Opinião

A tragédia brasileira

Canto com Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.” E com o poeta Thiago de Mello, que escreveu após o golpe militar de 1964: “Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar.” Tenho fé que chegará o tempo das manifs, da pressão popular, porventura exitosa, para que Bolsonaro se afaste e haja novas eleições. Para que se possa virar esta página negra da história brasileira.

O vídeo da reunião ministerial de 22 de abril passado, presidida por Bolsonaro, repercutiu em todo o mundo. Depois de assistir na televisão a íntegra do vídeo, os sentimentos que surgem são de horror, revolta e uma certa vergonha. As imagens valem por si e espelham a degradação política a que se chegou no Brasil. O governo de Bolsonaro é uma tragédia nacional.

Em 22 de abril, os mortos oficiais pela covid-19 somavam por volta de três mil. No dia 24 de maio são 23 mil. Chegarão seguramente a mais de 50 mil em poucas semanas. O Brasil é o novo epicentro da pandemia, o segundo em número de infectados. E o vírus não é democrático, atinge os pobres e miseráveis com mais força, face à precariedade do sistema de saúde pública.

Na reunião, pouco ou nada se tratou do combate à pandemia, com exceção do tímido ministro da Saúde, que já se demitiu há duas semanas. Escapou do manicómio e fez bem. Os temas do Presidente eram: “dar armas para a população”, reclamar da falta de solidariedade dos ministros para defendê-lo e à sua família, xingar com os piores nomes os governadores e prefeitos que decretaram o isolamento social, vociferar contra os poderes legislativo e judiciário, afirmar o seu poder de interferir em todos os ministérios e órgãos de Estado, na base do “quem manda aqui sou eu”. A proposta de seu ministro do Meio Ambiente é “passar com uma boiada em cima da legislação e regras ambientais, para licenciar a toque de caixa os projetos agro-pecuários”. O ministro das Finanças, ultra-liberal e representante do chamado “mercado”, quer privatizar o Banco do Brasil, uma das jóias da coroa, apetecível para os grandes grupos financeiros internacionais. Já o extremista ministro da Educação quer “prender os vagabundos do Supremo Tribunal Federal”. E por aí seguiu a “pauta” da reunião.

O Brasil está numa espiral trágica, a nível político, econômico e social. A pandemia põe a nu a principal característica do país: a desigualdade. Sobram vagas nos hospitais privados enquanto os públicos rebentam pela costura. A fome assola as favelas e bairros pobres, onde o isolamento é quase impossível. Já os ricos e a classe média alta podem fazer confinamento e têm-no feito.

Bolsonaro, que é produto e, ao mesmo tempo, saudoso da ditadura militar, está cercado e “blindado” por generais em sete ministérios e em outras dezenas de altos postos governamentais. Ele sonha com um governo autoritário, sem um Poder Judiciário que incomode, sem investigações a si e à sua família e com um Parlamento dócil, por convicção ou por corrupção.

O regime democrático no Brasil está abaixo de padrões mínimos. Não há como compará-lo aos países europeus. Não basta uma Constituição democrática para fazer do país uma democracia. O Poder Executivo governa através de medidas provisórias. O Poder Legislativo está corroído por processos e denúncias de corrupção. No Congresso Nacional pontificam as bancadas do “boi, bala e bíblia”, além do chamado “centrão”, os oportunistas que se vendem ao governo a troco de cargos e outras prebendas para apoiar as medidas governamentais e protegê-lo num eventual processo de impeachment. O Poder Judiciário tem privilégios funcionais e salariais verdadeiramente obscenos, foi erigido em partícipe decisivo no jogo político e também dá espetáculos pouco edificantes nas sessões públicas de seu colegiado. E, por fim, existe de facto um 4.º Poder nesta República tão torta, o Militar, cada vez mais ousado na sua apetência de cargos civis e no desejo de mandar nos destinos da Nação, até com ameaças de golpes e de desobediência às decisões judiciais.

Canto com Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.” E com o poeta Thiago de Mello, que escreveu após o golpe militar de 1964: “Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar.”

A pandemia impede o povo de manifestar sua oposição a este governo desastroso. Só o faz nos reiterados panelaços, há várias semanas, por todo o Brasil. Mas tenho fé que chegará o tempo das manifs, da pressão popular, porventura exitosa, para que Bolsonaro se afaste e haja novas eleições. Para que se possa virar esta página negra da história brasileira.

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