Pedro Lima (1971- 2020), o actor de teatro que cresceu na telenovela

Foi encontrado morto na praia do Abano, em Cascais. Era “um dos mais versáteis actores da sua geração”, diz a TVI. Comandante do porto de Cascais diz que enviou mensagens de despedida a dois amigos.

tvi,artistas-unidos,televisao,marcelo-rebelo-sousa,teatro,culturaipsilon,
Foto
Pedro Lima DR

O actor Pedro Lima, conhecido por participar em várias novelas, foi encontrado morto este sábado na praia do Abano, no Guincho, em Cascais. Tinha 49 anos. A notícia foi avançada pela TVI 24 e confirmada ao PÚBLICO por fonte oficial da estação de televisão.

O alerta para as autoridades foi dado pouco depois das 8h, indica a TVI num comunicado em que lamenta a “partida inesperada e brutal” num “dia chocante que abre uma tormenta de emoções e deixa um pesar enorme entre todos”. 

“A TVI endereça à família, neste momento de dor imensa, sentidas condolências. O Pedro era um dos mais versáteis actores da sua geração. E um operário desta indústria, no cinema, no teatro e na televisão. Sempre disponível, sempre afável, sempre pronto para trabalhar”, diz a TVI, em comunicado. 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, apresentou as condolências à família do “actor de quem todos gostávamos”, que deixou “sempre uma imagem de actor disponível e de colega generoso”. A Federação Portuguesa de Natação também lamentou a morte de Pedro Lima, que foi nadador olímpico em representação de Angola nos Jogos Seul 1988 e Barcelona 1992. "A televisão portuguesa perde demasiado cedo um emblemático protagonista, mas também uma presença que emanava simpatia e que milhões de portugueses conheciam e admiravam através dos ecrãs”, lê-se na nota de pesar da ministra da Cultura, Graça Fonseca, em que “lamenta profundamente” a morte do actor.

Pedro Lima “cuidava e afeiçoava-se de forma única às suas personagens”, recordou a TVI. “Foi assim que recebeu o regresso do Tristão, da série Espírito Indomável, lançada a partir da novela com o mesmo nome, e que é seu papel mais marcante neste trajecto intenso e longo na ficção nacional onde está desde a primeira hora. Neste momento dava corpo a Gonçalo Macedo na novela Amar Demais, cujas gravações foram recentemente retomadas”.

Nessa novela contracena com a actriz Fernanda Serrano, sua amiga, que no Instagram publicou a mensagem: “Tu eras o Amigo que me dava a mão. O que estava Sempre lá. Tinhas Sempre a palavra certa. Não te irei conseguir retribuir nunca a Amizade, o Carinho, o Exemplo! O meu Herói! O nosso Herói! Levaste o meu coração contigo! #meuamigoquerido”

Ver esta publicação no Instagram

Meu querido amigo Pedro ?? o meu maior abraço para a família e amigos.

Uma publicação partilhada por Eunice Muñoz (@eunicemunozoficial) a

No passado dia 3 de Junho,  também na conta de Instagram, junto a uma foto em que aparecia de máscara, Pedro Lima escrevia: “Na mesma semana juntei à alegria de ser espectador a alegria de voltar a representar. Foram apenas duas cenas em que parecia que já não sabia nada mas que acabaram por sair bem e simples como eu gosto.”

Depois da alta competição, a carreira de manequim e actor

Numa entrevista à Rádio Renascença, em Abril de 2015, dizia que a telenovela foi “o território onde cresceu” como actor e contava que quando começou a trabalhar “teve a sorte” de o fazer com Armando Cortês, Ruy de Carvalho ou Eunice Muñoz. A actriz também já reagiu na sua conta oficial de Instagram: “Meu querido amigo Pedro ❤️ o meu maior abraço para a família e amigos.” Foi na peça A Casa do Lago, no Politeama, que contracenou com Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho sob direcção de Filipe La Féria.

Pedro Lima, que nasceu a 20 de Abril de 1971 em Luanda, em Angola, e veio para Lisboa quando tinha um ano viver com a avó Bernadette, interrompeu o curso de Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico e começou a sua carreira como modelo da Central Models, de Mi e Tó Romano. Trabalhou para criadores nacionais como José António Tenente, mas também marcas internacionais, como a  Emporio Armani.

Começou a carreira de actor desafiado pelo actor e ex-manequim Ricardo Carriço. Teve uma breve figuração no Herman Enciclopédia, de Herman José, em 1997​, entrou em Não Há Duas sem Três, comédia com Rita Ribeiro e José Raposo​ e apresentou o programa Magacine na RTP 2, sobre cinema.

“Foi quase há 30 anos que nos conhecemos quando te ias estrear como apresentador de um magazine. Lembro-me que me disseste que terias tanto para aprender porque vinhas do desporto mas que estavas disposto a isso. Estiveste sempre disposto a aprender, sem deslumbramentos, atento ao teu redor, sem sinais de competição, tão característicos neste nosso meio. Fizemos juntos uma campanha. Eras o galã, o óptimo colega, o pai incrível”, escreveu a apresentadora e actriz Catarina Furtado nas redes sociais

“É uma grande perda. Era um actor muito rigoroso e delicado, que foi inesquecível sobretudo em Inverno, de Jon Fosse, nos Artistas Unidos e em Negócio Fechado, de David Mamet, no Teatro de Almada. Mas claro, o público conhecia-o sobretudo das telenovelas. Contudo o Pedro gostava mesmo de teatro e era assíduo espectador”, diz por sua vez ao PÚBLICO o crítico Augusto M. Seabra.

No teatro, Pedro Lima estreou-se em Balas Sobre a Broadway, de Woody Allen, no Teatro Municipal do Funchal, com encenação de Eduardo Gaspar, de acordo com a biografia publicada no site dos Artistas Unidos. Nesta companhia entrou nas criações colectivas Cada Dia a Cada Um a Liberdade e o Reino (2003), e Noruega-Lisboa-Noruega (2008), uma colagem de textos de autores portugueses e noruegueses. 

O actor trabalhou ainda na Companhia de Teatro de Almada e no Teatro Aberto, mas também em produções de Filipe La Féria e do Teatro Villaret, e naquelas que levou a cena, através da Prati, numa parceria que estabeleceu com Raul Solnado, nos primeiros anos 2000 (A Memória da água, de Shelagh Stephenson e O Método Gronholm, do catalão Jordi Galcerán).

“Trabalhei com o Pedro em dois espectáculos, um na Assembleia da República e em Inverno, de Jon Fosse, e só tenho boas recordações dele. Muitíssimo bom trabalhador, dizia sempre ‘não tenho talento, tenho de trabalhar mais’, o que não era verdade”, disse Jorge Silva Melo, dos Artistas Unidos, à agência Lusa. Segundo o encenador, quer nos espectáculos em que trabalhou com o actor quer naqueles em que apenas foi espectador — recordou também Negócio Fechado, de David Mamet, a que assistiu no Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada) — “o que impressionava era a minúcia com que trabalhava, o rigor” de Pedro Lima. 

“Adorava o Pedro, fiquei muito chocado e a amaldiçoar-me porque não estive com ele recentemente, não o abracei. Em todos os espectáculos que fez teve o carinho e a amizade de todos os que trabalhavam com ele, é raro haver respeito total, era um homem realmente digno e honesto”, acrescentou Jorge Silva Melo.

“Um duplo golpe na comunidade teatral”

Também o director artístico do Teatro de Almada, Rodrigo Francisco, considerou que a morte de Pedro Lima é “um duplo golpe na comunidade teatral” do país. “Para além das suas qualidades na vida e no palco, o Pedro era também um indefectível espectador de teatro: amava acompanhar o trabalho dos seus colegas, e raramente perdia uma oportunidade para assistir aos espectáculos que vinham de fora. Como artista e desportista que era, gostava de emular-se com os melhores”, comentou Rodrigo Francisco à agência Lusa. 

Nesta companhia, Pedro Lima interpretou, além do texto de Mamet, Kilimanjaro, de Hemingway, com encenação de Rodrigo Francisco, A tragédia optimista, de Vichnievski e O pelicano, de Strindberg (dirigido por Rogério Carvalho). “Em todos os elencos que integrou, ofereceu-nos a sua alegria, o seu rigor, a sua generosidade, o seu carinho e a sua ímpar capacidade de trabalho. Perdemos um de nós. O Pedro vai faltar-nos no palco e nas plateias”. 

No Teatro Aberto, o actor fez Socos (2001) e Paisagens Americanas (2004), de Neil LaBute, e Agora a sério (2010), de Tom Stoppard. Trabalhou ainda com companhias como Escola das Mulheres, com quem fez Vânia, de Tchekhov, e em A Companhia de Teatro do Algarve, para quem interpretou Beckett (À espera de Godot). ​Um dos seus últimos trabalhos em palco foi Os Vizinhos de Cima, no Teatro Villaret, do autor catalão Francisco Gay i Puigao lado de Fernanda Serrano e Ana Brito e Cunha.

Augusto M. Seabra recorda que no intervalo de um espectáculo do Festival de Almada encontrou o actor, juntamente com Jorge Silva Melo, e perguntou-lhe o que estava a fazer ao que ele lhe respondeu que estava a fazer uma novela. “Só espero que não lhe façam o que aconteceu em O Beijo do Escorpião”, retorquiu o crítico. Nessa altura, conta, Pedro Lima respondeu-lhe que quando tem de se sustentar vários filhos é preciso trabalhar sempre e o que há para fazer são telenovelas. “Não tenho nada contra os artistas fazerem novelas e ganharem assim a sua vida. Eu estava a dizer-lhe que esperava que não lhe fizessem o mesmo que em O Beijo do Escorpião, em que o ‘mataram’ a meio da novela.’ E ele aí compreendeu”, recorda agora Augusto M. Seabra emocionado.

Ao longo dos anos Pedro Lima participou em inúmeras telenovelas e séries de televisão. Entre elas: A Grande Aposta (1997),onde interpretava papel de Pedro Romero, um domador de leões. Mas também em Terra Mãe (1998), Os Lobos (1998), Todo o Tempo do Mundo (1999), Olhos de Água (2001), Super Pai (2001), Anjo Selvagem (2002), O Último Beijo (2002), Ninguém Como Tu (2005), Fala-me de Amor (2006), Ilha dos Amores (2007), A Outra (2008), Sentimentos (2009), O Contrato (2009), A Única Mulher (2015), Massa Fresca (2016) ou A Herdeira (2018). 

E também teve papéis no cinema, nomeadamente em O Contrato, de Nicolau Breyner, sobre o policial de Dinis Machado; A Uma Hora Incerta, de Carlos Saboga; no Second Life, de Miguel Gaudêncio e Alexandre Valente onde interpretava Luca (2009), no Quarta Divisão, de Joaquim Leitão (2013), em Eclipse em Portugal, de Edgar Alberto e Alexandre Valente (2014) e em O Homem Cordial, de Iberê Carvalho (2019).

A directora de casting Patrícia Vasconcelos, emocionada, lembra “o amigalhaço sempre sorridente, sempre com uma palavra amiga, que pessoa bonita”. Mas também realça o actor, que estava sempre a reciclar-se, a ir em busca de mais. “Este ofício de ser actor, esta arte de representar, requer esta curiosidade de ir descobrir novos caminhos para poder interpretar um personagem”, diz, e na sua opinião Pedro Lima tinha-a. “Há grandes actores, consagrados, com muito talento e com uma carreira feita que continuam a trabalhar o seu ofício.” Pedro Lima era um desses e “isso era extraordinário nele”, diz ao PÚBLICO.

“As palavras serão sempre curtas para homenagear um ser especial como o Pedro... desde o (meu) primeiro par de novela, que fizemos há 18 anos, aprendi e cresci sempre contigo, fomos família, foram mesmo muitas aventuras e desventuras que passámos e com esta desventura não contava eu. Sempre atento, sempre correcto, sempre ético, o Pedro estava sempre presente no momento certo... até hoje, até já, até sempre... o teu sorriso ficará para sempre a aquecer-nos o coração”, escreveu a actriz Joana Seixas no Instagram.

Segundo fonte da Autoridade Marítima Nacional tudo aponta para que o actor se tenha suicidado. O carro do actor, que tinha cinco filhos e era praticante de surf, foi encontrado com os seus pertences à entrada da praia do Abano, estacionado na falésia, enquanto o corpo acabaria por ser descoberto na linha de praia por uma lancha do Instituto de Socorros a Náufragos. 

Em declarações prestadas à hora de almoço à comunicação social, o responsável pela capitania do porto de Cascais, Rui Teixeira, explicou que este antigo atleta de competição enviou duas mensagens de despedida a dois amigos esta manhã, pelas 6h58. Foram estes a alertar as autoridades. Seja como for, a morte irá agora ser investigada pela Polícia Judiciária, que esteve no local, juntamente com um psicólogo do Instituto Nacional de Emergência Médica. 

Companheiro da ceramista e ex-manequim Anna Westerlund, com quem tinha quatro dos seus cinco filhos (sendo o seu primeiro filho fruto do relacionamento com Patrícia Piloto), o actor era adepto do Sporting. Na sua última entrevista, à revista Nova Gente, disse que planeava casar com a artista no ano que vem: “No próximo ano fazemos 20 anos de namoro e eu faço 50 anos, por isso era a altura ideal. Gostávamos de fazer uma festa com todos aqueles que são importantes na nossa vida. Assinar um papel podia ser já amanhã, não faz sentido”. Para acrescentar: “Todos os anos pensamos nisso, todos os anos falamos em casar, mas depois o tempo passa e adiamos ou porque nasce um filho, ou porque não há orçamento ou há algum trabalho importante que nos impede”.