Alunos e famílias mostram menos gosto pelos livros. Alargamento da escolaridade obrigatória será uma das razões

Estudo sobre práticas de leitura entre os alunos do básico e secundário mostra que o desamor pela leitura está a aumentar e muito. Mudança das características sociais dos estudantes do secundário é uma das razões apontadas.

alunos com menos livros em casa são também os que recorrem menos às bibliotecas
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alunos com menos livros em casa são também os que recorrem menos às bibliotecas Andre Rodrigues

Muito menos livros em casa, muito menos alunos a lerem por prazer e cada vez menos famílias nas quais a leitura é valorizada. Este é o principal retrato que sai do estudo Práticas de Leitura dos Estudantes dos Ensinos Básico e Secundário, cujos primeiros resultados foram apresentados nesta quarta-feira e que tem como termo de comparação o distante ano de 2007, quando foi realizado o único diagnóstico existente até agora que acompanhou então o lançamento do Plano Nacional de Leitura.

Os inquéritos realizados para o estudo actual foram realizados entre Maio e Outubro de 2019, abrangendo 7469 alunos de 97 escolas. Os resultados agora divulgados dizem apenas respeito ao 3.º ciclo e ensino secundário. Um primeiro resultado que sobressai: de 2007 a 2019 a proporção de alunos, no caso só secundário, que dizem ter menos de 20 livros em casa praticamente duplicou, passando de 14,5% para 27,3%. Nos vários intervalos de medida, que vai de nenhum a mais de 500 livros, a tendência é sempre de decréscimo com valores que oscilam de 0,6% para 0,8% (zero livros em casa) a 10,6 para 6,4% (mais de 500).

O que este decréscimo revela também é que a “relação da família com leitura” está em queda. Esta relação passa por práticas como estas: “ver familiares a ler”; “ouvir familiares a ler em voz alta”; “ouvir familiares a contar histórias”; “ir com familiares a livrarias ou bibliotecas” e “ouvir familiares a falar do que lêem”.

Famílias têm relação fraca com a leitura

Centrando nos alunos que responderam “nunca ou raramente”, constata-se que os maiores aumentos dizem respeito ao hábito de “ver familiares a ler”, passando de 15,3% para 31,1% a proporção de alunos que dão conta da ausência desta prática em casa; “ir com familiares a livrarias ou bibliotecas” em que o “nunca ou raramente” sobe de 46% em 2007 para 62,1% em 2019 e “ouvir familiares a falarem do que lêem” (de 33,6% para 50,5%).

Face aos resultados obtidos, conclui-se que 57,7% dos alunos estão inseridos em famílias em que a relação com a leitura é fraca. “São cerca de 350 mil alunos”, alertou o investigador João Trocado da Mata, que apresentou os resultados deste estudo realizado por via de uma parceria entre a equipa do Plano Nacional de Leitura e o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-ISCTE) e que foi integralmente financiado pela McDonald’s.

Como não há bela sem senão, uma das razões principais apontadas para esta situação e para os vários decréscimos registados na prática da leitura radica num dos grandes feitos entretanto concretizados: o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos (ou até aos 18 anos), que se tornou universal em 2012/2013. É o que concluem os autores do estudo (Trocado da Mata, José Soares Neves, Miguel Ângelo Lopes, Patrícia Ávila e a consultora da ex-ministra da educação, Isabel Alçada), que destacam nas conclusões o facto de o alargamento da escolaridade obrigatória ter reforçado “a heterogeneidade social da população escolar”, tendo no ensino secundário aumentado o “número de alunos provenientes de famílias mais desfavorecidas”.

Também para os próprios estudantes, “o ensino secundário deixou de se constituir como patamar de selecção, bifurcando caminhos: a entrada no mercado de trabalho e o prosseguimento de estudos”.  “Esta situação aumenta a complexidade do desafio colocado às escolas, exigindo o reforço de investimento na promoção de práticas de leitura de jovens e de adultos”, frisam.

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E o que dizer então do crescente desamor dos jovens pelos livros, traduzido em dados como estes: 17,4% dos alunos do ensino básico e 26,2% do secundário assumem que no último ano antes do inquérito não leram “nenhum livro por prazer”. Em 2007 estes valores eram, respectivamente”, de 12,5% e 11,35. O que este cenário também mostra é que o prazer na leitura vai diminuindo conforme a idade dos estudantes aumenta. Aos 12 anos, os alunos apontavam que no último ano antes do inquérito tinham lido, em média, cerca de seis livros por prazer, um valor que baixa para perto de três entre os estudantes com 19 anos ou mais.

Para Trocado da Mata, tal poderá ficar a dever-se ao facto de os alunos do ensino secundário “terem uma maior tendência para se concentrarem em leituras que são escolarmente úteis”. “Temos de perceber o que acontece em termos de escola para esta desmotivação na leitura por parte dos alunos do secundário”, sublinhou o secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa, a quem coube encerrar a sessão de apresentação deste estudo.

Outra situação que preocupa os autores do estudo, e que foi destacada por João Costa, tem a ver com a relação dos alunos com as bibliotecas escolares. O que se ficou a saber? Por exemplo, que são os estudantes com menos livros em casa aqueles que menos recorrem às bibliotecas escolares. “Este facto interpela as políticas públicas, convidando à identificação de segmentos sociais de intervenção prioritária”, aponta-se nas conclusões.

Onde também se frisa o seguinte. “Em média, quanto maior é a exposição às actividades relacionadas com a leitura e a escrita em sala de aula, maior é o número de livros lidos”. Os inquéritos realizados mostram que cerca de um em cada três alunos (34,9%) tem uma exposição alta às actividades relacionadas com a leitura e a escrita nas aulas de Português, que passam por o professor ler em voz alta, apresentar uma obra ou pedir para fazerem fichas de leitura de livros que não fazem parte do programa, entre outras.

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