Editorial

Os culpados disto tudo

O desastre do BES é o desastre de um certo empresariado arrogante e elitista, possível perante o silêncio de uma corte que preferiu ignorar o que se estava a passar.

Os portugueses sempre viveram acima das suas possibilidades, não é? O Fundo Monetário Internacional escreveu-o num relatório divulgado a 17 de Julho de 2008: “Portugal vive acima das suas possibilidades já há muitos anos”, o que implicava – lembram-se da linguagem? — “ajustamentos e uma maior poupança a todos os sectores de actividade”.

E ainda a 10 de Abril do ano passado, a OCDE dizia num relatório algo semelhante: as famílias da classe média portuguesa estavam a viver acima das suas possibilidades; mais de um terço delas tinham custos superiores aos seus gastos em 2016, o que só era pior no Chile e na Grécia. Vítor Bento, economista que foi o primeiro administrador do Novo Banco, cada vez mais parecido com o velho, disse-o vezes sem conta.

Esta expressão acabou por se enraizar como uma admissão colectiva de culpa nos anos de intervenção da troika, tendo sido utilizada com duas consequências imediatas: responsabilizar a classe média pelas suas ambições e gastos exacerbados e permitir ao Governo de Passos Coelho e Paulo Portas a aplicação do respectivo castigo, por mandato da troika e ausência de programa político próprio.

Na prática, como dizia Dijsselbloem, o dinheiro era todo gasto naquelas coisas do costume e sobrava pouco tempo para trabalhar. Deixar de ser pobre em Portugal nunca foi algo que fosse tolerado aos pobres.

Afinal, diz-nos agora o Ministério Público, seis anos após o início da investigação sobre o desabamento do BES, quem estava, de facto, a viver acima de todas as nossas possibilidades era a elite da elite de Lisboa, cujo poder se ramificava por todos os corredores do poder, a ponto de o então Presidente da República ter posto as mãos no fogo pelo ex-“Dono Disto Tudo”, poucos meses antes da evaporação do Espírito Santo.

A tal classe média, e todos os pobres coitados seduzidos por umas férias em Phuket, uma mobília e um carro a crédito, concedido por uma banca sem freios nem escrúpulos, só pode olhar com incredulidade para a facilidade com que o BES sugou mais de 5% do PIB aos portugueses, como aqui escreveu Susana Peralta.

A irresponsabilidade dessa tal classe é uma ninharia perante os 5 mil milhões que esta fraude terá custado a todos os contribuintes. O desastre do BES é o desastre de um certo empresariado arrogante e elitista, um perfeito exemplo do que foi a gestão privada da banca em Portugal e das placas giratórias de que se serviu para movimentar dinheiro e corromper uma corte que preferiu ignorar o que se estava a passar. Os tais culpados, apesar de não terem a culpa disto tudo, continuarão a pagar por isso.

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