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Agentes de informação

A pandemia de covid-19 está a ser controlada, urge começar a combater a outra que, na minha opinião, pode ser bastante mais perigosa para o mundo livre: a desinformação.

Se a expressão “um mal nunca vem só” é verdade ou não, não sei. Sabe-se, ainda assim, que atrelada na pandemia do novo coronavírus veio uma outra, que já por cá andava dissimulada no meio de nós todos sem que ninguém se metesse em casa com medo de a apanhar. Pode dizer-se que a covid-19 e a desinformação se fizeram boas companheiras desde o início. Aliás, foi esta preocupação da desinformação que surgiu associada ao tempo da pandemia e que mereceu a atenção do Parlamento Europeu no International Fact-checking Day deste ano. Desinformação esta que tem tido como alvos, para além da doença per se, instituições políticas e é claramente influenciada por alguns outros regimes.

De facto, medidas têm sido tomadas, um pouco por todo o mundo, para travar esta pandemia dentro da pandemia. No passado dia 12 de Maio a Roménia começou a encerrar alguns sites por, alegadamente, conterem informações pouca fidedignas acerca da covid-19. Num outro contexto, Viktor Órban, na Hungria, foi dotado do poderes excepcionais para vários efeitos, sendo um deles a permissão para punir quem estivesse a divulgar informação prejudicial ao combate da covid-19 naquele mesmo país.

No reverso da moeda, gigantes tecnológicas como a Facebook e o Twitter são constantemente acusadas, quando não mesmo envolvidas em litígio, por causa da sua alegada excessiva permissividade na publicação de conteúdos por partes dos utilizadores. Na maioria das vezes na base destes episódios estão recusas dessas mesmas plataformas em retirar conteúdo falso, dizendo que incorreriam contra a liberdade de expressão dos utilizadores. O fenómeno cresceu de tal forma que no início do mês de Maio Zuckerberg anunciou a criação de um oversight board totalmente independente do Facebook para aferir a remoção, ou não, de conteúdo das suas redes sociais.

É, portanto, bastante fácil identificar várias formas de lidar com o problema da desinformação e igualmente fácil identificar os défices de cada uma das abordagens. A repressão governativa, como é o caso da Hungria, levanta questões éticas, morais e até legislativas sobre a liberdade de expressão num Estado de Direito. Em que situações será legítimo que um governo impeça um cidadão de se expressar? Haverá sequer justificação para isso num clima democrático? Admitindo que há situações em que isso se justifique pelo bem comum, quem tem o poder de decidir sobre isso mesmo? ; Por outro lado, será que as redes e plataformas tecnológicas que são de influência indiscutível, como provam os inúmeros escândalos dos últimos anos incluindo até actos eleitorais, não devem ter uma responsabilidade sob a informação que deixam disponível nas suas plataformas? Afinal de contas, permitir discurso de ódio ou racista na minha plataforma faz de mim conivente com aquele tipo de conteúdo ou não?

Tudo isto é uma discussão eterna por confrontar liberdades individuais com interesses comuns de forma inaudita em democracias que se baseiam, entre outros valores, na pura liberdade de expressão do indivíduo. Aliás, até que ponto a opinião de alguém pode ser considerada informação para este efeito?

A desinformação partilha uma outra qualidade com o vírus, para além de também ser pandémica: só consegue sobreviver se tiver hospedeiros. Em boa verdade, as fake news são uma preocupação tão grande para os governantes, as instituições e todos os cidadãos porque há quem acredite nelas. Tal como o vírus, uma notícia sem ninguém que acredite nela não tem validade nem impacto. E isto, infelizmente, põe-nos de frente com uma fragilidade enorme da população, em geral: a fraca capacidade de distinguir e seleccionar informação. Esta fragilidade exacerbou-se com a facilidade de acesso a notícias com a Internet e com as redes sociais onde a produção de conteúdo deixou de estar apenas a cargo de jornalistas com códigos deontológicos mas passou a estar ao alcance de qualquer um. E espalham-se bastante rápido, até mais rápido que o vírus!

Estou convicto que grande parte do problema vem da falta de literacia digital da população e da falta de entendimento de funcionamento das plataformas de onde recebem notícias. Por exemplo, apenas 11% dos portugueses têm interesse por notícias de ciências e tecnologia, segundo dados da ERC.

A solução para minimizar o impacto negativo desta onda de notícias falsas poderá muito bem estar em cada um de nós, enquanto agentes activos, substituindo-nos aos polícias da informação e do politicamente correcto na Internet. Porque uma forma bastante simples de rebater esta tendência de disseminação é não partilharmos este tipo de conteúdo. Para isto, julgo ser indispensável reforçar a necessidade de fomentar o sentido crítico, a discussão, a apresentação de diferentes pontos de vista nas escolas portuguesas. O modelo de apresentações unidireccional, sem discussão e sem contraditório é terreno fértil para uma fraca avaliação da informação ou para a falta de capacidades-chave num dia-a-dia cada vez mas complexo que exige, por exemplo, saber identificar fontes credíveis e fidedignas de informação. Saber no que devemos acreditar é tão valioso como saber no que não acreditar. A problemática começa até já a atingir a comunidade científica, que depende de forma brutal de informação fidedigna e validade, dando origem ao termo fake science, segundo a The Royal Society Publishing. Isto é sinal de que o fenómeno ultrapassou a barreira da população comum e começa a atingir a base da produção científica que, em última análise, produz as verdades em que acreditamos.

Esta praga da era digital é a confirmação de que informação produzida por profissionais e informação clara e correcta são instrumentos essenciais para a manutenção do progresso e da paz nas sociedades do séc. XXI. A pandemia de covid-19 está a ser controlada, urge começar a combater a outra que, na minha opinião, pode ser bastante mais perigosa para o mundo livre. Aqui, a responsabilidade deve ser partilhada entre governos e cidadãos, cada um à sua medida, e de forma estruturada, porque a discussão será longa e complexa para garantir que este combate não arrasa de forma colateral nada que possa ser apetecível para pessoas menos bem-intencionadas. Assim, da mesma forma que fomos chamados a ser agentes de saúde pública, também podemos e devemos ser agentes de informação. 

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