomose). Depois, a partir da década de 70, ainda antes da técnica pioneira de Bill Heald, vários estudos introduziram o uso de grampeadores mecânicos para facilitar a reconstrução do trânsito intestinal e a preservação do canal anal. No entanto, mantinham-se as recidivas elevadas.

“O plano sagrado”

Então, em 1982, Bill Heald e os colegas propuseram uma modificação na técnica cirúrgica, padronizando a ETM, cujos resultados iniciais surpreenderam em termos do regresso da doença. Como uma parte importante das recidivas locais era atribuída à remoção parcial ou inadequada do meso-recto (gordura envolvente do recto com os gânglios linfáticos nela contidos), gerou-se uma grande expectativa em termos de melhoria do controlo do cancro rectal com a divulgação desta técnica que propõe a excisão do recto que contém o tumor e do meso-recto completo.

“Esta técnica aponta exactamente o local certo para o cirurgião cortar (a que chamei ‘plano sagrado’), de forma a curar o maior número de cancros e a fazer o menor dano nos nervos circundantes, dos quais dependem a função sexual, a erecção, o orgasmo e também o controlo fecal e urinário, em ambos os sexos”, explica ao PÚBLICO Bill Heald. “A precisão também significou que o ânus pode ser preservado em pelo menos 80% dos cancros rectais, o que reduziu drasticamente a necessidade de uma colostomia – anteriormente realizada em mais de três quartos dos casos”, acrescenta.

O procedimento foi introduzido em vários países do mundo, iniciando-se grandes experiências nacionais com a técnica da ETM, que proporcionou uma redução da recidiva local deste cancro de 20% a 40% para menos de 10% e uma mortalidade operatória reduzida entre os 2% e os 2,6%. Foi praticada no Reino Unido, EUA e Japão com as recidivas a variarem entre 3,6% (a mais baixa até então) e 9,4%. Em centros médicos da Holanda e da Noruega, onde a cirurgia era realizada sem excisão total do meso-recto, a taxa de recidiva local variou entre 36,6% e 41,5%. Em 1997, esta técnica foi utilizada em 92% das cirurgias ao cancro do recto a nível mundial.

Em 2013, Bill Heald chegou à Fundação Champalimaud para ocupar o cargo de director consultivo do programa de cancro colo-rectal, que ambiciona utilizar “as técnicas mais inovadoras de cirurgia rectal”, como expõe a instituição na sua página na Internet.

Face ao contributo de Bill Heald para a melhoria do prognóstico dos doentes com cancro rectal e à sua envolvência no ensino do método um pouco por todo o mundo, em especial no Instituto Karolinska, esta entidade galardoou agora o cirurgião com a Grande Medalha de Prata, uma das três categorias de medalhas (há ainda a Medalha de Ouro e a Medalha de Prata).

“Estou muito orgulhoso pelo reconhecimento do Instituto Karolinska, porque é talvez o mais famoso instituto com investigação na área do cancro da Europa”, confessa-nos o cirurgião de 84 anos.

“No início dos anos 90, quando os meus primeiros trabalhos eram largamente desacreditados, o Instituto Karolinska levou-me muito a sério e eu visitei a Suécia centenas de vezes, com vídeos para transmitir os detalhes da técnica aos cirurgiões. Recentemente, calculámos que fiz mais de 500 operações de demonstração da ETM em mais de 60 países – um complemento à vida de cirurgião”, remata.

Além de Bill Heald, outros investigadores receberam este ano a Grande Medalha de Prata: Ove Hagelin, por salvar e catalogar importantes livros médico-históricos da Biblioteca Hagströmer no Instituto Karolinska; Hans Jörnvall, por contributos na análise de proteínas; Lars Olson, pela continuada investigação em neurobiologia; e Nancy Pedersen, por estudos sobre hereditariedade.

Texto editado por Teresa Firmino

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