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Rui foi à Islândia falar sobre baleias — e voltou com um álbum cheio de “impressões digitais”

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Rui Duarte já tinha dado como perdida a viagem para a Islândia. A culpa era, como já podemos adivinhar, da covid-19. O trabalho como guia de natureza e vida selvagem não fazia sentido num país sem turistas. Por isso, quando a Gentle Giants Whale Watching lhe disse, em finais de Julho, que havia turistas à vista, fez as malas e embarcou rumo a Husavik. 

O trabalho como guia consistia em fazer viagens de barco com grupos de turistas e falar-lhes sobre o que os rodeava —fazia, então, uso da licenciatura em Biologia e Geologia. Mas, no momento em que todos faziam silêncio para contemplar as baleias-de-bossas que vinham à superfície — que, avisa, não fazem "três mortais encarpados à retaguarda", como os golfinhos fazem em cativeiro —, Rui pegava na câmara e captava-as. Agora, de volta a Barcelos, não esconde o entusiasmo quando fala delas: "As baleias são dos animais mais carismáticos", sorri. E apesar do seu tamanho, que pode chegar aos 17 metros, nunca se sentiu intimidado — afinal, "não estamos no menu delas".

A Skaljfandi Bay, a baía com oito milhas náuticas de diâmetro, onde fazia as viagens de cerca de quatro horas com os turistas, é quase um paraíso para as baleias. O motivo: há comida em abundância. "É rodeada de montanhas que estão cheias de gelo e, quando o sol incide, elas começam a derreter. Estas cascatas têm nutrientes como o nitrogénio e o fósforo. Além disso, é lá que está também o maior glaciar da Europa, o Vatnajökull, que vai desaguar àquela baía, trazendo mais nutrientes. Por último, a Crista Média Atlântica passa também junto da baía e traz ainda mais nutrientes do fundo do mar", explica o biólogo. Um banquete, portanto. 

É por isso mesmo que aquele é um dos melhores locais para observar baleias, que por lá ficam "entre Abril e Maio, até Novembro ou Dezembro", durante a época de alimentação. De lá, "e depois de se alimentarem e acumularem energia suficiente, começam a migração para as áreas de reprodução, nos trópicos", onde ficam durante sete ou oito meses sem comer. 

"As baleias são emblemáticas e têm um papel fundamental no combate às alterações climáticas. Quando uma baleia morre e afunda, sequestra carbono no fundo do mar", continua. Mais ainda, "nestas zonas de alimentação, elas defecam à superfície". A luz solar constante incide nas fezes, que "têm nutrientes como fósforo e nitrogénio, necessários para o fitoplâncton (a base da cadeia alimentar) crescer". E quando o fitoplâncton recebe a luz solar, sequestra carbono e liberta oxigénio. "É um ciclo."

E é fácil fotografar baleias? "Elas são previsíveis, excepto quando saltam ou batem com a cauda." Para seu (e nosso) lamento, Rui não conseguiu captar nenhuma no ar. As baleias-de-bossas, a maioria das que vemos na fotogaleria, passam, normalmente, seis minutos debaixo de água para apanhar alimento e um minuto à superfície. Mas podem mergulhar até 40 minutos, se assim lhes apetecer. Rui decorou a rotina e apanhou-lhes as barbatanas caudais, que vêm à tona quando se projectam para mergulhar, e que funcionam como uma impressão digital.

O próximo plano é viajar até às áreas de reprodução, para observar os comportamentos dos machos e fêmeas em época de acasalamento. "É aí que podemos ver os machos a exibirem-se, a saltarem, a perseguir fêmeas", conta. Os momentos de flirt ficarão, certamente, registados em álbum. É que, como já vimos em 2018, quando fotografou a pesca do atum, a câmara vai sempre nas aventuras deste fotógrafo, que já pisca o olho à National Geographic. Usando as suas próprias piadas: Whale, whale, whale. Aqui estaremos para ver.    

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