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Qual o papel das crianças na transmissão do novo coronavírus?

Vários estudos têm vindo a revelar conclusões diferentes no que diz respeito à capacidade das crianças de transmitir o novo coronavírus. Uma pediatra infecciologista explica o que se sabe até agora. “O papel das crianças na transmissão do vírus está entre as questões que requerem atenção urgente”, nota o ECDC ao PÚBLICO.

Afinal, devem ou não as crianças estar com os avós? Podem ou não abraçá-los? As crianças espalham o novo coronavírus da mesma forma do que os adultos? Devem as escolas reabrir? O debate sobre quão contagiosas são as crianças e quão afectados estão a ser os mais novos pela pandemia de covid-19 vai ganhando nova proporção a cada dia que passa e a comunidade científica ainda não conseguiu chegar a um consenso.

“Aquilo que hoje se sabe é que há muito menos crianças doentes do que adultos”, começa por explicar Maria João Brito, pediatra infecciologista do Hospital Dona Estefânia, que nota que quando surgiu o primeiro vírus SARS (síndrome respiratória aguda grave, em 2002) também se “verificou que ele afectava muito pouco a idade pediátrica”, tal como aconteceu com o vírus que causa a síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS).

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Maria João Brito, médica pediatra, responsável pela Unidade de Infecciologia do Hospital Pediátrico Dona Estefânia, em Lisboa MIGUEL MANSO

Maria João Brito explica que “o vírus para se ligar à célula respiratória tem de ter um receptor” e que as crianças têm “esses receptores em menor número do que os adultos”. “À medida que a idade avança, nós vamos ter mais receptores para o vírus, portanto, temos maior capacidade de nos infectarmos”, destaca.

Por outro lado, “as crianças têm uma imunidade mais forte, a chamada imunidade inata, que vai desaparecendo ao longo da vida e que é uma imunidade que também é mais capaz de combater os vírus”. Uma outra explicação poderá estar relacionada com o facto de “as crianças fazerem muitas infecções virais”: “elas não contactaram com outros vírus que circulam habitualmente e, portanto, talvez o facto de haver outros vírus a competir possa fazer com que as crianças se infectem menos”, conclui a especialista.

Na Suíça, as crianças já podem abraçar os avós

A 29 de Abril, as autoridades suíças afirmaram que as crianças com menos de dez anos já podiam abraçar os avós. À data, o epidemiologista e responsável pelo departamento de doenças infecciosas do Ministério da Saúde suíço, Daniel Koch, garantiu que os especialistas consultados tinham concluído que as crianças que não apresentam sintomas da covid-19 não representam um risco para os avós. “As crianças não ficam infectadas e não transmitem o vírus. Elas não possuem os receptores para apanhar a doença”, afirmou Koch, citado pela BBC.

No Reino Unido, na semana passada, o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, destacou que é importante que “as pessoas vulneráveis continuem a ser protegidas”, cita a BBC.

Já em Portugal, a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, esclareceu esta quarta-feira que o convívio entre avós e netos depende do “tipo de avós que estamos a falar”. “Há avós jovens, sem factores de risco, e aí a convivência é no âmbito do agregado familiar e não envolve nenhum risco acrescido. Se os avós tiverem uma idade avançada, nomeadamente 65 ou mais anos, e patologia associada, aqui, sim, tem de haver precaução”, referiu.

O que dizem os estudos?

Um estudo realizado na Holanda, que envolveu um total de 54 famílias e 239 participantes (123 adultos e 116 crianças entre um e 16 anos), concluiu que “as crianças desempenham um papel pequeno na propagação do novo coronavírus” e que este vírus “é maioritariamente espalhado entre adultos” e dos adultos para as crianças, sendo que em nenhuma das famílias analisadas a criança foi a primeira portadora do vírus.

Outro estudo de caso é o de um menino britânico (residente em França), de nove anos, que tinha regressado recentemente dos Alpes Franceses, onde foi infectado pelo novo coronavírus. A criança, que tinha apenas sintomas ligeiros, frequentou três escolas enquanto estava doente, não tendo transmitido o novo coronavírus a nenhuma das 112 pessoas com quem esteve em contacto.

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), questionado pelo PÚBLICO, refere que “à semelhança do SARS e MERS, parece que as infecções por covid-19 são observadas com menos frequência e apresentam sintomas mais leves nas crianças do que nos adultos”, apesar de terem sido também relatados casos de “doença grave” e “poucos casos pediátricos fatais na Europa e nas Américas”. Esta quarta-feira, as autoridades da Suécia, que optaram por uma abordagem à pandemia menos restritiva, revelaram que estão a investigar se a morte de uma criança com menos de dez anos, que estava internada numa unidade de cuidados intensivos, foi causada ou não pela covid-19segundo o site The Local.

Em resposta por e-mail, o porta-voz Giovanni Mancarella admite que existe ainda alguma incerteza”, mas nota que “a transmissão de criança para adulto não parece ser tão comum quanto a transmissão entre adultos”, dando como exemplo o caso da criança infectada que não contagiou ninguém, mencionado acima. O centro europeu refere ainda outras investigações, como dois estudos transversais, realizados em Vo’, uma cidade em Itália, que incluíram mais de dois mil participantes cada e revelaram que “nenhuma das 234 crianças [com menos de dez anos] testadas estava infectada”, ou uma outra análise realizada em Estocolmo, na Suécia, que contou com a participação de 707 pessoas (incluindo 147 crianças com menos de 15 anos), que mostrou que menos de 3% das crianças testaram positivo para a covid-19.

De acordo com dados divulgados pelos Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, apenas 1,7% dos quase 150 mil casos confirmados de covid-19 analisados foram registados em pessoas com menos de 18 anos. Em países como a Coreia do Sul, Espanha e Itália, a percentagem de casos confirmados em crianças é de menos de 2%, destaca o Business Insider. Na Islândia, onde 6% da população foi testada à covid-19, nenhuma das 848 crianças com menos de dez anos testadas deram positivo, de acordo com um estudo publicado na revista The New England Journal of Medicine.

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A pandemia de covid-19 na Índia SANJEEV GUPTA/EPA

Em Portugal, segundo o boletim epidemiológico divulgado esta quinta-feira pela Direcção-Geral da Saúde (DGS), há, até ao momento, 454 casos confirmados de covid-19 em crianças entre os zero e os nove anos (o que corresponde a 1,7% do total de casos confirmados) e 804 pessoas infectadas entre os dez e os 19 anos (o que corresponde a uma percentagem de 3%).

A reabertura das escolas

A Don’t Forget the Bubbles, uma organização da área da pediatria, realizou, por sua vez, uma revisão literária de 78 estudos, em parceria com o Royal College of Paediatrics and Child Health do Reino Unido, sobre a transmissão do novo coronavírus por crianças. “O papel das crianças na transmissão é pouco claro, mas parece provável que não tenham um papel significativo”, concluíram os autores da revisão, que acrescentam que “a comissão conjunta da China com a Organização Mundial da Saúde [OMS] não se recorda de episódios durante a monitorização de contactos em que a transmissão tenha ocorrido de uma criança para um adulto”.

A tese de que as crianças não transmitem o novo coronavírus serviu para justificar, em parte, a reabertura das escolas suíças, que está marcada para a próxima semana. Vários outros países, como a Dinamarca, Israel, Holanda, Áustria, Alemanha, Itália, Noruega e Eslovénia têm também vindo a começar a reabrir ou a planear a reabertura dos estabelecimentos de ensino. Portugal, ao invés, vai manter as escolas primárias fechadas pelo menos até ao final deste ano lectivo, enquanto as creches reabrirão a 18 de Maio e o pré-escolar a 1 de Junho.

Contudo, há também o reverso da moeda. O virologista alemão Christian Drosten liderou um estudo que concluiu que “as cargas virais nos mais jovens não diferem significativamente das cargas virais dos adultos”, explica, citado pela agência Reuters. “Com base nestes resultados, temos de alertar contra a reabertura ilimitada das escolas e creches na actual situação. As crianças podem ser tão infecciosas quanto os adultos”, concluiu o estudo. O virologista nota ainda, ao New York Times, que um corpo de trabalho significativo sugere que a carga viral de uma pessoa está intimamente relacionada com a sua infecciosidade. Porém, num artigo publicado no site da revista Science, os autores alertam que o facto de se encontrar ARN não significa necessariamente que a pessoa é contagiosa, uma vez que as amostras podem conter vestígios virais não infecciosos.

Já a epidemiologista da OMS Maria van Kerkhove alertou, a 29 de Abril, que “não há nenhuma razão para acreditar que as crianças são menos susceptíveis à infecção se estiverem expostas ou que não consigam transmitir” o vírus, cita o Business Insider.

“É minha convicção que as crianças transmitem pouco o vírus”, contrapõe Maria João Brito, que acredita que “são os adultos que transmitem às crianças [o novo coronavírus], ao contrário do que acontece no vírus da gripe”, em que são as crianças que depois infectam os adultos, a família e a comunidade”. Os estudos de revisão de infecções em idade pediátrica mostram que há um adulto por trás que infecta a criança em 80 a 100% dos casos”, sendo que toda esta informação está em linha com o facto de “o primeiro grupo” a sair do desconfinamento serem “as crianças pequenas até aos três anos de idade”, com a reabertura das creches. “Essas [crianças] provavelmente irão ter muito menos doença e irão infectar muito menos do que as crianças mais velhas ou, por exemplo, na adolescência”, conclui.

A pediatra infecciologista acredita ainda que “a carga viral numa criança [assintomática] poderá ser menor do que a de um adulto assintomático. “Como ele [adulto] tem mais receptores, tem mais vírus e as cargas virais dele provavelmente são mais elevadas”, explica.

Já o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças lembra, na resposta enviada ao PÚBLICO, que “não se sabe se ou até que ponto as crianças assintomáticas ou levemente sintomáticas desempenham um papel importante na transmissão do vírus” e que não há uma compreensão clara sobre o impacto do encerramento das escolas na propagação da doença”.

Avaliação dos danos

Se, por um lado, há quem defenda que a reabertura das escolas terá vantagens inegáveis ao nível social, da educação e na saúde mental das crianças, há também quem alerte que, embora as crianças possam ser menos susceptíveis à infecção do que os adultos, o risco poderá aumentar com a abertura das escolas. É esta a conclusão de um estudo, realizado em Shanghai e Wuhan (China) e publicado na revista Science, que mostra que as crianças podem estabelecer até três vezes mais contactos do que os adultos e, consequentemente, terem três vezes mais oportunidades de ficarem infectadas. “A minha simulação mostra que se se reabrirem as escolas, veremos um grande aumento no número de reprodução [o número médio de contágios causados por cada pessoa infectada], que é exactamente o que não queremos”, revelou ao New York Times Marco Ajelli, epidemiologista da Fundação Bruno Kessler, em Trento, Itália, que participou no estudo.

Para Jennifer Nuzzo, epidemiologista da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, importa “ter uma visão holística do impacto do encerramento da escola nas crianças e famílias”. “Preocupa-me que, a determinado ponto, os danos acumulados provocados pelas medidas [de confinamento] possam exceder os danos causados às crianças pelo vírus”, afirmou ao New York Times.

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pedro cunha

Face à gradual reabertura das escolas, o ECDC aconselha, de acordo com a mais recente “avaliação rápida de riscos”, as autoridades locais a planearem uma redução das “oportunidades de transmissão nas escolas através de outras medidas”. “Isto pode incluir grupos escolares mais pequenos, um aumento da distância física entre as crianças da turma, promover a lavagem das mãos e aulas ao ar livre”, afirma.

Um “suponhamos

Segundo Maria João Brito, “nesta altura, não há ainda estudos suficientes feitos em larga escala que nos possam permitir fazer afirmações com certezas”, uma vez que “a doença ainda tem pouco tempo de evolução entre nós”. “Isto é hoje um ‘suponhamos’, é aquilo que os dados até hoje nos mostram.”

A pediatra alerta ainda para o facto de estes estudos terem sido realizados durante um período de confinamento, em que as escolas estavam fechadas. “À medida que formos faseando e abrindo, aos poucos, as escolas por grupos etários é que poderemos vislumbrar mais um pouco aquilo que se vai passar na idade pediátrica”, conclui. Importa também salientar que uma grande parte dos estudos mencionados não foi ainda revista pelos pares.

No e-mail enviado ao PÚBLICO, o ECDC salienta também que “os resultados dos estudos mostram algumas diferenças que são difíceis de interpretar”, mas que teremos mais conhecimento “à medida que forem realizados mais estudos em todo o mundo”. “Em particular, o papel das crianças na transmissão do vírus está entre as questões que requerem atenção urgente”, nota.

Para já, não há ainda consenso científico sobre a transmissibilidade das crianças e, perante a incerteza, há quem defenda que a melhor estratégia é a prudência.

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