Opinião

A pandemia melhorou a qualidade do ar e o desafio é mantê-la

As decisões tomadas nas próximas semanas e meses determinarão se refazemos ou destruímos as nossas cidades. Os bloqueios deram-nos um vislumbre de como as nossas cidades e a qualidade do ar podem ser sem motores poluentes.

Tal como um estudo de uma agência governamental francesa mostrou no ano passado, reduzir o tráfego automóvel é indispensável para reduzir rapidamente a poluição.

Tal já acontece em várias cidades europeias. Citando apenas algumas: Berlim adicionou novas ciclovias temporárias, a região da Grande Paris investirá 300 milhões de euros para construir uma rede de cicloturismo com 680 km, Cracóvia planeia construir uma infraestrutura de cicloturismo e alargar pavimentos, Vilnius transformará o seu centro em um vasto café ao ar livre e Bruxelas transformará o centro da cidade em áreas residenciais onde caminhadas e cicloturismo terão prioridade sobre automóveis e adicionará 40 km de ciclovias. Dublin começou a remover temporariamente os estacionamentos para permitir faixas de cicloturismo mais seguras e “distanciamento físico”. No âmbito de Lisboa Capital Verde Europeia, há um conjunto de transformações para o centro da cidade e algumas zonas específicas que mudarão o usufruto do espaço público.

Em segundo lugar, essas transformações do espaço urbano só funcionarão se o transporte público, com os seus benefícios comprovados para um ar limpo, for reforçado. Tal pode ser mais desafiador do que nunca, já que o setor está atualmente numa situação terrível, com as pessoas a evitarem espaços apertados. A queda no número de passageiros em Londres varia entre 80% para autocarros e 92% para o metro. No caso da Alemanha, especialistas em transporte esperam que, no pior dos cenários, o Covid-19 possa levar a uma redução de 50% no uso do transporte público até 2023. Estão a ser implementadas medidas imediatas necessárias, tais como a limpeza profunda de veículos ou a disponibilização de dispensadores de desinfetantes aos passageiros para garantir que os serviços de autocarro e metro não sejam meios para a propagação do vírus. Para criar novos empregos e ampliar o apelo ao transporte público é agora a hora de duplicar a eletrificação da frota de autocarros. "Moderno, limpo e seguro” deve ser o slogan.

Tais medidas tornarão os autocarros mais atraentes em geral, como se verifica em Paris, onde 93% dos utilizadores de autocarro pensam que a transição para modelos elétricos evidencia a preocupação de um operador em agradar aos seus clientes. Paralelamente, as soluções de venda digital de títulos de transporte ajudarão a reduzir os pontos de contato físicos e facilitarão as informações em tempo real. Mas isso também exigirá horários de trabalho e escolares mais flexíveis, para evitar efeitos na hora de ponta no metropolitano ou nos autocarros. Novos hábitos, como o teletrabalho, devem ser incentivados onde possível a fim de reduzir a necessidade de deslocamentos diários todos os dias da semana.

Temos já disponíveis as ferramentas para traçar um rumo no sentido de emissões zero

Em terceiro lugar, está na hora de tirar os veículos poluentes da estrada. Como primeiro passo, as Zonas de Baixa Emissão têm-se mostrado como um caminho possível para acelerar a captação de automóveis menos poluentes e reduzir a poluição do ar. Evidências em Londres, Madrid e Paris mostram que as concentrações de dióxido de azoto (NO2) podem ser rapidamente reduzidas em até um terço. Entretanto, no âmbito da atual crise, várias cidades - incluindo Bruxelas, Milão e Londres - decidiram suspender as políticas existentes ou atrasar novas para ajudar os trabalhadores da saúde e as entregas essenciais. Embora tais decisões sejam justificadas como medidas de emergência temporárias, é vital que aqueles instrumentos, comprovados como conducentes a um ar mais limpo, sejam totalmente reativados o mais rapidamente possível. Além disso, as reduções graduais da poluição já não são suficientes: um grupo de importantes cidades europeias já estabeleceu um rumo para zonas de emissão zero e há agora uma oportunidade de ouro para que mais autarquias integrem tais políticas no redesenho geral das cidades pós-COVID-19. Tal como a ZERO tem vindo a mostrar, Lisboa nunca teve um ar tão limpo este século como nas últimas semanas.

Felizmente, estão agora disponíveis alternativas aos motores de combustão poluentes, e cada vez mais acessíveis. Os primeiros meses de 2020 viram as vendas de carros elétricos atingirem valores sem precedentes na Europa Ocidental, com aumento de vendas atingindo os 10%. (contra 3% apenas alguns meses antes). Os autocarros elétricos estão também a conquistar as ruas europeias e ajudam a reduzir os custos dos nossos sistemas de mobilidade. A crise atual é a oportunidade de fazer o que tantas cidades queriam, ou seja, proibir carros de motores de combustão interna nas suas ruas, mas faltava a oportunidade.

O todo é maior do que a soma das suas partes

Por último, se combinarmos essas transformações no espaço urbano, transporte público e veículos de emissão zero com serviços inovadores elétricos (ou com emissões zero), compartilhados e disponíveis para a procura, podemos dar um passo em direção ao “paraíso dos transportes”. A Federação Europeia de Transporte e Ambiente modelou o impacto combinado dessas políticas no ano passado e descobriu que os quilómetros de carro percorridos poderiam ser reduzidos em até 60%. Mas isso também significa que veículos de alta quilometragem, como táxis, veículos de transporte individual (TVDE) como Uber e Kapten ou frotas de entrega, precisam de mudar rapidamente para veículos elétricos. E novos serviços terão de complementar, não substituindo, o transporte público, oferecendo, por exemplo, preços mais baratos em serviços de boleia para viagens específicas, como já implementado à noite na cidade francesa de Nice.

As decisões tomadas nas próximas semanas e meses determinarão se refazemos ou destruímos as nossas cidades. Os bloqueios deram-nos um vislumbre de como as nossas cidades e a qualidade do ar podem ser sem motores poluentes. Como o presidente da França, Macron, disse recentemente: “Quando sairmos desta crise, as pessoas já não aceitarão respirar ar poluído. As pessoas dirão: “Eu não concordo com as escolhas das sociedades onde eu irei respirar esse ar, ou onde o meu filho ou filha irá ter bronquite por causa disso.” Temos as ferramentas comprovadas para evitar o retorno do ar tóxico e devemos, já, pô-las em uso. Em Portugal, e em particular em cidades onde ainda se ultrapassam os valores-limite de qualidade do ar como Lisboa, Porto e Braga, será uma enorme derrota se não soubermos reconstruir bem o seu futuro.

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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