António Rolo Duarte/DR
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Crowdfunding em debandada

Não é aceitável que alguém, usando o nome de família e ligações privilegiadas, com a sua campanha sendo promovida nos meios de comunicação, apele a que se contribua para o seu projecto de doutoramento como se este tivesse sido carimbado como meritório por parte da FCT.

António Rolo Duarte decidiu fazer uma campanha de crowdfunding para financiar o seu projecto de doutoramento na Universidade de Cambridge sobre os desafios à identidade nacional portuguesa após o 25 de Abril. Até aqui, tudo muito bem. Vivemos numa democracia e as pessoas têm liberdade para requerer financiamento para os projectos que bem entendem e, do mesmo modo, os que quiserem contribuir, podem fazê-lo.

Contudo, é essencial que haja transparência e factualidade nos motivos de tal crowdfunding. O autor desta campanha refere que “começou a estranhar não ter qualquer resposta sobre os resultados do concurso, decidiu ligar para a FCT para ter mais informações sobre a data do anúncio dos resultados sobre a atribuição das bolsas”. Ora, qualquer candidato às bolsas da Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT) sabe (ou deve saber) que esta dispõe de um prazo de 90 dias úteis após o término do concurso de bolsas de doutoramento para publicar os resultados provisórios, o que ocorrerá a 3 de Setembro, sendo que os resultados definitivos só estarão disponíveis em Novembro.

Assim, o nosso caro colega António Rolo Duarte não tem porque estranhar a ausência de resposta. António Rolo Duarte refere ainda que “viu a atribuição da bolsa que lhe financiaria o doutoramento na Universidade de Cambridge adiada indefinidamente, devido às mudanças provocadas pela pandemia covid-19”. Importa esclarecer que António não viu a atribuição da bolsa adiada indefinidamente, pois, à data à, não foi feita qualquer atribuição. António Rolo Duarte é um candidato como outro qualquer e o seu projecto, percurso académico e instituição de acolhimento encontram-se em avaliação como os milhares de colegas que concorreram às bolsas de doutoramento.

Tal afirmação leva a crer que o seu projecto foi aprovado e, que será financiado, o que é, no mínimo, uma inverdade. Mais, António refere que tem de pagar as propinas até 28 de Agosto. É norma as universidades serem flexíveis nestes prazos, mediante um requerimento do estudante explicando que se encontra à espera de resultados de financiamento (pelo menos em Portugal). Note-se ainda que as propinas em causa, valor que a FCT cobriria até um ao máximo de 8 mil euros, rondam os 9 mil euros. Assim, não percebo qual a justificação para requerer os 25 mil euros, até à data de 28 de Agosto, sendo que, as propinas serão cerca de 9 mil euros.

Desde há muito que a FCT é alvo de críticas por atrasos consecutivos na publicação dos resultados de concursos. Apesar de, nos últimos anos, os concursos de doutoramento terem cumprido os prazos destas publicações, há ainda muitas questões que deixam a desejar, nomeadamente os atrasos nos pagamentos das bolsas. Qualquer candidato que concorre às mesmas sabe que, entre o início da sua bolsa e a atribuição do correspondente montante mensal, há um desfasamento de meses. Isto, por vezes, leva pessoas a desistirem das suas bolsas pois, devido ao dever de exclusividade, inerente às mesmas, muitos não têm como (sobre)viver largos meses sem qualquer tipo de remuneração.

Assim, a campanha de crowdfunding de António Rolo Duarte, com os seus factos pouco clarificados, torna-se um desrespeito para com os milhares de colegas que estão na mesma situação, para com os que irão estar meses sem rendimentos devido ao dever de exclusividade e para com aqueles que acabarão por desistir ou que farão o esforço sobre-humano de, não beneficiando de uma bolsa, conciliar um emprego com o desenvolvimento de um projecto de doutoramento para custeá-lo.

Com isto não pretendo de modo nenhum desculpar os atrasos da FCT. Pelo contrário, é urgente que se dêem condições a tempo e horas a quem, merecidamente, é atribuída uma bolsa para desenvolver os seus projectos. Agora, não é aceitável que alguém, usando o nome de família e ligações privilegiadas, com a sua campanha sendo promovida nos meios de comunicação, apele a que se contribua para o seu projecto de doutoramento como se este tivesse sido carimbado como meritório por parte da FCT, que é o que está em causa. Senão, partamos todos em debandada para recorrer a crowdfundings com vista a “arranjar uma solução”. Não precisamos mais da FCT (com todos os seus defeitos), e a atribuição de financiamento passa a dever-se à nossa popularidade e rede de networking, o que é bastante mais meritório.

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