Crónica

Covid-19: Resistam à estupidez

Peço-vos encarecidamente que não alimentem as campanhas de desinformação, conspiração e negação, porque estas são perigosíssimas e põem a vida das pessoas de que mais gostamos em risco. E ver gente a morrer não é bonito. Acreditem.

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Miguel Manso

O querer acreditar é a maior força do ser humano. Quando a vontade é muita, somos capazes de acreditar nas coisas mais estúpidas e inverosímeis. E neste momento estamos a transbordar de vontade em acreditar em algo que nos livre deste pesadelo. Roubaram-nos demasiados bens adquiridos, e ninguém gosta de ser roubado. Há os que querem acreditar porque são empresários desesperados, há os que não sabem viver sem festas, há os que estão a morrer de saudades dos abraços que lhes fazem falta e os que simplesmente estão tristes e querem voltar ao tempo em que havia mais sorrisos, e sorrisos a descoberto das máscaras que invadiram a nossa vida. Mas há que resistir. Resistam. Resistam à tentação de querer saber mais do que a ciência. Estão a pôr em risco a vossa vida, dos vossos e de todos nós. É perigoso não resistir à vontade de acreditar em parvoíces. E como a desinformação se espalha mais forte e rapidamente do que o vento, não é fácil ter tempo para desconstruir todas as baboseiras que se dizem por aí.

  1. A ciência aos cientistas. Eu não imagino que alguém se levante do seu lugar num avião a passar por uma tempestade e tente tirar os pilotos do cockpit: “Sai daí! Eu é que sei aterrar este AirBus 380 no meio desta tempestade.” É isto que estamos a presenciar. Doutorados em patetices a dizer que sabem mais do que toda a comunidade científica. Olham para os números e tiram “conclusões”. E neste grupo estão também médicos (poucos, felizmente) que perigosamente por saberem qualquer coisinha sobre ciência esquecem-se de que a sua ignorância é muito maior do que o pouco que sabem. A ciência tem auto-regulação. Aceita o contraditório. Tem avanços e recuos, comete erros, mas aprende e evolui, e será sempre o mais perto da verdade que vamos estar.
  2. “Morrem mais pessoas de cancro!” Sem dúvida, e mais ainda de doenças cardiovasculares. A mortalidade por doenças não-covid sem dúvida que subiu pelos danos colaterais do controlo da pandemia. Mas esta é uma forma simplista de olhar para um problema extremamente complexo. A pergunta que tem de ser feita é: quantas mais morreriam de causas não-covid, se a pandemia estivesse descontrolada? Há uma tentativa de conspirar a favor de forças obscuras que alimentam a teoria que os serviços de saúde só pensam nos doentes covid. Isto não é verdade! À semelhança de uma guerra (e eu detesto esta comparação) as pessoas morrem mais por falta de cuidados de saúde do que por tiros e bombas, mas enquanto houver tiros e bombas não haverá cuidados de saúde, e por isso quem os mata em ambas as situações é a guerra, é a pandemia.
  3. Dinheiro e felicidade. Tendo em conta a forma como eu vejo a vida, desde o primeiro dia que considerei que a nossa saúde mental e felicidade e a catástrofe social dos que ficaram sem casa e sem alimentar os seus filhos têm de ser contrabalançadas com as consequências de saúde pública, sejam elas covid ou não-covid. Mas o que está em causa, e certamente matéria de grande debate em que eu tenho muitas mais perguntas do que respostas, é que o sofrimento colectivo que estamos a passar e a quebra da economia poderiam eventualmente ser maiores se fingíssemos que o vírus é apenas mais um e nos deparássemos com hospitais a transbordar de mortos. O pânico e o medo que daí também viria seria certamente pior do que o que estamos a viver neste momento.
  4. Avante, Fátima, futebol e discotecas. Grandes ajuntamentos de pessoas ao ar livre com uma dispersão razoável e mais ainda se usarem máscaras parece não oferecer grande risco de contágio. Daí que a gritaria contra e a favor, políticas e religiões a propósito de grandes aglomerados, ainda que na minha opinião possam ser antipedagógicos, parecem ser menos perigosos do que um jantar com dez pessoas em casa com amigos ou familiares. Eu adoro futebol e adoro sair à noite, e talvez por saber o que por lá se passa sou obrigado a compreender a proibição de público e de álcool, porque os comportamentos rapidamente transcendem o razoável em ambas as situações. As escolhas são dificílimas, e as comparações principalmente para quem lhes dói no bolso são infinitas, mas vamos mesmo ter de acreditar que quem decide está a fazer o seu melhor perante um desafio épico.
  5. Numerologistas. Parece que basta ir duas vezes ao site da DGS para nos tornarmos especialistas em números. Mas primeiro é preciso saber muito para se saber ler os números, e mesmo para quem sabe muito há muita coisa que os números não dizem: a solidão em que as pessoas morrem que é quase tortura, a gestão da culpa dos que infectaram os seus familiares e que os levou à morte, a absorção brutal de recursos humanos que esta doença consome e o labirinto logístico que é gerir um hospital cheio de covids e com tudo o resto. É mais difícil do que possam imaginar.

Vamos viver um período de histeria colectiva e muitos terão razão, o que é o mesmo que dizer que será dificílimo democratizar o que é melhor para todos. E por isso peço-vos encarecidamente que não alimentem as campanhas de desinformação, conspiração e negação, porque estas são perigosíssimas e põem a vida das pessoas de que mais gostamos em risco. E ver gente a morrer não é bonito. Acreditem.

Há milhões de pessoas a quem a ciência não chega e morrem infinitamente mais do que nós que nascemos rodeados de um mundo de saberes que salvam vidas. Não os neguem, simplesmente aproveitem-nos e não tentem ter uma opinião sobre como pilotar o avião no meio de uma tempestade.

Há muita vontade em acreditar na estupidez. Resistam.

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