Juan Carlos vai abandonar Espanha para proteger a monarquia

Decisão histórica do rei acontece meses depois de ser aberta uma investigação sobre as suas contas no estrangeiro que vieram degradar ainda mais a imagem da Casa Real.

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Juan Carlos I foi chefe de Estado de Espanha durante quatro décadas e renunciou ao trono para o filho em 2014 Sergio Barrenechea/EPA

O rei emérito de Espanha, Juan Carlos, decidiu abandonar o país face à “repercussão pública” causada pelas revelações mais recentes sobre negócios no estrangeiro que vieram aprofundar a crise vivida pela Casa Real. A saída do país do monarca que chefiou a transição democrática espanhola marca o fim de uma era. Para o seu filho, o rei Felipe VI, trata-se da concretização de um afastamento que já era notório e de uma tentativa de salvar a reputação da monarquia

Na carta em que anuncia a decisão, Juan Carlos dirige-se directamente ao filho, a quem chama “majestade, querido Felipe”. “Com o mesmo afã de serviço a Espanha que inspirou o meu reinado e perante a repercussão pública que estão a gerar certos acontecimentos passados da minha vida privada, desejo manifestar-te a minha absoluta disponibilidade para contribuir para facilitar o exercício das tuas funções”, escreve o rei emérito de 82 anos, que abdicou do trono em 2014. 

A saída de Juan Carlos de Espanha – não foi revelado para onde irá o rei emérito – representa o culminar de meses de pressão intensa sobre Felipe VI à luz da investigação aberta pelo Supremo Tribunal sobre a contas bancárias do antigo rei em paraísos fiscais. As revelações de que Juan Carlos recebeu 100 milhões de dólares do rei saudita e ocultou-os por via de uma fundação, posteriormente liquidada, para depois reverter a favor de uma antiga amante, tudo com o objectivo de fugir aos impostos, tornaram insustentável a já frágil situação institucional do rei emérito. 

Perante a pressão do Governo e da opinião pública, a Casa Real parece ter optado pela solução maximalista: o abandono de Juan Carlos de Espanha, quase seis décadas depois do seu regresso. No entanto, o advogado do rei emérito, Javier Sánchez-Junco, garantiu que o seu cliente irá continuar disponível para colaborar com a Justiça espanhola. 

O rei que nasceu no exílio, em Roma, onde a família real se tinha refugiado depois da instauração da Segunda República em 1931, deverá agora passar os últimos anos de vida fora do seu país. Mas, para grande parte da sociedade espanhola, Juan Carlos era já uma espécie de “rei maldito”. A imagem do homem que na noite de 23 de Fevereiro de 1981 vestiu o uniforme militar para acabar com uma tentativa de golpe de Estado que ameaçava o percurso do país rumo à democracia ficou remetida para os manuais de História. 

O novo “exílio” de Juan Carlos é, na verdade, o desfecho esperado de um longo processo de descrédito do monarca. A sua abdicação, em Junho de 2014, foi uma primeira tentativa de salvaguardar a imagem institucional da coroa espanhola que sofria para sobreviver aos escândalos protagonizados pelo seu representante máximo. O episódio da caçada no Botswana dois anos antes, quando a sociedade espanhola sofria com a austeridade imposta pela crise económica, foi o retrato perfeito de um rei em total desarmonia com os seus súbditos. 

Os negócios suspeitos e as contas no estrangeiro, conhecidas em plena pandemia, deixaram pouca margem para outro desfecho que não o fim da permanência de Juan Carlos no Palácio da Zarzuela. As sondagens mostram os espanhóis divididos no apoio à monarquia, mas a tendência é de subida dos que defendem a dissolução da coroa. 

Com Hélio Carvalho

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