Covid-19: Dados sobre contágio entre adultos e crianças são “reconfortantes”. Escolas “não serão ambientes de propagação” do vírus

Resultados de um estudo sobre transmissão da covid-19 revelam que os adultos infectam mais as crianças. Porém, projecção da incidência após o dia 14 de Setembro prevê que segunda vaga só é evitada se escolas abrirem com metade a um terço dos alunos.

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Paulo Pimenta

Os resultados de um estudo sobre a transmissão da covid-19 entre crianças e adultos foram apresentados esta segunda-feira, durante a primeira reunião entre os peritos de saúde e os políticos em dois meses para discutirem a situação epidemiológica do país, e demonstram que os adultos infectam mais as crianças — resultados que “podem ser reconfortantes nas decisões sobre a reabertura das escolas”, afirmou Maria João Rocha Brito, do Hospital Dona Estefânia.

A especialista destacou que a covid-19 não se transmite “como a gripe, onde as crianças são frequentemente o caso índice nos disseminadores de infecção domiciliar e comunitária”.

A infecção transmite-se de forma diferente entre faixas etárias, com a transmissão entre os zero e os nove anos a ser mais baixa do que nas idades mais velhas (entre os dez e os 16). “Abrir infantários é uma coisa, abrir secundárias é outra, abrir faculdades é outra”, disse Maria João Rodrigues. No entanto, a médica avisa que “com a entrada na gripe teremos um problema adicional”: “Aí sim, as crianças poderão transmitir o vírus na comunidade.”

A médica do Hospital Dona Estefânia apresentou ainda dados sobre a transmissão da doença e sobre a mortalidade em crianças e afirmou que a covid-19  é uma “doença pouco frequente em pediatria, mas potencialmente grave”, com uma mortalidade baixa.

Já a especialista em epidemiologia da Escola Nacional de Saúde Pública, Carla Nunes, garantiu que “as escolas provavelmente não serão ambientes de propagação mais eficazes do que outros ambientes ocupacionais ou de lazer com densidades semelhantes de pessoas”, desde que as medidas adequadas sejam tomadas.

A investigadora disse que existem estudos pontuais, já publicados, “positivos e negativos sobre o impacto do fecho e reabertura de escolas nos níveis de transmissão na comunidade, embora as evidências sugiram que a reabertura de escolas não foi associada a aumentos significativos na transmissão comunitária”.

Carla Nunes também deu o exemplo de Portugal, que abriu parcialmente as escolas para o final dos 11º e 12 anos, não se tendo registado alterações na transmissibilidade entre alunos que foram às aulas e alunos que ficaram em casa.

Segunda vaga só é evitada se escolas abrirem com metade a um terço dos alunos

O investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), Manuel Carmo Gomes, apresentou uma projecção da incidência após o dia 14 de Setembro, dia em que as escolas reabrem e o modelo apresentado pelo investigador prevê que o número de casos em várias faixas etárias deve aumentar consideravelmente e provocar uma segunda vaga, caso as escolas abram a 100% da lotação pré-covid e sem outras protecções ou distanciamento social.

Neste modelo, a actividade normal do país encontra-se, neste momento, a metade da que existia antes da pandemia. Caso haja uma reabertura das escolas com 70% dos contactos nas escolas da “era pré-covid” a voltarem ao espaço escolar, o modelo prevê uma segunda vaga.

Com uma redução a 30% dos contactos nas escolas que existiam antes da pandemia, já existe uma maior segurança e menor contágio, com o número de casos a apresentar uma tendência crescente muito reduzida.

Segundo Manuel Carmo Gomes, “se conseguirmos que apenas metade a um terço dos contactos escolares pré-covid forem mantidos, a segunda onda pode ser evitada”. No entanto, avisa o investigador, com a lotação nas escolas reduzidas a um terço, “se o relaxamento dos contactos na sociedade prosseguir após abertura das escolas até à situação pré-covid, não se consegue compensar a transmissão devido ao relaxamento na sociedade e há segunda onda”.

Assim, o investigador da FCUL pede que se ventilem “salas e espaços partilhados e evitem espaços fechados com não coabitantes”. Além disso, Manuel Carmo Gomes sugere que sejam introduzidos “regimes de flexibilização do regime de aulas: presencial, misto e virtual”, que se maximizem espaços disponibilizados e que se alarguem ou se ajustem horários de funcionamento.

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