Jihadista português foi investigado em Londres

Advogado de Rómulo Costa queria ouvir inspectores das autoridades britânicas e agentes das secretas sobre os processos onde o seu cliente foi investigado, mas o seu pedido foi indeferido pelo juiz.

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Rómulo Costa e Cassimo Turé, são dois dos oito portugueses, acusados de alegadamente pertencerem ao Daesh e estão a ser julgados no Campus da Justiça, em Lisboa. Rui Gaudencio

Rómulo Costa, que está a ser julgado juntamente com Cassimo Turé, por fazerem parte de uma célula terrorista com mais seis portugueses, acusados de pertencerem ao Daesh e de unirem esforços, recrutarem e financiarem a organização terrorista, apoiando a ida de cidadãos portugueses e britânicos para a Síria para combaterem ao lado de jihadistas, terá sido investigado no Reino Unido pelos mesmos crimes, mas nunca foi acusado, nem detido.

Este é um dos argumentos apresentados pela sua defesa, durante mais uma sessão de julgamento, que teve lugar esta terça-feira no Campus da Justiça, em Lisboa.

Lopes Guerreiro, advogado de Rómulo Costa, pediu ainda durante o inquérito e já em julgamento que fossem enviadas cartas rogatórias para solicitar às autoridades britânicas informações sobre dois processos em que o seu cliente foi ouvido. Pediu, nomeadamente, que fossem ouvidos inspectores e até agentes das secretas britânicas. Mas o juiz indeferiu o pedido.

Aliás, na sessão desta terça-feira, o juiz chegou a dizer que não vai “ouvir inspectores britânicos” no julgamento e que os advogados têm de se “contentar” com o que há no processo e que há muita matéria para analisar.

O advogado considera que esta prova seria importante para demonstrar a inocência do seu cliente, uma vez que as autoridades do Reino Unido que investigaram Rómulo Costa não encontraram provas do seu envolvimento na actividade do Daesh e, portanto, nunca o acusaram de nada.

De facto, nos dois interrogatórios realizados, em Agosto e em Outubro de 2019, Rómulo Costa revelou à Polícia Judiciária (PJ) que foi abordado seis vezes em Londres pelos serviços de informações do Reino Unido e que lhe fizeram perguntas sobre o paradeiro dos irmãos Celso e Edgar Costa.

E Lopes Guerreiro, durante o testemunho do inspector da PJ, João Simões, insistiu muito em perceber que tipo de informação é que a PJ tinha ou recebeu sobre a ligação de Rómulo Costa à alegada célula terrorista, uma vez que não está nada escrito sobre esse assunto neste processo.

A defesa do arguido tentou também demonstrar que as acusações que recaem sobre Rómulo Costa estão apenas fundamentadas em convicções dos investigadores, que se baseiam em escutas de conversas com os seus irmãos e que não há nada de concreto que este tenha feito que prove o crime.

O inspector da PJ, questionado se tinham pedido informações às congéneres britânicas sobre Rómulo Costa, disse que não e explicou que chegaram à conclusão do envolvimento deste português no decorrer da investigação.

Segundo o inspector da PJ, é revelador do envolvimento e da responsabilidade de Rómulo Costa o episódio em que Ahsan Ali Iqbal, que também estaria identificado no Reino Unido como tendo estado envolvido no rapto de dois jornalistas juntamente com os dois portugueses Sadjo Turé e Celso Costa, foi preso na Tanzânia.

 Na versão de Rómulo, este foi detido porque foi apanhado a usar um passaporte falso quando ia para a Tanzânia tentar casar e que um dos seus irmãos lhe ligou a pedir dinheiro para pagar um advogado. Rómulo alega que era um pedido de um irmão para ajudar e nada mais.

Mas numa escuta telefónica, Rómulo aparece a dizer que tirar Iqbal da prisão seria o seu teste e que seria preciso fazer alguma coisa porque alguém lhe poderia perguntar porque não ajudou o seu “dred”.

O inspector questiona quem iria pedir estas responsabilidades a Rómulo.

Também há uma escuta de um telefonema entre Celso Costa, irmão de Rómulo que também é arguido no processo, e a mulher. Celso pergunta à mulher se a mulher de Rómulo não teria uma irmã ou uma amiga que quisesse casar com Iqbal.

Segundo o inspector, o grupo queria a todo o custo regressar à Síria e levar mulheres para lá. Mas a mulher de Celso disse que a mulher de Rómulo não era parva e que sabia de tudo porque este lhe contava.

Para João Simões, esta é mais uma prova do envolvimento do arguido, assim como outra escuta, em que Nero Saraiva, outro arguido português, pergunta a Celso Costa quando é que o “binas” vai para a Síria. O “binas” é uma das alcunhas de Rómulo Costa. Para o inspector da PJ, este arguido apoiava os irmãos, mas estava indeciso se ia ou não para a Síria.

Também foi ouvido Pedro Prata, coordenador da PJ, e que esteve à frente esta investigação. Ricardo Serrano, advogado de Cassimo Turé, quis saber que tipo de comunicação é que as autoridades britânicas prestaram às portuguesas e que deu origem a esta investigação, colocando no radar da PJ o seu cliente.

O processo foi instaurado em 2013, na sequência de informação das autoridades britânicas, na qual se dava conta do envolvimento de cidadãos portugueses no rapto de dois jornalistas, um britânico, John Cantlie, e outro holandês, Jeroen Oerlemens, ocorrido na Síria em Julho de 2012.

Segundo Pedro Prata, as autoridades britânicas estiveram em Portugal depois de Sadjo Turé ter sido detido em Inglaterra por suspeitas de ter estado envolvido no rapto dos jornalistas e que revelaram que, quando aquele foi detido, viajava com Cassimo, o seu irmão.

O advogado fez um requerimento ao processo, no sentido de que sejam juntas ao processo todas as informações fornecidas pelas autoridades britânicas antes de se ter dado início ao processo.

Em tribunal, apenas estão a ser julgados Cassimo Turé e Rómulo Costa porque os restantes,  Sadjo Turé, Edgar da Costa, Celso da Costa, Fábio Poças e Sandro Marques e Nero Saraiva estão em paradeiro desconhecido e o juiz determinou a separação dos processos.

O julgamento continua na próxima semana com o depoimento do pai e de vários irmãos de Rómulo Costa.

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