Núñez Feijóo mostra a Casado como se derrota o Vox com moderação

Presidente da Xunta da Galiza alcança a quarta maioria absoluta para o PP. BNG inverte tendência de queda e aglutina o voto da esquerda nacionalista. Parlamento só tem três partidos e os dois maiores querem estreitar relações com a lusofonia.

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Núñez Feijóo festeja a sua quarta maioria absoluta na Galiza LAVANDEIRA JR/EPA

O esperado aconteceu e o Partido Popular (PP) alcançou uma nova maioria absoluta na Galiza, 47,98% dos votos e 41 deputados. Com este resultado, Alberto Núñez Feijóo finalmente consegue arrumar no museu o legado de Manuel Fraga Iribarne, o delfim de Francisco Franco que fundou o PP galego e foi a sua principal figura até à morte, em 2012, aos 89 anos. Feijóo não só reforça a sua bancada no parlamento, como consegue a quarta maioria absoluta aos 59 anos, ao contrário de Fraga Iribarne que só a alcançou aos 79 anos.

Mostra igualmente a decisão acertada daquele que é o presidente da Xunta da Galiza desde 2009, quando recusou ser candidato a suceder ao ex-presidente de Governo Mariano Rajoy (outro galego) como líder do PP em 2018, abrindo espaço a Pablo Casado. Na altura, Feijóo afirmou que tinha assumido um compromisso com o povo galego, embora a leitura política seja bem diferente: ainda não era tempo de avançar, porque estava a condenar-se à derrota nas urnas a nível nacional e, provavelmente, a acabar por se transformar num líder de transição. O mesmo já não acontecerá depois de Casado.

Com mais esta maioria absoluta, Feijóo consegue duas coisas essenciais para o seu futuro político e para almejar à cadeira mais importante do Governo em Madrid: “mata” o pai, ao conseguir aquilo que Fraga Iribarne atingiu durante o seu tempo de domínio da política galega e com menos dissensões dentro do PP; e reforça o papel essencial que os populares na Galiza continuam a ter no partido a nível nacional, numa altura em que é o único governo regional onde o PP governa sozinho.

Mais importante, o presidente da Xunta obtém esta quarta maioria absoluta mantendo um discurso conservador de centro-direita, sem cair na tentação de Casado em termos nacionais e do candidato basco do PP, Carlos Iturgaiz, de tornar o discurso mais agressivo para ocupar o espaço do Vox, mais nas franjas da direita.

Os populares perderam no País Basco mais de 47 mil votos, quatro dos seus nove deputados e o Vox conquistou um lugar no parlamento. Núñez Feijóo conseguiu que, num país cada vez mais fragmentado politicamente, o parlamento da Galiza seja uma câmara de três partidos apenas (contra os 16 no parlamento espanhol), onde o Vox permanece de fora. Tal como o Podemos.

Apenas quatro anos depois da coligação En Marea, onde se incluía o partido de Pablo Iglesias, ter eleito 14 deputados e se ter alçado como principal força política da oposição, as zangas internas e as mudanças de rumo dos partidos que a compuseram resultou que nenhum deles tenha conseguido votação suficiente para conquistar mandatos nestas eleições.

O que permitiu ao Bloque Nacionalista Galego (BNG), a tradicional formação política da esquerda nacionalista, que há anos vinha decaindo no apoio eleitoral, alcançar um resultado histórico, indo ainda além do que vaticinavam as sondagens, voltando a ser o segundo maior partido (23,8% dos votos) e com o maior número de deputados da sua história (19).

Ana Pontón, a primeira mulher a liderar o BNG, não só conseguiu inverter a curva descendente nas urnas dos últimos 13 anos, como o fez superando o número de assentos no parlamento regional conseguidos em 1997 por Xosé Manuel Beiras, a histórica figura do nacionalismo galego que abandonou o partido em 2012 para formar Anova-Irmandade Nacionalista e agora não conseguiu eleger nenhum deputado em coligação com o Podemos.

Com PP e BNG a dominar com 60 deputados o parlamento regional de 75 assentos (só os socialistas, com 19,38% dos votos e 15 deputados, também têm representação), é de se esperar um aprofundamento das ligações entre a Galiza e Portugal, nomeadamente com a região Norte, ideia defendida por ambos os partidos nos seus programas políticos que foram a votos este domingo.

“A Galiza liderará a entrada da Espanha como observadora associada na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)”, diz o programa do PP que salienta a vontade de promover “acções nos países da lusofonia devido à proximidade linguística e cultural”. A Xunta da Galiza vai mesmo preparar um Plano de Acção para o Brasil com vista a “aproximações culturais e económicas” entre a região e o país sul-americano.

Quanto ao BNG, defende “aproveitar a lusofonia e os vínculos” que unem a região ao espaço lusófono com “acções concretas, não apenas com teses”. Afirmando “que as euro-cidades e as euro-regiões” devem aproveitar a oportunidade para “potenciar a euro-região Galiza Norte de Portugal” através do “impulsionamento dos instrumentos de coordenação e planificação e desenvolvimento de estratégias conjuntas no campo das infra-estruturas, meio ambiente, território, transportes, serviços, agenda urbana, emergências, desenvolvimento económico, direitos sociais e laborais, língua e cultura”. Os nacionalistas galegos defendem igualmente no seu programa que as duas regiões elaborem conjuntamente um “plano de reactivação pós-covid dos territórios fronteiriços”.

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