O período não tem de ser tabu, mesmo para os rapazes que menstruam

Para os adolescentes transgénero, a entrada na puberdade pode ser um momento muito doloroso. Esta semana, em conversas no Twitter sobre “pessoas que menstruam”, várias vozes questionaram a expressão.

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Josefin/Unsplash

Pedro recorda-se do zum zum gerado por uma campanha de recolha de produtos menstruais na sua faculdade. O Colectivo Feminista de Letras decidiu colocar os tampões e pensos higiénicos recolhidos não apenas na casa de banho feminina, mas também na masculina. Houve pessoas que estranharam, mas nas conversas começou-se a “fazer o clique”: os colegas transgénero também poderiam precisar desses produtos.

“Estamos tão formatados que temos dificuldade em pensar mais além”, nota o jovem de 20 anos, natural de Trás-os-Montes, que iniciou a terapia hormonal aos 18 anos. Recorda que estava com o período na semana em que recebeu a primeira injecção de testosterona. Logo no mês seguinte, deixou de menstruar. Para trás ficaram, finalmente, os tempos em que “o corpo estava a fazer uma coisa que não queremos que faça”, diz.

Para os adolescentes transgénero, muitos ainda longe de poder aceder aos tratamentos médicos que tornarão o corpo mais alinhado com a sua identidade de género, a entrada na puberdade pode ser um momento muito doloroso. No caso dos rapazes trans, que nasceram com corpos femininos, o aparecimento da menstruação, em particular, é a primeira de várias transformações do corpo num sentido contrário à forma como se vêem. “É o corpo a transformar-se em algo que aquelas pessoas não são”, descreve a psicóloga Paula Allen, coordenadora do Centro Gis, no Porto. “São anos de uma grande angústia.”

Se as injecções de testosterona podem suprimir a menstruação logo nos primeiros meses, como foi o caso de Pedro, “há muitas pessoas que começam a transição social antes de fazer o tratamento hormonal”, recorda. Fala-se aqui de jovens demasiado novos para a terapia, de casos em que não se tem acesso ao tratamento por outros motivos, ou mesmo pessoas que não tomam hormonas por opção.

Ainda há muito por fazer para acabar com os tabus relativos à menstruação, que por tanto tempo levaram à ocultação das experiências das mulheres ou ao nojo com que muitas pessoas falam do sangue menstrual. Mas se para muitas raparigas adolescentes a chegada do período pode trazer dúvidas não respondidas, os rapazes trans estão ainda mais “às cegas” — e mais vulneráveis. “É importante falar disto desde cedo”, sublinha Pedro, que nota que a diversidade de experiências em termos de identidade de género ainda é um assunto “sensível e tabu”.

“Pessoas que menstruam”

Esta semana, em resposta a uma paródia no Twitter sobre sangue menstrual, a RTP Play partilhou imagens da série documental “O Meu Sangue”, estreada em Março, que aborda “o dia-a-dia das pessoas que menstruam”. Logo se levantou um coro contra a expressão usada — “porque não mulheres?” —, reminiscente dos comentários feitos recentemente pela escritora JK Rowling, que lhe valeram duras críticas.

“Quem sofre mais por menstruar são as mulheres”, diz o médico Pedro Freitas, especialista em sexologia clínica, apontando questões como a dismenorreia (dores abdominais), em particular quando as dores são sinal de doenças como a endometriose.

Contudo, sublinha o sexologista, “do ponto de vista psicológico, sofrem estes rapazes”, que ainda vivem com um corpo feminino. Com a chegada da puberdade — e da menstruação, “conotada como 100% feminina” —, pode agudizar-se a chamada “disforia de género”, que ocorre quando há um sentimento profundo de desadequação do corpo ao género com que se identificam. O período é, assim, “algo que é percepcionado como uma coisa devastadora e rejeitam por completo.”

Da mesma forma que a menarca poderá ser um primeiro momento de choque, o início da toma de hormonas pode trazer “um grande alívio”. O primeiro grande impacto da terapia é, precisamente, o fim do período, que pode acontecer imediatamente ou em poucos meses. “O marco volta a ser deixar de ter menstruação”, diz a psicóloga Paula Allen. Mas a alteração de outras características físicas é também motivo de entusiasmo. “É invariável receber a fotografia do primeiro pêlo de barba”, relata o médico Pedro Freitas.

A terapia hormonal e os seus efeitos no corpo podem atenuar o sofrimento destes jovens, mas a partir de que idade será adequada? Para o sexologista, não há dúvidas de que “aos 16 anos todos sabemos o que queremos e o que somos”. Com um diagnóstico clínico de disforia de género baseado numa “vontade consistente”, o médico acredita que não há impedimentos para que um adolescente comece aos 16 anos — uma idade que se tornou mais consensual entre especialistas — o tratamento hormonal que poderá começar a conformar o corpo à identidade de género. Recorde-se que eventuais processos de transição cirúrgica só são permitidos depois dos 18 anos.

Acompanhamento e aceitação

Em áreas como a saúde e a educação, é crucial haver reconhecimento das experiências minoritárias e uma actuação adequada. “Cada vez mais, as pessoas exigem ser tratadas na sua diversidade”, nota a psicóloga Paula Allen. Além de uma questão de respeito, é também uma questão de profissionalismo, e deve ser cumprido “independentemente de gostarem ou não gostarem”.

Nas escolas, onde “há bullying por dá cá aquela palha”, recorda o médico Pedro Freitas, os processos de transição devem ser sempre acompanhados, para minimizar o sofrimento psicológico. Há hoje mais escolas que não levantam problemas em identificar os alunos pelo nome escolhido, sendo por vezes necessário um documento do médico a confirmar o diagnóstico do jovem. A questão das casas de banho é mais difícil de navegar, mas nas consultas prepara os jovens trans para irem à casa de banho do género com que se sentem confortáveis. “Preparo-os para o fazer, e até fazer de cabeça erguida.”

Tudo seria mais fácil, talvez, se a sociedade não fosse tão dada à segregação por género: casas de banho separadas, brincadeiras diferentes, expectativas determinadas pelo sexo atribuído à nascença. Para Pedro, a linguagem pode dar uma ajuda a quebrar este binarismo de género. Pequenas coisas, como escrever com @ ou x, podem dar um sinal de que todas as pessoas — também as que se não se enquadram nas normas — estão incluídas.

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