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Balada para Sophie expõe as afinidades e ansiedades de Filipe Melo e Juan Cavia

Livro tem como ponto de partida a rivalidade entre dois pianistas franceses, que nos anos 1930 competem num concurso de jovens talentos. Um deles, sabendo-se no fim de vida, procura redimir-se do passado numa longa entrevista com uma jornalista.

A banda desenhada Balada para Sophie, a nova colaboração entre os autores Filipe Melo e Juan Cavia, é a que expõe mais as afinidades e ansiedades que os assombram.

Balada para Sophie chega esta semana às livrarias com selo da Tinta-da-China e volta a juntar o argumentista português Filipe Melo e o desenhador argentino Juan Cavia em torno da banda desenhada, convocando para a narrativa um imaginário do cinema, da música e da literatura.

Com mais de 300 páginas, o livro tem como ponto de partida a rivalidade entre dois pianistas franceses, que nos anos 1930 competem num concurso de jovens talentos. A história é contada na perspectiva de um dos pianistas, Julien Dubois, que, sabendo-se no fim de vida, procura redimir-se do passado numa longa entrevista com uma jornalista.

“É o que falamos das coisas mais directamente. Havia questões importantes para nós, mas estavam disfarçadas nos livros anteriores. Neste expomos um bocadinho mais as ansiedades que se calhar assombram as nossas vidas”, explicou Filipe Melo.

A questão da rivalidade entre os pianistas — François Samson e Julien Dubois — parece o tema central do livro, mas é secundário, é o desencadeador da narrativa, que se estende entre os 1930 e 1990, diz Filipe Melo, sem querer desvendar. “É uma história de contrastes entre dois perfis”, preenchidos com múltiplas referências, de Glenn Gould a Keith Jarrett, de Richard Clayderman e Liberace.

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Filipe Melo recordou que a história de Balada para Sophie foi escrita “numa fase muito, muito complicada, por isso, a feitura do livro pareceu extremamente simples”. “A escrita da história parecia que se estava a fazer sozinha”, diz o autor, mesmo que à distância, já que Juan Cavia vive na Argentina.

“Ele é das pessoas mais talentosas e generosas. Estamos bem a trabalhar um com o outro. Muito menos horas para chegar a um entendimento. Tenho a certeza que não faria livros de BD se não fosse o Juan. Este livro foi pensado como uma banda desenhada para ser desenhada pelo Juan Cavia”, contou.

Balada para Sophie termina com o desenho de uma partitura, com uma composição inédita de Filipe Melo, como se tivesse sido escrita por Julien Dubois, “um tipo que ouviu muito Chopin, passou muito anos a tocar músicas de ‘azeite’, está muito cansado, mas quer deixar uma mensagem, um abraço”.

A primeira colaboração literária entre Filipe Melo e Juan Cavia aconteceu já há uma década, quando lançaram o primeiro de quatro volumes de BD das Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, seguindo-se a novela gráfica Os vampiros e os dois curtos contos desenhados Comer/beber.

Balada para Sophie é dedicado a Beatriz Lebre, a jovem estudante universitária de Psicologia e pianista de 23 anos, que foi morta em Maio por um colega da faculdade. “Queria dedicar-lhe o livro para que aquela pessoa fosse lembrada. É um esforço honesto que alguém vá ver quem é e a música que ela fez. É dedicado a uma pianista que partiu demasiado cedo e que gostasse que, de alguma forma, fosse lembrada”, afirmou Filipe Melo.

Balada para Sophie tem já edição assegurada em França, pela Editions Paquet, na Polónia, pela Mucha, e nos Estados Unidos pela Top Shelf Productions, juntando-se a um catálogo que inclui, entre outros, Alan Moore, Frederik Peeters e Craig Thompson.

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