Opinião

Memória histórica e nova iconoclastia

Há quem diga que Portugal realizou a sua descolonização política em 1975, mas tem ainda de fazer a sua descolonização mental e cultural.

A emoção causada pela morte de George Floyd nos Estados Unidos tem suscitado protestos de toda a espécie, sendo os actos de vandalismo perpetrados contra várias estátuas nos EUA, Reino Unido e pelo mundo fora uma das expressões mais notórias deste sobressalto. Esses actos exprimem o mal-estar e a repulsa face aos vestígios culturais de épocas em que o supremacismo branco, o imperialismo ou o racismo científico eram glorificados ou gozavam de ampla aceitação por parte das elites e de outros sectores sociais (o que não significa que fossem “consensuais”).

No caso dos EUA, esquecemo-nos demasiadas vezes que a derrota da Confederação em 1865, e a aprovação de legislação abolicionista, esteve longe de significar o virar de uma página na história de opressão e discriminação vivida pelos afro-americanos. Tal como o fim da escravatura em África foi seguido de códigos de trabalho compulsivo que condenaram milhões de africanos a novas formas de servidão, nos EUA o período da Reconstrução foi também a era das “leis Jim Crow”, um conjunto de cruéis disposições segregacionistas promulgadas a nível estadual e local. Essas leis só seriam desmanteladas na década de 1960, face a uma feroz resistência de políticos e cidadãos racistas, tendo alienado boa parte do “Deep South” do Partido Democrata (uma transferência de votos iniciada com a eleição de Nixon em 1968 e consolidada por Reagan na década de 1980). Apesar de beneficiarem de iniciativas como os programas de “acção afirmativa”, os afro-americanos continuaram a ser os enjeitados do Sonho Americano. As mudanças normativas aprovadas por Lyndon B. Johnson não foram, infelizmente, seguidas por um trabalho mais amplo de questionamento de preconceitos culturais e de revisão histórica. Até muito recentemente, os estereótipos acerca dos afro-americanos povoavam a cultura popular e a indústria de entretenimento norte-americana, como eloquentemente demonstrou o filme de Raoul Peck, I Am Not Your Negro (2016), sendo esses estereótipos uma das bases do racismo estrutural que teima em prevalecer nos EUA. Certamente que as duas eleições de Obama (2008 e 2012) demonstraram que uma parte da sociedade americana não participa dessa mentalidade racista. Mas uma outra parte está profundamente imbuída dela e terá inclusivamente sido galvanizada pela vitória de Trump em 2016 e pelos gestos de complacência que este evidenciou em relação a eventos como a manifestação de extrema-direita em Charlottesville, em Agosto de 2017, juntando neo-confederados, neo-nazis e membros do Ku Klux Klan.

É portanto compreensível que com os ânimos exaltados nos EUA e noutros países onde as memórias e os legados do racismo e do imperialismo são fortes, alguns activistas tenham aproveitado a oportunidade para visar as estátuas de paladinos desses fenómenos. Pessoalmente, não acredito que a “militância” seja o melhor ponto de partida para interpretarmos o passado. A história exige alguma medida de distanciamento e ponderação. Mas, mais importante ainda, num contexto democrático e de complexidade cultural, ela terá de ser discutida de uma forma plural, permitindo que diferentes pontos de vista estejam em confronto. Nesse sentido, os últimos dias têm-me trazido à memória um artigo publicado em 2015 pelo historiador David Priestland, um especialista na história do comunismo, a propósito da controvérsia em torno das estátuas de Cecil Rhodes em Oxford e na Cidade do Cabo. Em vez de destruí-las, porque não criar, à semelhança do que fizeram a Índia e vários países da antiga Cortina de Ferro, parques temáticos de “heróis caídos”, onde os visitantes pudessem aprender alguma coisa sobre essas figuras e o que elas representaram (Guardian, 13 de Abril de 2015).

Esta parece-me ser uma atitude mais cívica e pedagógica, mas não tenhamos ilusões. Para persuadirmos aqueles que se sentem vítimas do racismo e da discriminação, é fundamental que nos confrontemos com os episódios mais violentos do nosso passado. Há quem diga que Portugal realizou a sua descolonização política em 1975, mas tem ainda de fazer a sua descolonização mental e cultural. Na minha bolha académica e social, muitas vezes nem me dou conta de quão socialmente difundidas estão certas imagens ingénuas acerca da nossa expansão, ou de quão desconhecidas são ainda as realidades mais violentas do nosso colonialismo moderno. Há uns anos atrás, foi quase com um sentimento de vexame que percorri com vários alunos, alguns de origem africana, as salas das “campanhas de pacificação” do Museu Militar, em Santa Apolónia. Figuras corajosas, mas cruéis, como Mouzinho de Albuquerque, tinham direito a legendas laudatórias, ao passo que os povos e sociedades que entre c. 1850 e c. 1920 ofereceram uma resistência continuada às depredações coloniais portuguesas eram totalmente ignorados. Talvez seja muito esperar que da instituição militar possa surgir um movimento de actualização histórica pós-imperial (afinal de contas, Mouzinho ainda é o patrono de um Regimento de Lanceiros). Mas se um dia a Câmara Municipal de Lisboa tirar da gaveta a ideia do “Museu das Descobertas”, seria importante que estas facetas da nossa experiência colonial não fossem votadas ao esquecimento.

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