CARTAS DE MÃE E FILHA EM TEMPOS DE QUARENTENA

Dia 101: Mães unidas no regresso às aulas

Nestas alturas torna-se evidente que, seja qual for o contexto de cada uma, as mães podem apoiar-se umas às outras. E se o sorriso — a nossa arma mais eficaz — está temporariamente indisponível, escondido por trás de uma máscara, proponho um discreto sinal de paz, feito com as mãos.

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Mãe,

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Para cada uma das mães este início do ano será diferente. Umas estão seguras e confiam na escola a 100%, sabem que o colo estará lá, seja mais físico ou emocional. Para outras a ansiedade sobre a pandemia estará ao rubro ou haverá ainda aquelas que, conseguindo relaxar em relação à covid, estão preocupadíssimas com a saúde mental e emocional dos filhos. Há, ainda, as mães para quem a escola já era um desafio constante, que batalham com recusas escolares, ansiedades mais graves, dificuldades de integração, bullying, etc., e para quem tudo isto é a cereja em cima de um bolo de angústia. E também, claro, as que respiram de alívio porque sabem que os filhos estavam a precisar urgentemente de voltar, que estão sedentos da escola e de todas as coisas boas que ela oferece.

A verdade é que, por mais perspicazes que achemos que somos, provavelmente à porta da escola não vamos conseguir ver “para lá da máscara”, da real e da metafórica. Podemos tentar adivinhar pela forma como mãe e filho dão um último abraço, ou como uma mãe parece caminhar mais ou menos descontraída para o carro, mas nunca saberemos exactamente o que se está a passar dentro dela. O que sei é que nestas alturas se torna evidente que, seja qual for o contexto de cada uma, as mães podem apoiar-se umas às outras. E se o sorriso — a nossa arma mais eficaz — está temporariamente indisponível, escondido por trás de uma máscara, proponho um discreto sinal de paz, feito com as mãos. Um sinal que diga aquilo que não é fácil dizer a pessoas que mal conhecemos ou por quem estamos a passar a correr. Um sinal que diz: “Estou a ver-te e sei que isto não é fácil, espero que corra o melhor possível!”

Falo em mães, mas, hoje, por exemplo, é o meu marido que as está a entregar, por isso, por favor, incluam os pais!

Espalha a palavra?


Querida Ana,

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Levei o teu apelo muito a sério. Vamos estendê-lo também aos avós que retomam neste momento o seu papel de “ajuda-pais”, e que também estão de coração apertado. Além do mais, preocupamo-nos com os netos e com os pais dos netos, como sempre um dois em um, de que por muito que nos esforcemos não nos conseguimos libertar.

Vamos fazer uma campanha com a tua ideia, porque tenho a certeza de que um “peace” solidário fará a diferença toda na vida das mães e das avós 2020.

Mas a campanha vai ter de perdurar, porque os primeiros dias são, apesar de tudo, mais fáceis com a adrenalina de pastas novas, cadernos forrados, e uma expectativa que os pais se empenharam em criar. O pior vem depois, quando a novidade desaparece, a realidade se impõe às expectativas, e as crianças — sobretudo os mais pequeninos — percebem que ter a mãe e o pai por perto era muito melhor. Não quero dramatizar, há miúdos que se adaptam bem a tudo, mas para os mais ansiosos este cenário de guerra contra dois inimigos invisíveis, o vírus e o medo, não vai ser fácil.

Espero mesmo que do lado de lá, do lado de quem os acolhe, também haja muita paz, porque é muito fácil que profissionais igualmente ansiosos reajam aos miúdos, e aos pais dos miúdos, com impaciência. Na tentativa de pôr esta nova máquina a funcionar previsivelmente, muitos terão a tendência para descartar ou desvalorizar os sintomas das crianças, num “aguenta, que eu também aguento!”, que pode comprometer mais o resto do ano do que toda a pandemia junta. Compreendo-os, até porque não é fácil sentir empatia por emoções que nos são desconhecidas, mas espero que resistam aos julgamentos precipitados, variações do lugar-comum “é tudo culpa das mães”.

Mais um motivo para um peace às outras mães e pais. Sem vergonha de serem ridículas. E se a mãe que o recebe não conhecer ainda a nossa campanha, é um bom pretexto para dois dedos de conversa que fortalecerão cumplicidades. E não há nada melhor do que a cumplicidade com outros pais.

Nota: se quiserem aderir a este nosso “movimento” publiquem nas vossas redes sociais uma fotografia a fazer o sinal da paz 

@birrasdemãe #mãesunidasBTS

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