Desconfinamento não piorou a “excelente” qualidade do ar que Lisboa tem sentido

Primeiros cinco dias úteis após o fim do estado de emergência apontam para nova diminuição da concentração do dióxido de azoto na cidade. No Porto, com dados de uma única estação de monitorização, houve um aumento.

Sem trânsito, a Avenida da Liberdade em Lisboa, tem batido recordes de baixa concentração de NO2
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Sem trânsito, a Avenida da Liberdade em Lisboa, tem batido recordes de baixa concentração de NO2 Daniel Rocha

O fim do estado de emergência e a primeira semana de desconfinamento para os portugueses não significou que a qualidade do ar em Lisboa piorasse. Muito pelo contrário. Olhando para a concentração do dióxido de azoto (NO2), medida em cinco estações de monitorização da cidade, a Zero conclui que nos cinco dias úteis da última semana a presença deste poluente, proveniente da queima de combustíveis fósseis, “foi mais reduzida [...] comparativamente com a média da concentração nos dias úteis desde o estado de alerta até ao final do estado de emergência”. No Porto, o resultado não foi tão bom.

Se o estado de emergência já tinha oferecido à capital portuguesa uma concentração de NO2 “muito abaixo da média do verificado desde o início do ano até ao estado de alerta”, o actual estado de calamidade, que permitiu a lenta reabertura de alguns sectores da economia, não fez recuar o que a Zero classifica como o “bom caminho” que se tem sentido em Lisboa, com períodos de “excelente qualidade de ar”.

As medições realizadas nas estações da Avenida da Liberdade, Entrecampos, Santa Cruz de Benfica, Restelo e Olivais apontam para uma concentração de NO2, nos dias úteis, abaixo das médias obtidas durante o estado de alerta e de emergência e que, quando comparadas com os valores deste ano, antes do estado de alerta, têm uma redução brutal. Nos Olivais, por exemplo, a concentração de NO2 nesta última semana é um quarto da registada entre 1 de Janeiro e o início do estado de alerta. Na Avenida da Liberdade, olhando para os valores desde 16 de Março até 8 de Maio, a Zero conclui que “a média de concentração deste poluente nunca havia sido tão baixa desde 1994 (ano em que a estação iniciou o seu funcionamento) durante tanto tempo (quase dois meses)”.

No Porto os resultados não são tão bons, e entre 4 e 8 de Maio, os dias úteis da primeira semana do estado de calamidade, houve mesmo um aumento da média de concentração de NO2, quando se compara com a semana anterior. Os valores ficam, ainda assim, abaixo dos que se registaram entre 13 e 17 de Abril e entre 20 e 24 de Abril e que, tal como em Lisboa, indicavam uma redução da concentração de NO2 na cidade, comparando com valores pré-estado de alerta.

Para este resultado menos favorável há razões que, desde logo, se prendem com a qualidade das medições. Ao contrário do que se passa em Lisboa, a Zero contabilizou apenas os dados de uma estação de medição, por ser a única que tinha dados actualizados. E esta estação encontra-se na Praça Francisco Sá Carneiro, junto a um semáforo, o que “pode interferir nos dados”, refere a associação ambientalista em comunicado. 

Além disso, as diferenças económicas das duas cidades também têm de ser levadas em conta, explica ao PÚBLICO Carla Graça, da Zero. “A concentração de NO2 na estação do Porto baixou, mas essa diminuição não foi tão acentuada como em Lisboa. Isto poderá estar relacionado com o que é o tecido empresarial do Porto, que não estava abrangido [pelo encerramento da actividade]. Em Lisboa temos sobretudo comércio e serviços, que fecharam mesmo ou enviaram os trabalhadores para teletrabalho”, diz. 

A diminuição abrupta do tráfego - principal emissor do NO2, a par com a indústria - o apontado como o principal responsável pela diminuição drástica da concentração deste gás em Lisboa. O facto de, durante o mês de Maio, ainda se manter a obrigatoriedade do teletrabalho sempre que possível, de o comércio estar a reabrir muito lentamente e de muitas pessoas ainda não se sentirem confortáveis para sair de casa, a menos que seja absolutamente essencial, são as razões apontadas por Carla Graça para que a primeira semana do estado de calamidade em Lisboa não ter causado um retrocesso na qualidade do ar. E é por isso que a responsável da Zero defende que, a manter-se o calendário de desconfinamento, Junho será o verdadeiro teste à capacidade da cidade controlar a qualidade que os lisboetas respiram.

“É claro que não é desejável que continuem as restrições que levaram a estes resultados, mas temos de pensar em redesenhar as cidades e em termos alternativas credíveis para os cidadãos poderem mudar de meio de transporte”, diz, realçando que, no caso de Lisboa, muitos dos trabalhadores entram na cidade chegados dos concelhos em redor.

A esta recomendação, que no caso de Lisboa passa, por exemplo, pela implementação da nova Zona de Emissões Reduzidas anunciada pela câmara municipal, a Zero junta a de uma melhor monitorização da qualidade do ar, sobretudo para a cidade do Porto.

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