Dia 66: por que se culpam as pessoas pelas suas próprias tragédias?

Uma mãe/avó e uma filha/mãe falam de educação. De birras e mal-entendidos, de raivas e perplexidades, mas também dos momentos bons. Para avós e mães, e não só.

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@DESIGNER.SANDRAF

Mãe,

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Voltei a ouvir notícias sobre o caso da Maddie McCann, a propósito do novo suspeito do seu desaparecimento. Fico sempre com um nó na garganta só de imaginar a dor infinita pela qual estes pais passam, pela qual estes pais têm passado a cada instante destes últimos 13 anos. Só desejo que encontrem a resposta que procuram, por muito dolorosa que seja, porque não saber o que aconteceu a um filho é o pior pesadelo de qualquer mãe ou pai. A dor da criança, essa, é insuportável de imaginar.

Mas o que lhe venho pedir ajuda para entender são alguns dos comentários nas redes sociais a estas notícias, a rapidez com que regressa um clima de acusações aos pais, a uma guerra entre polícias, como se fossem equipas de um campeonato de futebol. Se as novas informações tornam menos veemente as acusações de que os pais estiveram envolvidos na morte da criança, e que ainda ganharam com isso, alguns mantém o dedo apontado, dizendo basicamente que têm o que merecem, porque deixaram os filhos sozinhos no apartamento do resort.

É de uma crueldade terrível, porque é óbvio que ninguém se arrepende mais dessa decisão, que lhes parecia inocente na altura, do que os próprios pais, e como é que perder uma filha de três anos pode ser o castigo que mereciam mesmo por uma opção que podemos considerar irresponsável? Porque é que temos esta necessidade de culpar as pessoas envolvidas em tragédias, nesta e em todas as outras? Deixa-me doente.

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Ana,

Sabes, orgulho-me — é mesmo verdade, orgulho-me — de na altura do desaparecimento de Madeleine McCann em que os pais eram trucidados pelos media portugueses, ter publicado na primeira página do jornal Destak, de que era diretora, um editorial em que perguntava isso mesmo: dizia que não fazia ideia do que revelaria a investigação, mas o que me impressionava era haver tanta gente que parecia preferir que os culpados fossem os pais. Perguntava-me porque gostavam mais de se imaginar a viver num mundo onde os pais estão envolvidos na morte dos filhos, por oposição a um mundo, felizmente mais real, onde a imensa maioria dos pais dá a vida pelos filhos, e os que não o fazem são trágicas exceções.

Foi também para o Destak, e em busca de uma resposta para esta questão, que entrevistei Isabel Correia, psicóloga social do Iscte, que me falou da Crença no Mundo Justo, um fenómeno que explica tanta coisa. Fui repescá-la, e envio-ta nesta carta, porque tenho a certeza de que continua tão atual hoje, como então, e a única forma de combater os seus efeitos perversos é tomar consciência da sua existência. Talvez assim pensem duas vezes antes de crucificarem tão cruelmente uma família já tão atormentada.

Depois dá-me a tua opinião?


[Transcrição da entrevista à psicóloga social Isabel Correia, publicada no jornal Destak, em 2007]

O que é a Crença no Mundo Justo?
A crença no mundo justo (CMJ) é concebida como uma motivação que nos leva a acreditar que «cada um tem o que merece: as coisas boas acontecem a pessoas boas, as coisas más acontecem a pessoas más». Esta crença leva-nos a avaliar as características ou as acções das pessoas de acordo com os seus resultados: se lhe acontece algo mau é porque são maus, se lhes acontece algo bom é porque são bons ou fizeram algo bem feito. Assim, o mundo é sempre justo. Quando surge uma situação claramente injusta ficamos perturbados, perturbação só resolvida quando conseguimos ou resolver a injustiça objectivamente ou cognitivamente (reconceptualizando a situação de modo a que seja justa).

Que tipo de pessoas adopta este pensamento com mais facilidade?
De acordo com o autor da teoria (Melvin Lerner), a crença no mundo justo é uma ilusão fundamental para que mantenhamos a nossa percepção de invulnerabilidade face às ameaças da vida. A nós não nos acontecerá porque somos bons. Sabemos que as pessoas com maior CMJ têm níveis de bem-estar psicológico mais elevados. No entanto, alguns estudos têm mostrado que as pessoas mais religiosas (católicas e protestantes) e de direita revelam-na em maior grau.

Este volte-face que tornou de repente os pais de Maddie McCann de “bestiais a bestas”, pode estar ligada a esta crença? Sentimo-nos melhor quando afinal não há lobos maus por aí à solta, mas uma ou outra pessoa interesseira, má etc., que se quer fazer passar por vítima? 
Este volte-face é previsível de acordo com a teoria. De facto, na presença de uma grande perturbação pelo elevado sofrimento e prolongado de vítimas inocentes (os pais e a criança), com o foco nos pais (às tantas já nem se pensava na criança, pensava-se só no que os pais estariam a passar) e uma ausência de outros culpados e sem sabermos sequer se a criança ainda está viva e poderá estar a sofrer, podemos ser tentados a eliminar esta perturbação retirando o estatuto de vítimas aos pais (repare na reinterpretação da falta de choro da mãe de Maddie, se chorasse poderia parecer histérica, como não chorou é porque é fria) tornando os pais em agressores. Assim, os pais já não sofrem, dado que são maus, a criança já não sofre porque está morta.

O mundo é menos injusto: a criança morreu e livrou-se de maus pais; os pais vão presos e vão ficar sem os outros filhos. Às pessoas más acontecem coisas más, o mundo é justo. E isto é menos perturbador do que pensar que a criança (numa rede pedófila) e os pais poderão estar a sofrer quotidianamente desde o dia 3 de Maio. Se se vier a mostrar que esta tese está errada, este será um caso clássico de vitimização secundária destes pais.

Sublinho «inocente» e «prolongado» porque num dos meus estudos mostrei experimentalmente que é nas condições em que as vítimas são inocentes e o sofrimento é mais prolongado que os observadores, especialmente os com mais CMJ, recorrem à vitimização secundária — desvalorização ou culpabilização das vítimas.

De que forma é que, tomando consciência de que a nossa análise do mundo está contaminada pela CMJ, nos podemos “tratar”? 
Podemos ter a noção de que muitas vezes a culpabilização das vítimas serve apenas para restaurarmos a nossa crença no mundo justo, e que ao tentarmos aliviar o sofrimento que a constatação das injustiças nos provoca, muitas vezes só estamos a ser mais injustos.

Temos de saber que a luta pela justiça que tanto nos perturba tem de passar por resolvê-la melhorando a situação objectiva daqueles que a sofrem, e nunca diminuindo a nossa perturbação reconceptualizando a situação de modo a torná-la justa. Temos de ter muito cuidado com esta crença que nos ajuda a viver com mais percepção de invulnerabilidade e confiança no futuro, mas que pode levar a que sejamos injustos na avaliação da situação de outros.


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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