Há novas pistas que nos levam à origem de diamantes raros

Qual a origem de diamantes raros como o Hope? De acordo com novas pistas, poderão mesmo ter surgido no manto inferior da Terra.

Diamante Hope
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O diamante Hope Cortesia da Instituição Smithsonian

É inegável que os diamantes têm um “brilho” que nos atrai. Então se pensarmos em diamantes raros, como o diamante Hope e o Cullinan, têm um brilhozinho que nos faz querer saber qual a sua origem. E não é fácil sabê-lo. Desta vez, investigadores dos Estados Unidos conseguiram analisar dois diamantes com propriedades semelhantes aos Hope e Cullinan e verificaram que são originários de uma profundidade abaixo de 660 quilómetros. Portanto, para os cientistas isto confirma a suspeita de que os diamantes raros são mesmo “superprofundos”.

Os diamantes são formados sob alta pressão no manto terrestre – a camada entre a crosta da superfície e o núcleo central e que se estende desde cerca de 30 quilómetros de profundidade até aos 2900 quilómetros. Sabe-se que a maioria dos diamantes se forma a profundidades entre os 150 quilómetros e os 200 quilómetros.

Mas há diamantes – mais raros – que se poderão formar em profundidades maiores, já no manto inferior. A esses diamantes dá-se o nome de “superprofundos”. “Até há poucos anos, pensava-se que os diamantes superprofundos eram extremamente raros, que eram todos pequenos e a gema mão tinha qualidade”, recorda Evan Smith, investigador do Instituto Gemológico da América e que está envolvido no recente trabalho. “Aos poucos temos vindo a descobrir que alguns dos diamantes com gema de grande qualidade vinham mesmo de grandes profundidades, o que significa que são diamantes superprofundos.”

Evan Smith refere-se sobretudo a dois diamantes: o Hope e o Cullinan. O diamante Hope – apelido de um dos seus antigos proprietários – é um diamante azul raro. Já passou pelas mãos de monarcas, banqueiros, herdeiros, ladrões e está agora no Museu Nacional Smithsonian de História Natural, em Washington (Estados Unidos). Os diamantes azuis (classificados com o tipo IIb) fazem parte só de 0,02% dos diamantes extraídos da Terra e são das jóias mais valiosas do mundo. Estes diamantes de tipo IIb contém o elemento químico boro que lhes dá a tonalidade azul. Num artigo publicado na revista científica Nature em 2018, a equipa de Evan Smith já referia que estes diamantes se formariam a profundidades de, pelo menos, 660 quilómetros, alcançando o manto inferior da Terra.

O diamante Cullinan foi descoberto na África do Sul em 1905 e tem 3106 quilates – é um dos maiores diamantes do mundo. Foi cortado em várias pedras e faz parte das jóias da coroa britânica. Esta pedra preciosa também terá surgido em grandes profundidades – pelo menos a 410 quilómetros, na zona de transição do manto superior para o inferior. É classificado como um diamante que vai buscar o seu nome ao recente acrónimo CLIPPIR (Cullinan-like Large Inclusion Poor Pure Irregular Resorbed, em inglês).

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Várias pedras do diamante Cullinan DR

Para saber mais sobre a origem destes diamantes tão raros, a equipa de Evan Smith analisou dois diamantes: um azul de 20 quilates originário da África do Sul (do tipo IIb) e outro incolor com 124 quilates (da classe CLIPPIR) encontrado numa mina em Lesoto.

Em ambos os diamantes encontraram-se vestígios do mineral bridgmanita, que é muito comum no manto inferior da Terra, abaixo de 660 quilómetros. Este mineral não existe no manto superior nem na superfície. “Aquilo que normalmente vemos nos diamantes quando eles chegam à superfície não é bridgmanita, mas sim os minerais deixados à medida que a pressão baixa”, adianta Evan Smith num comunicado sobre o trabalho. “Encontrar estes minerais presos num diamante significa que esse próprio diamante deve ter cristalizado a uma profundidade onde existe bridgmanita.”

Saber mais sobre o interior da Terra

Como estes diamantes têm características semelhantes aos Hope e Cullinan, os cientistas extrapolam que essas duas pedras preciosas são, de facto, diamantes superprofundos. Num outro artigo científico publicado no ano passado na revista Matters Arising (que pertence ao grupo da Nature) uma outra equipa de investigadores sugeria que os diamantes do tipo IIb (como o Hope) não eram superprofundos e tinham sido formados entre os 150 quilómetros e os 200 quilómetros de profundidade. “Agora temos boas provas que permitem descartar essa hipótese: temos provas fortes que sugerem que o diamante Hope é um diamante superprofundo”, considera Evan Smith.

Já dos diamantes da classe CLIPPIR apenas se sabia que tinham tido origem entre os 410 e os 660 quilómetros abaixo da superfície, mas já se especulava que podiam ter surgido entre os 360 e os 750 quilómetros de profundidade. “[Este estudo] dá-nos uma ideia melhor de onde [tiveram origem] exactamente os diamantes CLIPPIR”, sublinha o cientista.

Por agora, a equipa apresentou estes resultados na conferência Goldschmidt esta quarta-feira, um evento da Sociedade Geoquímica (com sede em Washington, D.C.) e da Associação Europeia de Geoquímica que este ano será apenas virtual. Evan Smith adianta que este trabalho faz parte de uma investigação que ainda está a decorrer e espera que os resultados sejam publicados numa revista científica.

O cientista também confidencia que estes diamantes são uma forma de se saber mais sobre o “coração” da Terra. “É fantástico imaginar que estes diamantes vieram de um local tão longe no interior da Terra. Por isso, não são apenas pedras preciosas requintadas, também nos podem dizer muito sobre o que está a acontecer nas profundidades do planeta”, considera. Através da ajuda destes diamantes tão raros pretende revelar mais mistérios sobre o interior da Terra.

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