“Como é que estás?”: a resposta de um director da Goldman Sachs sobre discriminação racial

No e-mail são mencionadas algumas vítimas de racismo e violência policial nos EUA. Também Frederick Baba foi uma dessas vítimas, e partilha, na primeira pessoa, um episódio de discriminação vivido em Chicago.

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Protesto em St. Louis, Missouri Reuters/LAWRENCE BRYANT

Frederick Baba, director executivo da Goldman Sachs, escreveu um longo e-mail numa “tentativa” de resposta ao “como é que estás?” dos colegas, depois da morte de George Floyd e dos protestos que se alastraram pelos EUA e, um pouco, por todo o mundo.

Na mensagem electrónica, a que a Reuters teve acesso, pode ler-se que os “os últimos meses foram desmotivantes”, sendo o sentimento partilhado com “família, amigos e colegas de trabalho”. Considerando a sua experiência enquanto pessoa de cor como “só mais uma”, Baba não assume “falar por todas as pessoas negras (ou até por todas as pessoas negras na Goldman Sachs)”.

Para o director executivo da Goldman Sachs, “ser negro não foi mais do que pedagógico”: aprendeu História, o porquê de as pessoas viverem onde vivem, o porquê de pessoas com poder não gostarem de negros, e que as coisas más são mais prováveis de acontecer a pessoas de cor simplesmente por serem de cor. Percebeu que alguns pais de amigos não o queriam nas suas casas, quando era mais novo, e que alguns o iriam culpar caso os filhos infringissem a lei. Aprendeu a — ao contrário do que é suposto — provar ser inocente depois de ser acusado de culpado; a provar ser inteligente, não ser uma ameaça e ser humano. 

Ao longo do e-mail, Baba dá diversos exemplos de racismo e violência policial que fizeram parte da sua vida, desde que chegou aos EUA, com a família, há 30 anos. No fim-de-semana passado, Baba percebeu que a primeira memória que tem é do caso de Rodney King, um construtor civil negro, que foi violentamente espancado por quatro polícias, quando o apanharam num sinal depois de uma perseguição a alta velocidade, em 1991. Lembra-se de ver o vídeo da agressão, dos protestos a que deu origem, da icónica frase “Podemos dar-nos todos bem?” associada ao caso. Os polícias foram absolvidos, em 1992, o que desencadeou novos protestos, ao longo de seis dias, que fizeram 63 mortes, em Los Angeles.

Baba também chama a atenção para um caso que tinha acontecido apenas duas semanas antes da agressão a Rodney King. Latasha Harlins, jovem afro-americana de 15 anos, foi morta por Soon Ja Du, dona de uma loja de conveniência, em Los Angeles. Du acusou a jovem de roubar uma garrafa de sumo de laranja de 1,79 dólares (1,58 euros) e agarrou-lhe o braço, ao que Latasha lhe bateu. A jovem foi morta a tiro depois de tentar sair da loja. Depois de encontrar dinheiro na mão de Latasha, a polícia concluiu que ela tinha intenções de pagar. Du foi declarada culpada de homicídio pelo júri, que recomendou a pena máxima (16 anos). A recomendação foi ignorada pelo juiz que considerou o comportamento de Du incorrecto mas aceitável. A sentença foi de cinco anos, 400 horas de serviço comunitário e uma multa de 500 dólares (441 euros). 

Outro caso mencionado por Baba é o de Timothy Thomas, um jovem negro de 19 anos que, depois de ser perseguido por nove polícias por 14 ofensas menores e não violentas, foi morto a tiro por um polícia, estando desarmado, em Cincinnati, em 2001. A morte de Thomas levou a cinco dias de protestos.

Uma década depois, Baba estava a viver em Chicago e foi abordado por dois polícias na rua, pois encaixava na descrição de um suspeito de um assalto a uma residência. A descrição era “homem negro com calções e T-shirt”, sem cores das peças de roupa mencionadas. No que considera um “lapso de julgamento” por estar habituado a lidar com pessoas que o respeitavam e conheciam o seu status social, Baba tentou explicar o absurdo da situação ao polícias, que não acreditavam que ele vinha de um jogo de dodgeball. A resposta dos agentes foi imobilizá-lo contra o carro. Vivendo o que chama de “pesadelo dos últimos dez anos”, Baba percebeu que os agentes estavam assustados e tentou acalmá-los. Já tinha na cabeça um plano, caso desse para o torto, e só iria recorrer à violência em última opção. Apenas quando outro agente disse que ele não era o suspeito, é que os polícias o deixaram ir. Quando chegou a casa, Baba chorou pela primeira vez em anos. Apresentou queixa. Cerca de dois anos depois foi informado que tinha sido arquivada pois segundo descobertas da polícia, “os eventos ocorreram de forma diferente da relatada”.

Em Junho de 2014, mudou-se para Nova Iorque para trabalhar na Goldman Sachs. Na sua mensagem, menciona ainda outras pessoas que foram vítimas de agentes da polícia: Trayvon Martin, morto aos 17 anos; Eric Garner, 43 anos; Michael Brown, 18 anos; Ahmaud Arbery, 25 anos; Breonna Taylor, 26 anos, e George Floyd, 47 anos. 

No final, Baba agradece a quem o leu até ao final, por mais pesada que fosse a sua mensagem, disponibilizando-se para falar sobre o assunto com quem quisesse. Apela ao apoio de membros da empresa que sejam jovens negros e que podem não sentir a igualdade que ele sente. Sugere que quem quer ajudar, o pode fazer ao doar dinheiro a organizações de advogados ou a investir tempo a conhecer a causa, para além de apoiar negócios de minorias.

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