Morreu Mario Molina, o químico que nos avisou da destruição a camada de ozono

Nos anos 70, Mario Molina alertou-nos que libertação de CFC na atmosfera poderia causar uma redução da camada de ozono. Por isso, recebeu o Nobel da Química em 1995.

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Frank Sherwood Rowland e Mario Molina em Janeiro de 1975 Universidade da Califórnia em Irvine
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Reuters/Gerardo Garcia

O cientista mexicano Mario Molina morreu esta quarta-feira, aos 77 anos, na Cidade do México. O cientista foi laureado com o Prémio Nobel da Química em 1995 pelas suas descobertas sobre os danos que estariam a ser causados na camada de ozono da atmosfera.

José Mario Molina Pasquel Henríquez nasceu a 19 de Março de 1943, na Cidade do México. Frequentou a escola nessa mesma cidade e, numa biografia escrita na primeira pessoa no site dos Prémios Nobel, conta que mesmo antes de frequentar a escola secundária se sentiu fascinado pela ciência. Entre outras peripécias, revela que transformou uma casa-de-banho, que raramente era usada pela sua família, num laboratório, onde passava várias horas. Desde os 11 anos também frequentou um colégio interno na Suíça, pois considerou-se que, se queria ser químico, tinha de saber alemão.

Em 1960, começou a estudar engenharia química na Universidade Nacional Autónoma do México. “Era a forma mais próxima de me tornar um físico-químico”, recorda. Mais tarde, decide fazer o doutoramento em físico-química. Em 1968, para fazer esse doutoramento, já na Universidade da Califórnia em Berkeley, dedica-se à investigação na área das reacções químicas e fotoquímicas. Em 1973, depois de ter terminado o doutoramento, junta-se à equipa do químico Frank Sherwood Rowland (1927-2012) e muda-se para a Universidade da Califórnia em Irvine. É aqui que aprende mais sobre química atmosférica.

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Mario Molina Donna Coveney/MIT

Meses depois, juntamente com Frank Sherwood Rowland, desenvolve uma hipótese que refere que o ozono é destruído por clorofluorocarbonetos (CFC) – químicos sintéticos usados em aerossóis, gases refrigerantes e solventes. “Procurei de forma sistemática processos que pudessem destruir os CFC na baixa atmosfera, mas nada parecia afectá-los”, recorda o próprio na biografia sobre essa investigação. “Sabíamos, contudo, que [os CFC] poderiam ir para altitudes suficientemente elevadas para serem destruídos pela radiação solar.” Mas surgiu outra questão: que consequências teria a sua destruição? Acabou por perceber-se que os átomos de cloro produzidos pela decomposição dos CFC poderiam destruir o ozono. Depois de mais algumas investigações, Mario Molina conta: “Ficámos alarmados com a possibilidade que a libertação contínua de CFC na atmosfera poderia causar uma significativa redução da camada de ozono estratosférica da Terra.”  

Com isto, os dois cientistas decidiram partilhar de forma célere esta informação com a comunidade científica. Em Junho de 1974, publicam na revista científica Nature um artigo em que demonstram que os gases dos CFC têm um efeito destruidor no ozono na atmosfera. Nos anos que se seguiram a esta publicação, decidiram comunicar este assunto a outros cientistas, aos meios de comunicação social e a decisores políticos. “Percebemos que esta era a única forma de assegurar que a sociedade tomasse medidas para atenuar o problema.”

Nos anos 80, veio mesmo a descobrir-se sobre a Antárctida um buraco na camada de ozono. Para resolver este problema, 150 países assinaram o Protocolo de Montreal, em que se comprometeram a eliminar a produção dos CFC. Embora com diminuições em anos passados, este ano o buraco da camada de ozono “cresceu e é um dos maiores e mais profundos dos últimos anos”, refere em comunicado a Organização Meteorológica Mundial. “O buraco de ozono de 2020 aumentou rapidamente desde meados de Agosto e atingiu um pico de 24 milhões de quilómetros quadrados no início de Outubro”, lê-se. Em condições meteorológicas normais, o buraco da camada de ozono estende-se por cerca de 21 milhões de quilómetros quadrados entre o final de Setembro e o início de Outubro.

O Nobel e as alterações climáticas

Regressemos ao percurso de Mario Molina. Depois de alguns anos como professor da Universidade da Califórnia, em Irvine, o cientista decidiu juntar-se à secção de química e física molecular do Laboratório de Propulsão a Jacto, também na Califórnia. Em 1989, muda-se ainda para o Instituto de Tecnologia do Massachusetts para continuar a investigar sobre temas relacionados com química atmosférica.

Em 1995, juntamente com Frank Sherwood Rowland e Paul Crutzen, recebe então o Prémio Nobel da Química pelo seu trabalho na química atmosférica, em particular sobre a previsão da redução da camada de ozono devido à emissão dos CFC. Em 1970, Paul Crutzen também tinha demonstrado que o óxido nítrico acelera uma reacção química em que o ozono é transformado em oxigénio. Num trabalho posterior, Paul Crutzen verificou que uma diminuição na camada de ozono nos pólos do planeta poderia ser explicada pela emissão de gases industriais.

“Senti que este Prémio Nobel representa um reconhecimento para o trabalho excelente que tem sido feito pelos meus colegas e amigos da comunidade da química atmosférica sobre o problema da diminuição do ozono estratosférico”, escreveu Mario Molina na sua biografia. Os três cientistas foram ainda premiados pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente pela sua contribuição para a protecção da camada de ozono.

Ao longo da sua carreira, Mario Molina recebeu mais de 100 prémios, condecorações e reconhecimentos. Foi membro, pelo menos, de 70 academias científicas, conselhos e comités. Também foi membro do conselho de assessores de ciência do ex-Presidente dos Estados Unidos Barack Obama e já tinha integrado antes esse conselho com Bill Clinton. Em 2004, foi criado um centro com o seu nome, o Centro Mario Molina, para que se pudesse dar continuidade e consolidar o seu trabalho no México.

Nos seus últimos anos de vida, Mario Molina também esteve envolvido na luta contra as alterações climáticas. Foi membro do Comité do Conselho Interacadémico para a Revisão do Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas das Nações Unidas. Um comunicado da Universidade Nacional Autónoma do México nota que, em 2016, estava a trabalhar em políticas científicas das alterações climáticas e no impulsionamento de acções globais para um desenvolvimento sustentável sem que fosse esquecido um desenvolvimento económico forte. No site do Centro Mario Molina destaca-se mesmo esta frase sua: “Os cientistas podem expor os problemas que afectarão o ambiente com base nas provas disponíveis, mas a solução não é da responsabilidade dos cientistas, é de toda a sociedade.”

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