O cometa Neowise está a atravessar o céu de Julho – e dá para ver a olho nu

O cometa gelado pode ser visto depois do pôr do sol ou de madrugada. Descoberto este ano, só voltará dos confins do nosso sistema solar para “visitar” a Terra daqui a uns 6800 anos.

Cometa Neowise é visto no Parque Nacional Joshua Tree, na Califórnia, Estados Unidos, a 19 de Julho
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Cometa Neowise é visto no Parque Nacional Joshua Tree, na Califórnia, Estados Unidos, a 19 de Julho EPA/ETIENNE LAURENT
Neowise é visto nos céus perto da Basílica de São Pedro, em Roma, Itália. 13 de Julho
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Neowise é visto nos céus perto da Basílica de São Pedro, em Roma, Itália. 13 de Julho Reuters/GUGLIELMO MANGIAPANE
Cometa foi visível antes do amanhecer em Pécs, na Hungria, a 13 de Julho
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Cometa foi visível antes do amanhecer em Pécs, na Hungria, a 13 de Julho EPA/TAMAS SOKI
Cometa Neowise é visto no Parque Nacional Joshua Tree, na Califórnia, Estados Unidos, a 19 de Julho
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Cometa Neowise é visto no Parque Nacional Joshua Tree, na Califórnia, Estados Unidos, a 19 de Julho EPA/ETIENNE LAURENT
18 de Julho, Eupatória, Crimeia
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18 de Julho, Eupatória, Crimeia Reuters/ALEXEY PAVLISHAK
Lausanne, Suíça, 19 de Julho
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Lausanne, Suíça, 19 de Julho Reuters/DENIS BALIBOUSE
Malta, 19 de Julho
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Malta, 19 de Julho Reuters/DARRIN ZAMMIT LUPI
Fotógrafo prepara-se para capturar imagens do Neowise em Anglesey, no País de Gales, a 20 de julho
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Fotógrafo prepara-se para capturar imagens do Neowise em Anglesey, no País de Gales, a 20 de julho Reuters/CARL RECINE
Cometa é visto nos céus perto da fortificação de Munot, em Schaffhausen, na Suíça, a 21 de Julho
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Cometa é visto nos céus perto da fortificação de Munot, em Schaffhausen, na Suíça, a 21 de Julho Reuters/ARND WIEGMANN
Malta, 20 de Julho
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Malta, 20 de Julho Reuters/DARRIN ZAMMIT LUPI
Ilha de Hokkaido, Japão, 11 de Julho
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Ilha de Hokkaido, Japão, 11 de Julho Reuters/Observatório NAYORO
Ronda, Sul de Espanha, 15 de Julho
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Ronda, Sul de Espanha, 15 de Julho Reuters/Jon Nazca
Cometa visto da Estação Espacial Internacional (EEI) a 5 de Julho
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Cometa visto da Estação Espacial Internacional (EEI) a 5 de Julho EPA/NASA
Cometa visto da Estação Espacial Internacional (EEI) a 5 de Julho
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Cometa visto da Estação Espacial Internacional (EEI) a 5 de Julho EPA/NASA
Cometa é visto num campo de girassóis em Grafensulz, Áustria, 17 de Julho
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Cometa é visto num campo de girassóis em Grafensulz, Áustria, 17 de Julho EPA/CHRISTIAN BRUNA
Cidadãos turcos observam o cometa a partir de uma praia em Istambul, Turquia, a 18 de Julho
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Cidadãos turcos observam o cometa a partir de uma praia em Istambul, Turquia, a 18 de Julho EPA/TOLGA BOZOGLU
Cidadãos turcos observam o cometa a partir de uma praia em Istambul, Turquia, a 18 de Julho
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Cidadãos turcos observam o cometa a partir de uma praia em Istambul, Turquia, a 18 de Julho EPA/TOLGA BOZOGLU
Ballintoy, Reino Unido
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Ballintoy, Reino Unido REUTERS

Há um cometa a rasgar os céus de Julho que pode ser observado a olho nu durante todo o mês: veio dos confins do nosso sistema solar, mede cerca de cinco quilómetros e só voltará a ser visível da Terra daqui a quase 7000 anos. O seu nome verdadeiro é C/2020 F3, mas tem sido apelidado de cometa “Neowise” por causa do telescópio espacial da NASA que o descobriu no final de Março. Este é o primeiro cometa visível em 2020 e “é raro haver assim cometas que são visíveis a olho nu, foi uma óptima surpresa”, admite o director do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), Rui Agostinho. Ainda assim, é preciso saber quando localizá-lo e é mais fácil vê-lo com uns binóculos ou um pequeno telescópio.

O cometa pode ser visto em duas ocasiões: de madrugada, a partir das 4h (hora de Portugal continental) e antes do brilho do nascer do sol, idealmente com um “bom horizonte e pouca luz”. Nos dias 19, 20 e 21 de Julho, o cometa estará também visível ao início da noite, entre as 22h e as 22h15. “É preciso deixar o céu ficar escuro para conseguir ver”, explica Rui Agostinho. Após essas datas e até ao princípio de Agosto, será visível até às 23h e “a sua posição é mais favorável no céu, mas estará mais fraco em brilho”.

Trata-se de “um cometa fraquinho de brilho e está a diminuir. Quantos mais dias passarem [e mais se afastar do Sol], mais fraco fica o brilho”, comenta o director do OAL. Porém, “terá brilho para ser visto a olho nu até ao final de Agosto, mas é um brilho espalhado, nem toda a gente o conseguirá ver”.

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Imagem processada pela sonda da NASA Parker Solar Probe em que é possível ver as duas caudas do cometa: uma de poeira e a outra de iões NASA

À “caça” do cometa

O truque é olhar para noroeste após o pôr do sol ou para nordeste durante a madrugada, refere o OAL. Ainda que seja visível a olho nu, é preferível ver o cometa com binóculos ou um pequeno telescópio (ou ainda através do telemóvel ou de câmara fotográfica) em zonas com pouca poluição luminosa. Pode não ser uma visão tão magnificente quanto se espera. “O cometa é realmente espectacular do ponto de vista fotográfico, mas do ponto de vista visual não é tanto como as pessoas imaginam, porque o nosso olho tem muitas limitações”, diz ao PÚBLICO o fotógrafo Miguel Claro, que todas as noites tem saído “à caça” do cometa.

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Fotografia tirada perto de Monsaraz a 12 de Julho Carlos Saraiva

“Os nossos olhos não são assim tão bons para ver à noite e o cometa tem uma cauda extensa, mas muito ténue” – daí que pouco se veja da cauda a olho nu. Além disso, as fotografias são tiradas com teleobjectivas grandes e com exposições longas, que perpetuam o rasto do cometa. “O ideal é recorrer a uns binóculos, que já permitem ver a cauda, mas não é assim tão fácil ao ponto de olhar e ver.”

Para ajudar a encontrar o cometa, poderá localizar as constelações mais próximas (como a constelação Lince ou, mais tarde, a Ursa Maior) em aplicações como SkyView ou Sky Safari. O cometa “já apresentou mais brilho quando se encontrava perto do Sol [o momento mais próximo foi a 3 de Julho]”, explica o astrónomo Máximo Ferreira, que é director do Centro Ciência Viva de Constância, onde haverá duas sessões de observação do céu a 23 e 25 de Julho (requer inscrição prévia). “Em rigor, o Neowise será observável durante alguns meses, mas só com telescópios cada vez mais potentes, dado que o seu brilho vai diminuindo”, comenta. Tal como o Neowise, “existem sempre cometas ao alcance dos telescópios”.

Ver o astro é um privilégio reservado sobretudo a quem vive no hemisfério norte. A informação recolhida por satélite através de infravermelhos dá a entender que este cometa terá cerca de cinco quilómetros de comprimento, mas não representa qualquer perigo. Segundo a NASA, o objecto passará a uma distância “inofensiva” de 103 milhões de quilómetros da Terra e estará mais próximo do nosso planeta a 23 de Julho. “É então que estará mais alto no céu, pelo que, num período de quatro ou cinco dias antes e depois dessa data, será mais fácil observá-lo”, diz Máximo Ferreira.

Rui Agostinho explica que o cometa Neowise pertence ao sistema solar e vem da nuvem de Oort, nos limites do sistema solar, onde existem milhares de milhões de objectos congelados. Feita a travessia pela Terra, o cometa continuará a sua órbita pelo sistema solar até à nuvem de Oort e só será possível voltar a vê-lo da Terra daqui a uns 6800 anos. Os cometas são mundos gelados que se formaram ao mesmo tempo que os planetas e os asteróides, há cerca de 4600 milhões de anos.

“Se os cálculos estiverem certos (e acreditamos que sim) e a trajectória do cometa não vier a ser perturbada pela influência gravítica de algum outro astro, a sua órbita é fechada e irá até aos confins do sistema solar. Voltará daqui a cerca de 6800 anos”, diz Máximo Ferreira. Certo é que “ninguém actualmente vivo vai ter oportunidade de rever o cometa Neowise, no ano de 8786”, diz.

Miguel Claro tem publicado as suas fotografias deste cometa em pleno esplendor nas redes sociais. “Têm sido muito poucas horas de sono”, brinca o astrofotógrafo, explicando a rotina “complicada”: “Implica várias noites a acordar às 2h ou 3h da manhã depois de ter andado até à meia-noite à procura do sítio ideal (do ponto de vista da paisagem em que haja algum elemento que cative)”, mais as horas a processar as imagens. Tem feito as fotografias na reserva Dark Sky do Alqueva, mas rumará agora a norte para ter “outras vistas” em torno do corpo gelado. O cometa tem também sido visto e fotografado pelos astronautas e cosmonautas da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), que têm partilhado imagens nas redes sociais.

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As duas caudas do cometa Neowise. Fotografia tirada na reserva Dark Sky Alqueva, no Alentejo, a 12 de Julho MIGUEL CLARO

Para quem não consiga vislumbrar o cometa, em Julho e Agosto haverá chuvas de meteoros para sarapintar com “estrelas cadentes” as noites de quem olha para o céu. O OAL refere que a chuva de meteoros nocturna das Aquáridas será visível entre 12 de Julho e 23 de Agosto, com intensidade máxima a 29 de Julho. É também em Julho que começa a chuva de meteoros nocturna das Perseidas, em que se podem ver, em média, 110 meteoros por hora a rasgar os céus – entre 17 de Julho e 24 de Agosto, mais facilmente visíveis em locais com pouca luminosidade.

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