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Vamos falar de suicídio

Em 2019, o meu pai juntou-se a um destes óbitos. O meu pai, que sofria de doença bipolar, apenas há um ano diagnosticada, mas provavelmente sentida a vida toda, suicidou-se no Verão passado.

A Organização Mundial de Saúde estima que, por ano, 800 mil pessoas cometem suicídio, estando esta entre as 20 principais causas de morte no mundo. Isto significa, de acordo com o estudo do Global Burden of Disease, que anualmente se perdem 35 milhões de anos de vida no mundo, na sequência de comportamentos suicidários. Em Portugal, em 2017, (dado mais recente a que acedi), suicidaram-se 1061 pessoas. Oito mortes por cada 100 mil habitantes. Sobretudo homens, entre os quais o número de suicídios é três vezes superior ao das mulheres. Fui estudar isto porque, em 2019, o meu pai juntou-se a um destes óbitos. O meu pai, que sofria de doença bipolar, apenas há um ano diagnosticada, mas provavelmente sentida a vida toda, suicidou-se no Verão passado.

Nos últimos dias, na sequência do suicídio de uma figura acarinhada por todos, o tema da saúde mental e do suicídio têm sido amplamente abordados, num misto de perplexidade por sabermos tão pouco do que se passa, de perto, com pessoas para as quais olhamos todos os dias, e de empatia pelo choque e pelo luto daquela família. E tem havido, também, muito debate sobre se toda esta abordagem à situação não será um aproveitamento mediático de um tema dramático ou um incentivo a determinado comportamento, por insistência.

Na minha perspectiva, é preciso falar de suicídio. É preciso falar sobre a saúde mental. Daí que estas semanas sejam agridoces para mim: por um lado, colocam-me em contacto com uma dor que ainda está muito latente; por outro lado, sinto como positivo o efeito social de assistir a tanto diálogo sobre isto. A saúde mental é um tema tabu. Certamente é em Portugal. Suspeito que seja no mundo todo. A única forma de acabar com um tabu é normaliza-lo. E a forma de normalizar é falar sobre. E ouvir falar sobre.

O meu pai morreu de uma doença. Que quando o conduziu à morte já estava muito agravada. Uma doença que, como todas, tem estágios muito diferentes. Estágios em que talvez tivesse sido possível um tratamento mais efectivo, que pudesse evitar o desfecho. Mas o meu pai também morreu pela vergonha e pelo estigma, que ele próprio tinha, em relação à sua condição e em relação ao seu tratamento. Estigma que o nosso contexto emana e alimenta. Ninguém tem qualquer problema em dizer que vai ao dentista porque lhe dói um dente. Mas poucas pessoas dizem que vão ao psiquiatra ou ao psicólogo, porque lhes dói a alma, o coração… a vida. Porque, no caso do psiquiatra, mais do que dizer, é assumir. Assumir uma fraqueza em algo que todos achamos, ingenuamente, que controlamos: a nossa cabeça. E isso faz de nós fracos, “maluquinhos”, incapazes. Apreendemos isso e continuamos, como se fosse mais fácil tolerar uma dor de dentes.

O suicídio é ainda um tabu maior, existindo uma ideia mais ou menos generalizada, com a qual eu discordo, que se falamos muito de suicídio, estamos a incentivá-lo. Acredito, sim, que podemos estar a incentivar o tratamento: existe a possibilidade de que, ao ouvir estes testemunhos, as pessoas numa condição anterior da sua doença mental consigam percepcionar que a têm e cuidar-se, para não ficarem tão doentes que morram disso. A noção de que acontece, com qualquer pessoa, de qualquer contexto. No final do dia, somos todos bastante iguais, fortes e fracos, e tal como um cancro que é agnóstico a qualquer condição e acontece a todos, passa-se o mesmo com a doença mental, que mata agnosticamente, da mesma forma. E é preciso falar disto. É preciso que se fale em psicoterapia como em fisioterapia. Porque não há nenhum motivo racional para que assim não seja, tirando o preconceito. E é nele que morrem pessoas. E é com o seu término que se podem salvar vidas.

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