Alexandra Vasconcelos

“Se os doentes adoptassem um regime de jejum, que custa zero, iríamos poupar milhões ao Serviço Nacional de Saúde”

A autora de O Poder do Jejum Intermitente defende que este faz bem porque permite “viver sem doenças”. Ou seja, não serve apenas para perder peso, mas também para envelhecer de maneira saudável.

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O jejum é comum a muitas religiões Abdullah Arif/Unsplash

Depois de se licenciar em Ciências Farmacêuticas, a curiosidade de Alexandra Vasconcelos levou-a a descobrir as terapias complementares, naturais e biológicas. Por isso, continuou a estudar e centrou-se na área da medicina integrativa e na nutrição. Foi assim que o jejum entrou na sua vida e na vida dos clientes que acompanha. O Poder do Jejum Intermitente, lançado nesta terça-feira pela editora Planeta, explica, recorrendo sempre a estudos científicos, a importância do jejum, além de ser um guia prático a que a autora acrescentou algumas receitas.

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Alexandra Vasconcelos especializou-se em Nutrição e Saúde DR

Alexandra Vasconcelos, que lembra que o jejum é uma prática milenar que ainda hoje as grandes religiões — do judaísmo ao islamismo, passando pelo catolicismo — praticam, defende que este pode ser feito no dia-a-dia. Ou seja, em vez de a pessoa comer várias vezes ao dia, pode fazê-lo de forma cada vez mais espaçada. Para um iniciante, o jejum pode começar por ser de 12 horas, sem comer, o que vai fazer com que o açúcar no sangue baixe drasticamente, ao mesmo tempo que baixa a insulina. “É importante conhecer todas as alterações metabólicas que acontecem no nosso corpo” e “perceber que a maioria delas são benéficas”, defende no livro.

A autora de O Segredo para se Manter Jovem e Saudável e Jovem e Saudável em 21 Dias, ambos editados pela Manuscrito, defende que o jejum faz bem a saúde porque permite “viver sem doenças”. Ou seja, não serve apenas para perder peso, mas também para envelhecer de maneira saudável, diz. “Comer muito e mal não é bom para a nossa saúde”, argumenta. Se mais pessoas fizessem jejum, em última instância, o Serviço Nacional de Saúde também sairia beneficiado, considera.

Porquê fazer jejum intermitente?
A primeira causa, que é a causa nobre do jejum, é manter a saúde, inverter doenças e conseguir aumentar a longevidade. O jejum também reduz a inflamação, o stress e ajuda na perda de peso. Mas, essencialmente, é para manter a saúde, manter qualidade de vida e livrarmo-nos destas doenças modernas, que têm aparecido nos últimos anos. O jejum é uma prática milenar, como se sabe, e é adaptado à nossa genética. Acho que isto diz tudo. A partir do momento que há uma prática que respeita o nosso ADN, obviamente que as pessoas vão viver mais saudáveis e não vão ter as doenças que têm aparecido ultimamente, que são fruto da forma como vivemos e nos alimentamos.

Quem começa com um jejum de 12 horas deve ir até ao de 48 horas?
Não. Mas o jejum de 12 horas é insuficiente. Nós começamos por propor 12 horas a quem está muito dependentes do açúcar e, para o metabolismo se ir ajustando. Agora, o esquema mais adoptado e que é mais fácil de cumprir é o das 16h/8h. Ou seja, diariamente, as pessoas comem durante um período de oito horas e fazem jejum 16. Este é um esquema fácil de cumprir e que tem resultados muito rápidos. Por exemplo, nas pessoas com doenças auto-imunes ou em algumas situações de saúde, pontualmente, faço um jejum maior. As 24 horas são fáceis. Por exemplo, almoça bem num domingo e depois só volta a almoçar na segunda-feira. Normalmente, temos um almoço com a família, mais pesado, e há muitas pessoas que dizem “jantar ao domingo, às vezes nem me apetece”. Então, não jante. Faz um caldo de ossos, por exemplo, que não interrompe o jejum e só volta a almoçar no dia seguinte. Estas 24 horas de jejum permite-nos fazer aquilo que chamamos de autofagia e que foi alvo do Nobel em 2016 — atribuído ao japonês Yoshinori Ohsumi —, que percebeu as grandes vantagens dos mecanismos de autofagia, que são os mecanismos onde se processa uma limpeza dos restos que ficam na célula e que estão muito associados a doenças. É importante manter o jejum diário. 

Mas começando por um jejum de 12 horas, quais são os efeitos?
O primeiro impacto é na baixa do açúcar. Porque o grande problema das doenças modernas — falo naquelas que apareceram nos últimos cento e tal anos — é a síndrome de resistência à insulina. Refiro-me à diabetes, síndrome cardiovascular, ao cancro, às doenças auto-imunes. Isto está muito relacionado com a forma como comemos, especialmente com o excesso de açúcar que vai espoletar um síndrome de resistência à insulina e que é, sem dúvida, a principal causa destas doenças. No jejum, o que acontece ao nosso corpo é uma alteração e uma reprogramação metabólica, porque o corpo deixa de ser uma máquina de consumir açúcar para ser uma máquina que consome gordura. 

Não é perigoso dizer que o jejum cura? Não é mais cauteloso dizer que “pode ajudar a melhorar” uma doença, em vez de dizer no livro que a pessoa “pode deixar” de ter diabetes, por exemplo?
É verdade, a pessoa deixa de ter diabetes. Diabetes do tipo 2 é uma doença nutricional. Invertemos a doença através do jejum. Isso é um facto. Há muitos livros, há milhares de estudos que mostram como o jejum consegue inverter a diabetes do tipo 2. Além de que, na prática com os meus doentes, e em conjunto com um médico, introduzimos jejuns e uma restrição alimentar durante o período em que as pessoas se alimentam, adoptamos um regime low carb/cetogénico e não há dúvida nenhuma de que as pessoas conseguem deixar o hipoglicemiante [medicamento]. Nesse sentido, podemos dizer que o jejum consegue inverter uma série de doenças. Não só a diabetes mas também a doença auto-imune é muito beneficiada com o jejum.

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"O Poder do Jejum Intermitente" é editado pela Planeta e lançado nesta terça-feira DR

Em relação ao cancro, devido à diversidade de cancros que existem, a sua localização no corpo e as fases em que pode estar, por que é que aconselha o jejum, quando os oncologistas aconselham que se coma?
Nós sabemos devido a muitos estudos, que a célula cancerígena tem um handicap: só consegue energia através do metabolismo do açúcar. Não consegue utilizar a gordura como fonte de energia, portanto, para sobreviver, precisa de açúcar. Se eu fizer jejum ou se restringir o açúcar em dietas cetogénicas — que consistem em reduzir o açúcar ao máximo e aumentar o consumo de gordura —, as células sãs conseguem fazer esta alteração do metabolismo, e deixar de usar o açúcar para passar a usar a gordura, enquanto as cancerígenas ficam fragilizadas. E, por isso, nós utilizamos dietas cetogénicas e jejum em doentes com cancro. Agora, o grande problema do cancro chama-se caquexia [perda de peso]. Quando os médicos oncologistas dizem que o doente não pode perder peso, sabemos que não pode perder peso porque altera a concentração da quimioterapia, por exemplo. No entanto, fazendo jejum e fazendo uma dieta cetogénica, a pessoa não tem forçosamente de perder peso. Isto é importante: não tem de perder peso a fazer jejum. 

Que evidências científicas existem para dizer que o jejum cura quando ainda é um tema polémico junto da comunidade médica?
Existe muita literatura, muitos livros e é o regime que está melhor estudado. Não existe, praticamente, nenhum estudo que diga que o jejum faz mal. O único problema, infelizmente, e isso é um grande objectivo do meu livro, talvez o maior objectivo, é poder sensibilizar as pessoas da área da saúde, poder sensibilizar os médicos e fazer com que vão, pelo menos, procurar artigos científicos credíveis. Já há muitos médicos que nos mandam doentes e que nos pedem para ajudarmos a fazer o acompanhamento através da medicina integrativa porque, no fundo, a medicina tradicional trata o sintoma mas não trata o terreno. O terreno é o corpo da pessoa. Se tem uma amigdalite ou uma infecção bacteriana, a pessoa tem de fazer antibiótico, tratar o sintoma, mas tem de corrigir o terreno. E o jejum, não há dúvida nenhuma de que é uma ferramenta poderosa, barata, fácil, lógica e que respeita a nossa individualidade genética, que permite manter o terreno saudável. Se os doentes adoptassem um regime de jejum, que custa zero, iríamos poupar milhões ao Serviço Nacional de Saúde.

Ao aconselhar o jejum, não se está a transmitir que, na hora das refeições, a pessoa pode comer o que quiser?
A informação é muita e as pessoas sabem que não podem comer gorduras más, fritos, carne em excesso, açúcar, comida de plástico. Já escrevi muito sobre alimentação saudável, este é o meu terceiro livro, estou a trabalhar na área da medicina integrativa há 15 anos e tenho a certeza de que nunca fomentaria isso. No livro há um capítulo em que falo do que é que as pessoas podem comer durante a janela em que se alimentam e também tem receitas. Apesar de ser um livro sobre o jejum, é muito importante sabermos o que podemos comer e o mais importante de tudo é a saída do jejum. Porque se eu estive 16 horas sem comer, obviamente que não posso comer açúcar, hidratos de carbono refinados, se não vou deitar tudo a perder. Não faz sentido. Muitas pessoas chegam ao fim do dia com vontade de comer doces e têm uma grande dependência emocional de comida. Isso é a primeira coisa, é a libertação da comida. Infelizmente, aquilo que aprendemos nos últimos anos, que é comer de três em três horas, deixou-nos focados na comida — “tenho de ir comer, não consigo pensar, tenho de ir comer”. Portanto, isto está um bocadinho enraizado e é muito fácil que, nas primeiras vezes em que se faz jejum, apareçam alguns sinais mais desconfortáveis, mas rapidamente a pessoas começa a sentir os benefícios.

Faz sentido sugerir suplementação a pessoas saudáveis? Uma alimentação integral e completa não é preferível à toma de suplementos, como aconselha?
Seria possível e seria muito mais indicado, concordo. O problema é que os alimentos já não têm os nutrientes, já não têm a concentração nutricional que nós precisamos. Se vai comer uns brócolos já não tem selénio suficiente – a maioria dos legumes já não tem a densidade nutricional porque são cultivados fora da estação, recorrendo a fertilizantes, pesticidas. Tudo o que digo não sou eu que digo, são os estudos. Percebemos que os défices micro nutricionais, dados pela Organização Mundial de Saúde, são imensos e que é muito fácil que, através da alimentação, não consigamos repor os défices nutricionais que temos.

Basta ler o livro para começar a fazer jejum ou é preferível falar com um especialista antes, com quem?
Para fazer jejum não é preciso falar com ninguém. A pessoa pode fazer jejum sozinha. Se se sentir mal, vai à cozinha e come qualquer coisa. Antigamente, e estou-me a referir há milhões de anos, o jejum era feito por todas as pessoas, não havia religião que não incluísse o jejum, ainda hoje existem povos que o fazem e só se deixou de fazer desde há cento e tal anos, quando a indústria da alimentação nos meteu na cabeça que tínhamos de comer muito. E, por isso, é que aparecem cada vez mais doenças. Para fazer jejum não é preciso ir a lado nenhum. Depois sim, se quiser fazer análises é importante ir ao médico e perceber como a pessoa está. Por isso, nem precisam do livro, este é um apoio. 

Qual é o procedimento para quem quiser parar de fazer jejum? Há um aumento de peso, a longo prazo, visto que o corpo se habituou a “acumular” para depois “gastar"?
Não. A pessoa quer parar, vai à cozinha e come, vai ao restaurante e come, não tem procedimento absolutamente nenhum. Quem quer parar, pára. O que vai acontecer é que a pessoa vai sentir-se com pouca energia, com menos vitalidade e começa a perceber os benefícios que o jejum lhe trouxe.

Texto editado por Bárbara Wong

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