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As feridas abertas do comunismo estão a “empurrar os húngaros para a extrema-direita”

O regime comunista húngaro condenou, entre 1949 e 1989, milhares de homens e mulheres à prisão, trabalhos forçados e extermínio. Do comunismo sobra apenas a memória dos sobreviventes que Daniel Kovalovzsky retratou numa Hungria encostada, hoje, à extrema-direita.

©Daniel Kovalovszky
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©Daniel Kovalovszky

São inúmeros os países europeus que viveram, durante décadas, sob o jugo de sistemas ditatoriais. Milhares de cidadãos, considerados inimigos dos regimes pelos mais variados motivos, deram entrada em prisões, campos de trabalho ou de concentração. Aos milhões foram executados. A Hungria não foi, neste plano, uma excepção. Alinhado à esquerda estalinista, o regime comunista húngaro, que vigorou entre 1949 e 1989, vitimou centenas de milhares de pessoas. Hoje, longe do comunismo que a feriu tão gravemente, a Hungria é um país encostado à direita conservadora, nacionalista e populista. A série An Infernal Play, criada por Daniel Kovalovszky entre 2016 e 2019, consiste num retrato dos "velhos sobreviventes que passaram longos anos nas mais negras prisões e campos de trabalho do regime". O fotógrafo revisita as memórias destes homens, percorre os locais onde viveram os piores anos das suas vidas e cria um documento de valor histórico e artístico que suscita questões de ordem política, social e antropológica que ultrapassam o seu objecto principal.

Acusados, sobretudo, de fornecer informações aos estados do Ocidente e de, secretamente, organizarem revolta contra o poder vigente, os homens que Daniel retratou sofreram cativeiro e tortura às mãos dos guardiões do poder. Sobreviveram e guardam, até hoje, vívidas memórias desse período memórias que o fotógrafo húngaro fixou para salvar do esquecimento. “Há cada vez menos ex-prisioneiros vivos e os locais estão em permanente mudança”, conta, em entrevista ao P3. Os mais emblemáticos espaços de punição do regime e as ferramentas de trabalho e tortura que foram utilizados por agentes e prisioneiros são também protagonistas na série fotográfica.

Os velhos homens que Daniel retratou e entrevistou detalhadamente para An Infernal Play vivem hoje de forma recatada, longe da esfera pública, e carregam um fardo que não se aligeirou com a passagem do tempo. “Eles nunca receberam qualquer tipo de compensação moral ou financeira pelos danos que lhes foram imputados”, esclarece, descrevendo alguns exemplos.

János Straub esteve preso durante 16 anos e dois meses. Tinha apenas 21 anos quando foi detido. Esteve 180 dias em regime de vigilância rigorosa e outros 180 em solitária, sem luz. Foi condenado por ter tentado cruzar a fronteira ilegalmente, ter participado na revolução de 1956 e por várias tentativas de homicídio. Foi libertado em 1971.

István Válóczy foi condenado a uma longa pena de prisão pela participação na revolução de 56 e a sua história é, aos olhos do fotógrafo, a mais impressionante desta série. “Ele tinha apenas 23 anos quando foi preso. Os seus pais não souberam, durante muito tempo, o que lhe tinha acontecido. Ele simplesmente desapareceu.” E quando, anos mais tarde, os pais descobriram onde estava, nunca puderam visitá-lo. Enviavam-lhe cartas que raramente chegaram ao destino.” Durante o cárcere, a mãe ficou gravemente doente e só anos mais tarde István soube que a mãe já não era viva. “A noiva também o deixou por não ter certeza se seria libertado a tempo.”

O tempo de cárcere é, na mente de István, um borrão “cinzento”. "Os guardas nunca nos deixavam olhar para cima durante a hora de passeio na prisão”, contou ao fotógrafo. “Eu só via o céu quando ele estava reflectido nas poças, em dias de chuva", lamentou. "Lá dentro, tudo é cinzento. Os dias são cinzentos, as paredes são cinzentas, as fardas dos guardas são cinzentas. O desespero do tempo passado na prisão é cinzento. Cá fora tudo tem cor. E o céu é azul."

Cada país convive de forma diferente com as feridas da ditadura. Daniel não crê que a Hungria queira, activamente, silenciar o passado. Nem acredita que tal fosse possível. “Mas também não o processámos, nem compensámos as vítimas, nem revelámos a verdade inteiramente”, observa. Está convicto de que os húngaros preferem não enfrentar os factos, que preferem "esquecer, viajar, trabalhar muito". Também não existe vontade política de explorar o passado, uma vez que muitos daqueles que governam hoje o país tiveram familiares directos em cargos de poder no período da ditadura. Mas pode um país ferido superar os seus traumas sem os processar? Pode uma fuga do comunismo justificar uma abertura de portas à extrema-direita?

Actualmente, o parlamento húngaro, que alberga 199 deputados, tem uma maioria de deputados à direita. O partido com maior representação é o Fidesz-KDNP, com 133 deputados, seguido de Jobbik, com 21; ambos se auto-proclamam cristãos, nacionalistas e conservadores. Não se consideram de extrema-direita. Viktor Orbán, o actual primeiro-ministro da Hungria, é firmemente contra a imigração, um declarado eurocéptico apoiante de Trump e Bolsonaro, amigo próximo de Netanyahu. Outros partidos húngaros, declaradamente fascistas, "empurram" o Fidesz e o Jobbik para o centro. "E esses têm pouca representação", observa Daniel. “Na Hungria não há grupos radicais tão numerosos como noutros países da Europa. O comunismo e outros pensamentos de esquerda estão gastos, obsoletos. Existem grupos de homens idosos que ainda se identificam com eles, talvez alguns mihares de pessoas na Hungria, hoje, na totalidade. O que é bom, creio. Vejo todos os tipos de radicalismo como perigosos num estado pós-socialista."

Na mina Recsk, os prisioneiros eram forçado a trabalhar com ferramentas básicas entre 10 e 12 horas por dia, em qualquer estação do ano. Abriu em 1950. À medida que o número de prisioneiros aumentava, os guardas tornavam-se mais violentos: castravam, torturavam e deixavam à fome os prisioneiros. O campo chegou a ter 1700 prisioneiros. Em 53, todos os prisioneiros foram forçados a assinar um contrato de confidencialidade para que nunca pudessem descrever a ninguém as condições em que viviam.
Na mina Recsk, os prisioneiros eram forçado a trabalhar com ferramentas básicas entre 10 e 12 horas por dia, em qualquer estação do ano. Abriu em 1950. À medida que o número de prisioneiros aumentava, os guardas tornavam-se mais violentos: castravam, torturavam e deixavam à fome os prisioneiros. O campo chegou a ter 1700 prisioneiros. Em 53, todos os prisioneiros foram forçados a assinar um contrato de confidencialidade para que nunca pudessem descrever a ninguém as condições em que viviam. ©Daniel Kovalovszky
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