Operação Deterrence: o plano de Trump para manter 3,5 milhões de afro-americanos longe das urnas

Equipa de jornalistas teve acesso a banco de dados utilizados pela campanha de Trump em 2016. Mais de 200 milhões de pessoas foram categorizadas.

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Reuters/CARLOS BARRIA

Em 2016, a campanha de Donald Trump à Casa Branca pagou anúncios direccionados a 3,5 milhões de eleitores afro-americanos. O objectivo? Mantê-los longe das urnas no dia da eleição e evitar votos na adversária, a democrata Hillary Clinton.

Esta revelação é feita numa investigação do canal de televisão britânico Channel 4, que teve acesso a um banco de dados usado pela equipa do actual Presidente dos Estados Unidos e candidato à reeleição pelo Partido Republicano. Estas listas juntam a informação de mais de 200 milhões de pessoas, categorizando-as por inclinação política. A dissuasão [deterrence, em inglês] destes eleitores teve como alvo especial a população afro-americana com 3,5 milhões de eleitores categorizados, explica esta investigação.

A campanha de Trump dividiu os eleitores em oito categorias: um destes grupos dizia respeito às pessoas que ainda estavam indecisas quanto ao candidato escolhido no boletim de voto, mas que estariam mais inclinadas a votar em Hillary Clinton, então candidata do Partido Democrata à Casa Branca. Para este grupo de pessoas, com o nome de código Deterrence, a campanha publicou anúncios nas redes sociais com a finalidade de dissuadir a ida aos locais de voto no dia da eleição.

Estas tácticas de campanha terão tido a colaboração da Cambridge Analytica, empresa que recolheu indevidamente os dados de 50 milhões de utilizadores, cujas preferências foram depois usadas para manipulação de informação nas eleições norte-americanas.

Para justificar a acusação de que a população negra era uma prioridade nesta táctica de manipulação, a investigação comparou a percentagem de afro-americanos em vários estados com o respectivo peso neste grupo. Na Geórgia, por exemplo, 61% das pessoas na lista de “Deterrence” pertenciam à comunidade afro-americana, que apenas representa 32% da população total. Esta sobre-representação verifica-se em vários outros estados norte-americanos.

A campanha de Trump gastou 44 milhões de dólares (37,7 milhões de euros) no Facebook, durante a campanha que culminou na eleição de Trump. Quais foram os anúncios que estes eleitores viram? Não é possível saber. De acordo com o Channel 4 News, o Facebook não clarificou detalhes sobre estes spots publicitários.

Comentando as conclusões desta investigação, o vice-presidente da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) afirmou estar “chocado” com as conclusões da investigação. Por sua vez, o antigo responsável pela campanha digital de Trump, Brad Parscale, disse à PBS que não tem conhecimento de qualquer estratégia que “tivesse como alvo afro-americanos” na eleição de 2016. 

Esta é a segunda história a afectar directamente Donald Trump: ao início do dia, o The New York Times publicou uma investigação que desvendou finalmente a documentação fiscal do Presidente dos Estados Unidos. Estes documentos mostram que, no ano em que ganhou as eleições, Donald Trump pagou apenas 750 dólares em impostos federais. Após um ano na Presidência dos Estados Unidos, pagou outros 750. E, em dez dos últimos 15 anos, não pagou um só dólar em impostos.

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