Ministro da Saúde brasileiro pede demissão, após menos de um mês no cargo - sem explicar porquê

Nelson Teich incompatibilizou-se com Bolsonaro nos últimos dias na gestão da pandemia de covid-19. Um general vai assumir cargo interinamente. Ministro anterior pede que se reze pelo Brasil.

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Nelson Teich esteve no Governo menos de um mês JOEDSON ALVES/EPA

Foi o segundo ministro da Saúde a sair durante a pandemia de covid-19 no Brasil e, em conferência de imprensa, tão aguardada para se saberem as razões, Nelson Teich limitou-se a dizer que chegou a hora de abandonar a pasta governativa e que aceitou o cargo pensando que “podia ajudar o Brasil e as pessoas”. 

“A vida é feita de escolhas e eu hoje escolhi sair. Digo a vocês que dei o melhor de mim enquanto estive aqui nesse período”, disse Teich, agradecendo a Bolsonaro tê-lo nomeado, sem apresentar razões para a demissão. “Não aceitei o convite pelo cargo, mas por achar que podia ajudar o Brasil e as pessoas”. 

A demissão foi divulgada horas antes da conferência de imprensa pelo próprio Ministério da Saúde, numa nota enviada à imprensa brasileira e sem ser apontada qualquer razão. Na manhã desta sexta-feira, Teich tinha estado reunido com o Presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto em Brasília. 

De acordo com a CNN Brasil, o favorito para assumir o Ministério da Saúde é o actual secretário-executivo, Eduardo Pazuello, um general que conta com o apoio da ala militar do executivo e que assumirá a pasta interinamente.

Mas a imprensa brasileira especula sobre outro nome para substituir Teich: Nise Yamaguchi, médica que defende a utilização generalizada da hidroxicloroquina para tratar a covid-19,  tal como Jair Bolsonaro, apesar de faltarem provas de que seja eficaz mas abundarem casos que demonstram que tem efeitos secundários que podem ser fatais. Horas depois da demissão do ministro, Bolsonaro encontrou-se com Yamaguchi no Palácio do Planalto, diz a CNN Brasil. 

Nos últimos dias, a relação entre Bolsonaro e o seu ministro da Saúde deu sinais de degradação. Em causa estavam precisamente as reservas de Teich em relação à utilização da hidroxicloroquina, um medicamento usado para tratar a malária e algumas doenças auto-imunes, bem como a insistência do Presidente na abertura da economia e no desconfinamento. 

Segundo a imprensa brasileira, Teich também discordava do Presidente em relação à flexibilização imediata das medidas de distanciamento social. No início da semana, o ministro foi surpreendido com uma lista de estabelecimentos e actividades comerciais que o Governo queria ver reabertos, incluindo ginásios e cabeleireiros, que Bolsonaro pretendia classificar como essenciais.

Há poucos dias, Bolsonaro disse que todos os ministros do Governo deveriam estar “afinados” com a sua mensagem, declarações que foram vistas como um recado para o titular da Saúde. Nas redes sociais também se multiplicaram os apelos à saída de Teich entre os apoiantes mais radicais de Bolsonaro.

Numa das últimas conferências de imprensa que concedeu, Teich defendeu a imposição do confinamento obrigatório nas cidades mais afectadas pelo coronavírus, que entrou em vigor no início do mês contra a opinião de Bolsonaro que defende a reabertura da economia. 

Não existe ser contra ou a favor, é fazer o que é certo. Tem lugar em que a gente vai recomendar lockdown e lugar em que a gente vai permitir já alguma coisa, afirmou o Presidente.

Nelson Teich, médico oncologista e empresário, assumiu a pasta a 17 de Abril, sucedendo a Luiz Henrique Mandetta, cuja saída do Governo se deveu também a discordâncias com Bolsonaro em relação à gestão da pandemia da covid-19.

Através do Twitter, Mandetta, que desde que saiu do Governo tem criticado abertamente a gestão da crise no Brasil, deixou a seguinte mensagem, pouco depois do anúncio da demissão de Teich: Oremos. Força SUS [Sistema Único de Saúde]. Ciência. Paciência. Fé!