Papel das superfícies na transmissão do novo coronavírus ainda é “desconhecido”, diz OMS

A Organização Mundial da Saúde afirma que o papel das superfícies contaminadas na transmissão do novo coronavírus ainda é “desconhecido”, por isso não há certezas se esta é uma fonte de contaminação. Sobre este relatório a directora-geral da Saúde diz que “não é conclusivo”, nem é um “assunto encerrado”.

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OMS recomenda rotinas de desinfecção e limpeza para mitigar o risco de transmissão do SARS-CoV-2 ADRIANO MIRANDA

Ainda que lavar as mãos e evitar tocar no rosto devam ser consideradas as principais abordagens para impedir a propagação do novo coronavírus, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realça que, quando possíveis, a limpeza e desinfecção dos espaços devem continuar a ser realizadas de forma frequente, isto porque o papel das superfícies e objectos na cadeia de transmissão da covid-19 é “actualmente desconhecido”.

Num documento sobre a limpeza e desinfecção das superfícies no quadro do combate à pandemia publicado a 14 de Maio, a OMS afirma que, embora as superfícies contaminadas não tenham sido ainda “conclusivamente ligadas” à transmissão do novo coronavírus, as “demonstrações de contaminação de superfícies em ambientes de prestação de cuidados de saúde” e as “experiências com contaminação de superfícies e consequente transmissão de infecções noutros coronavírus” levam a autoridade mundial da Saúde a recomendar o desenvolvimento de rotinas de desinfecção e limpeza para mitigar o potencial de transmissão do SARS-CoV-2.

Esta segunda-feira, em conferência de imprensa, a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, disse que este relatório da OMS não é conclusivo. “Não é um assunto encerrado, tanto que a OMS continua a recomendar como essencial a desinfecção e limpezas dessas superfícies. Na dúvida, e porque há outros vírus cuja história nós conhecemos melhor e que se transmitem por essa via, é melhor continuarmos a ter preocupações em relação aos objectos e às superfícies, a desinfectá-los, a descontaminá-los, limpá-los e a tentar não levar as mãos entre esse objectos e superfícies para o nosso trato respiratório”, afirmou Graça Freitas.

A responsável referiu ainda que o documento é apenas uma “indicação” e que apenas é referido que é mais difícil o contágio a partir das superfícies, como as maçanetas, para as pessoas, e garantiu que a DGS vai continuar a acompanhar esses estudos. “Se assim for, obviamente é uma boa notícia, porque permitirá o nosso retorno à normalidade mais à vontade. Mas creio que ainda é um pouco cedo.”

E “dúvida” aqui é uma palavra importante, porque, tal como realça a OMS no documento, o papel dos fómites na cadeia de transmissão da covid-19 é “actualmente desconhecido”, ou seja, a autoridade não tem provas de que o vírus se transmita desta forma, mas também não tem provas contra. Também desconhecida é a “necessidade de práticas de desinfecção para mitigar a transmissão do vírus fora dos ambientes de prestação de cuidados de saúde”, mas a OMS diz que estes cuidados têm sido “amplamente adaptados nas orientações aplicadas em ambientes não hospitalares”, isto de acordo com os princípios de prevenção e controlo de infecção projectados para mitigar a propagação de agentes patogénicos.

A OMS afirma que, à semelhança de outros coronavírus, também o SARS-CoV-2 é “susceptível a desinfectantes”, ao contrário do que acontece com outras patologias como o rotavírus (principal causador de gastroenterite em crianças) ou com o vírus da poliomielite, doença infecciosa responsável pela paralisia infantil.

Mas se há ainda muitas incertezas quanto à transmissão do novo coronavírus, também há factores que já são dados como certos: o vírus que causa a covid-19 é transmitido principalmente por gotículas e fómites [objectos ou materiais que podem alojar um agente infeccioso e permitir a sua transmissão] durante o contacto próximo e desprotegido entre um transmissor [infectado] e um receptor”, como realça a OMS no documento. No entanto, verifica-se também “uma possível transmissão aérea em locais onde são realizados determinados procedimentos de geração de aerossóis [pequenas partículas que permanecem suspensas no ar e que se podem dispersar por longas distâncias]”.

Desinfecção de objectos fixos

Em ambientes de assistência médica, como centros de saúde e hospitais, o documento dita que existem superfícies e objectos fixos — móveis, mesas, cadeiras, paredes, interruptores, computadores, mas também aparelhos de medicação da pressão arterial, cadeiras de rodas ou incubadoras — que devem ser frequentemente limpas com água e detergente, passo a que se deve seguir a aplicação de um desinfectante. E fora destes espaços a OMS diz que a mesma rotina deve ser praticada em móveis e outros objectos fixos, como balcões, varões de escadas, além do chão e das paredes.

“Os desinfectantes devem ser aplicados em superfícies de muito contacto para reduzir o contágio, principalmente em ambientes comunitários onde o risco de contaminação é desconhecido (ginásios, escritórios, restaurantes, ou no sector hoteleiro, por exemplo), bem como em residências onde são estão alojadas pessoas com suspeita ou confirmação da doença”, lê-se no guia sobre desinfecção.

No mesmo documento, a autoridade para a saúde pública diz que pulverizar ou fumigar desinfectante nas ruas, como alguns países estão a fazer para combater a pandemia de covid-19, não elimina o vírus e cria riscos sanitários. “A pulverização ou fumigação de espaços exteriores, como ruas ou mercados, não é recomendada para destruir o novo coronavírus ou outros agentes patogénicos, porque é inactivada pela sujidade”, explica a OMS, recomendando que, se for preciso aplicar desinfectantes, convém fazê-lo com um pano ou um toalhete embebido de desinfectante. “Por outro lado, as ruas e os passeios não são considerados reservatórios de infecção do covid-19”, sustenta a organização no mesmo documento.

A OMS alerta ainda que esta medida “mesmo feita no exterior, pode ser perigosa para a saúde humana”, e recomenda que, “em caso algum devem ser pulverizadas pessoas”, porque “não reduz a capacidade de um infectado propagar o vírus por gotículas ou contacto”. Pulverizar cloro ou outros produtos químicos tóxicos sobre as pessoas pode causar irritações dos olhos e da pela, broncoespasmos e problemas gastrointestinais, alerta-se ainda.

A meio de Março, também a Direcção-Geral da Saúde emitiu uma série de recomendações para a limpeza de espaços de atendimento ao público e outra para hotéis e alojamentos turísticos que incluem a “desinfecção frequente dos equipamentos críticos”.