Ganhos e perdas de uma massificação profissional

Os médicos ganham de ordenado o mesmo que há 20 anos, com a conversão escudo para euro, para um custo de vida que duplicou ou triplicou. Não se percebe esta relação amor-ódio relativa à sua profissão.

Fala-se muito do lóbi dos médicos ou da formação em medicina. Há uns meses, não muitos, aplaudia-se à varanda e à janela. Agora, os médicos são uns interesseiros que querem manter os seus números baixos para ganharem muito dinheiro. Há anos que isto é assunto. As instituições de ensino superior, coitadinhas, não podem abrir vagas. Alguém sabe qual o rendimento que uma instituição de ensino superior tem? É alto e já foi muito maior.

Não vale a pena voltar a falar sobre o número de médicos por habitante. Um médico ganha, no início da sua atividade profissional, menos de 1200€ líquidos, com subsídio de alimentação incluído. Trabalha 40 horas semanais. Quando inicia a sua especialidade, passa a receber aproximadamente mais 80€. Acaba a especialidade na esperança que a vida melhore, mas mantém uma carga de trabalho altíssima com um incremento do ordenado disponível de menos de 300€. Se lhe solicitarem urgências extra, não pode recusar.

Depois há a clínica privada, como se fosse um prazer trabalhar 60 a 70 horas por semana. O pensamento popular é que se ganha uma fortuna a trabalhar em regime privado. A abertura de um consultório em nome individual já nem faz sentido em função das necessidades de meios complementares de diagnóstico e terapêutica, sempre dispendiosos. Há ainda todas as regras que existem, definidas pelas Administrações de Saúde. Acrescente-se os grupos privados, que funcionam como agências de trabalho temporário. Estes ficam com 30% do valor do trabalho do médico, que é cobrado, no total, a valores de 35€, 45€ ou 50€ por consulta. Quem já teve que chamar um canalizador, eletricista ou um serralheiro a casa não deve estranhar valores destes, pois não são assim tão diferentes. Junte-se impostos.

Uma instituição de ensino privada atua como uma empresa. O dinheiro que entra tem que ser superior ao que é gasto. Convinha divulgar esses valores para se perceber onde está o lóbi. Convinha também saber se estas instituições contratam a tempo integral (já para não falar de contratos de exclusividade), ou se usam mão de obra gratuita prestada pelos alunos de pós-graduação. Não podemos esquecer os recibos verdes, pois que os há, há.

Não se coloca em causa o conceito de corporativismo. Existe, não sendo exclusivo de nenhuma classe profissional. Não se percebe é esta relação amor-ódio relativa a uma profissão. Os médicos ganham de ordenado o mesmo que há 20 anos, com a conversão escudo para euro, para um custo de vida que duplicou ou triplicou. O salário mínimo nacional mais do que duplicou nestes 20 anos, ao contrário dos salários da maior parte das profissões que exigem uma formação académica desenvolvida.

Uma outra classe profissional relevante, a dos farmacêuticos, face a uma abertura indiscriminada de vagas no ensino superior, passou para valores de ordenado de metade do que se fazia há 20 anos, na entrada no mercado de trabalho (os que arranjam emprego). Os enfermeiros saem, em grupo, do país. Os professores têm que arranjar profissões alternativas. E, já agora, onde estão os cursos privados de militares, de polícias ou de juízes? Não devem dar dinheiro ou estatuto. Deve ser por isso que proliferam as escolinhas de futebol. Os cientistas portugueses vivem de bolsas. Uma bolsa de doutoramento é, há 18 anos, de 980€. Uma bolsa de pós-doutoramento é, há 18 anos, de 1500€. Um bom curso para se abrir era o de candidato a político. Parece ser uma carreira com potencial. Fazem-se asneiras, para as quais a maior consequência parece ser mudar de um emprego da esfera pública para a esfera privada, frequentemente com melhor remuneração. Há um ou outro que é preso, mas também há coisas que até um cego vê.

Justifica-se tudo com a economia de mercado. O mercado privilegia de forma errada, aferindo tudo em função da oferta e procura, independentemente do seu valor fundamental. Assim, se há quem esteja disposto a pagar para usar uma bata ou um par de chuteiras, cria-se uma empresa que forneça o serviço. A perda de independência dos profissionais leva e levará a que se procure fazer dinheiro sem preocupação pela saúde dos utentes. Não há lóbi, há uma proteção de uma classe profissional da qual a sociedade depende, proteção esta que deveria ter existido muito antes para outras profissões. Não houve essa proteção e, por isso, o caminho procurado não é a correção dos erros do passado. O caminho que se procura é esta recorrência na instalação de um aumento da oferta de profissionais, com a consequente fragilidade laboral e financeira dos mesmos.

E assim se dá dinheiro a ganhar a corporações, neste caso de ensino superior privado e, possivelmente, no futuro, a certos grupos que vão ficar com 50% (ou mais) do trabalho dos médicos (que o digam os dentistas). E assim se empobrecem pessoas com as suas diferentes formações profissionais, a bem não se sabe de quê. E parece também que, a custo do mal de muita gente, se agrada a gente ignorante, que precisa de um inimigo a abater, ao mesmo tempo que se diz “não se esqueçam de nós nas eleições”.

César Portela iniciou o seu percurso profissional pós-faculdade como farmacêutico. Prosseguiu para doutoramento e foi investigador, em química medicinal. Trabalhou como professor no ensino politécnico e universitário, maioritariamente em instituições privadas. Formou-se em medicina como trabalhador-estudante. Atualmente exerce na área de psiquiatria