A grande crise da globalização

Praticamente tudo que se antecipava para o ano 2020 foi posto em causa. O impacto negativo na economia será profundo, afectando, em graus variáveis, o rendimento e o emprego e terá inevitáveis repercussões políticas.

1. Antecipar o mundo após a pandemia da covid-19 é um exercício tão estimulante quanto falível. A capacidade de antecipação das tendências e dos acontecimentos relevantes é das mais importantes na vida pessoal, empresarial e política. Em qualquer uma dessas esferas da vida humana muito do que se faz, ou do que eventualmente se deixa de efectuar, está ligado às expectativas, ou seja, à maneira como concebemos o futuro em termos das necessidades que vamos ter, ou das oportunidades que irão surgir. Numa pequena economia aberta como a portuguesa, fortemente interligada com a Europa e o mundo, grande parte do que vier a acontecer serão repercussões de tendências e de acontecimentos europeus, e, sobretudo, globais.

Assim, uma das facetas mais importantes de qualquer análise prospectiva passa por uma (tentativa) da antecipação de tendências e acontecimentos ao nível planetário. As incógnitas nesta altura são imensas. Iremos ter uma nova ordem mundial, seja o que for que isso signifique? Iremos assistir a uma expansão da governação global, ou esta ficará ainda mais fragilizada? Irão predominar a competição e o conflito, ou irá abrir-se uma nova era de colaboração e de partilha a nível global?

2. Antes de olharmos para o futuro, vejamos primeiro o passado recente. Em duas décadas do século XXI é já a terceira vez que sentimos estar perante um ponto de viragem crítico do rumo dos acontecimentos a nível global. O primeiro, foram os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. O segundo, a falência do banco norte-americano de investimento Lehman Brothers em 2008. Ambos foram indubitavelmente acontecimentos marcantes. Alteram, de uma forma ou de outra, as tendências anteriores levando o mundo para um rumo diferente daquele que teria seguido se não tivessem ocorrido.

Quanto ao primeiro, o 11 de Setembro, levou a maior potência global, os EUA, a envolver-se numa “guerra contra o terror”, com múltiplos episódios e uma grande canalização de recursos humanos, financeiros e materiais para esse efeito. Por sua vez o segundo, a falência do Lehman Brothers em 2008, desencadeou uma grave crise financeira e económica internacional ligada originalmente à especulação nos mercados imobiliário e financeiro dos EUA, a qual perdurou sob várias formas e graus de intensidade até 2015. Afectou seriamente a economia norte-americana num primeiro momento e, mais tarde, as economias europeias, em particular as da Zona Euro. Expôs cruamente as fragilidades europeias, em particular nos países do Sul da Europa.

3. Em 2020 estamos no início de um terceiro ponto de viragem. A causa directa é o extraordinário impacto da pandemia da covid-19 nas actuais formas de vida humana e, sobretudo, numa economia globalizada e fortemente interligada. Um vírus desconhecido em seres humanos foi detectado em finais de 2019 na cidade chinesa de Wuhan, na China. Rapidamente se propagou para o resto do mundo nos primeiros meses de 2020, provocando uma desarticulação das sociedades pelo medo do contágio — o vírus pode ser letal para o ser humano —, e a semiparalisação da actividade económica.

Praticamente tudo que se antecipava para o ano 2020 foi posto em causa. Se compararmos as previsões económicas das organizações internacionais efectuadas nos meses finais de 2019 com as efectuadas no mês Abril de 2020 — reflectindo já o impacto previsível da pandemia da covid-19 —, a alteração é radical sem qualquer exagero de linguagem.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) antecipa agora uma quebra do comércio mundial situada entre os 13% e os 32%. Por sua vez, o Fundo Monetário (FMI) projecta nesta altura para 2020 uma quebra do produto mundial de -3%. Resulta daqui que, mesmo nos cenários mais optimistas, existirá um profundo impacto negativo na economia, afectando, em graus variáveis, o rendimento e o emprego. Claro que um impacto económico e social desta magnitude terá inevitáveis repercussões políticas profundas.

Qualquer tentativa de antecipação do mundo em devir assente numa separação da esfera da economia da esfera da política é uma divisão analítica artificial. A realidade irá rapidamente mostrar os seus equívocos e limites. No mundo real, em particular em circunstâncias tão extraordinárias como estas, a economia é sempre economia política.

4. O facto de estamos num ponto de viragem não significa que irá ocorrer um corte generalizado com as tendências anteriores. Pelo contrário, é muito provável que algumas das tendências que já se desenhavam nos últimos anos antes da pandemia, sejam elas tecnológicas, económicas ou políticas, surjam, agora, com ainda maior intensidade.

Assim, antes de tentarmos discernir, por antecipação, como será o mundo dos anos 2020, é útil e necessário olharmos para as tendências que se desenhavam anteriormente à pandemia da covid-19. Uma tendência maior da economia política global anterior era a crescente rivalidade entre os EUA e China.

 À primeira vista, a chamada “guerra comercial” desencadeada em 2018 tinha abrandado em inícios de 2020 devido a um acordo comercial (limitado) sino-americano. Mas foi, tudo indica, uma trégua por conveniência de ambas as partes. Esse conflito, ainda que centrado no comércio, mostrava uma nítida e crescente rivalidade americano-chinesa pela hegemonia global. Mostrava também como o comércio internacional não é apenas a fonte de riqueza e de bem-estar que uma visão puramente económica sugere. Na realidade, é também instrumental para os objectivos mais vastos de poder global. Em termos prospectivos, nada indica por isso que a rivalidade comercial-económico-política entre os EUA e a China vá dar um lugar a uma nova era de globalização cooperativa entre ambos.

5. Extrapolando o pensamento do grande estratega prussiano do século XIX, Carl von Clausewitz, para os anos 2020, é bem provável que a economia, o comércio e a tecnologia, se transformem, cada vez mais, em formas de «continuação da guerra por outros meios». Há sinais claros dessa possibilidade ocorrer.

A disputa pela supremacia na tecnologia 5G — na qual a China, através da Huawei, se tenta posicionar como dominante —, não foi interrompida pela covid-19. Pelo contrário, também aqui estamos a assistir a uma aceleração das tendências anteriores, as quais estão a colocar numa situação difícil muitos países e empresas que imaginavam um mundo onde poderiam dar-se bem com ambos (China e EUA), separando os negócios e o económico, do político-militar e da segurança.

Mas o duplo uso da tecnologia de comunicações móveis, empresarial e militar, mostra a ubiquidade da competição tecnológico-empresarial. O comércio e a tecnologia são componentes cruciais de uma estratégia de poder de uma grande potência em ascensão (a China), alicerçada na inovação tecnológica e na abertura dos mercados externos, mantendo um controlo estatal autoritário sobre a sua economia e sociedade.

Face à oposição dos EUA à crescente influência da China em muitos dos seus aliados tradicionais, o mundo após a covid-19 será difícil e obrigará a escolhas delicadas. As situações mais críticas poderão ocorrer com as economias e as empresas que se habituaram a depender em sectores estratégicos de mercados abertos e das cadeias de abastecimento globais que levam até à China. Ao mesmo tempo, as organizações internacionais e a governação global enfrentarão, também, um mundo mais complexo e pontuado de obstáculos embora não necessariamente intransponíveis.

6. Nos finais do século XX emergiu uma governação global ligada à necessidade de soluções para problemas que ultrapassam as capacidades de resposta dos Estados soberanos. Não se trata de um Governo mundial feito à semelhança de um Governo estatal, organizado na lógica de um poder soberano sobre um território e população. Trata-se, antes, de um conjunto complexo, heterogéneo e difuso de instituições e de mecanismos.

Envolve organizações internacionais como as Nações Unidas e as suas diversas agências e programas; inclui o FMI, o Banco Mundial e a OMC, especialmente na governação económico-financeira-comercial. Envolve ainda organizações não-governamentais (ONG) como a Greenpeace, o World Wide Fund For Nature, a Amnistia Internacional, entre muitas outras, as quais são especialmente activas em matéria de ambiente e direitos humanos. As maiores empresas multinacionais associam-se também a esses mecanismos ou fóruns, tendo o seu espaço mais visível no Fórum Económico Mundial de Davos. E há ainda o G20, um fórum intergovernamental como origem em finais dos anos 1990 e nas crises financeiras dessa época. Aí juntam-se anualmente as 19 maiores economias mundiais e a União Europeia.

Mas será o mundo pós-covid 19 o grande momento cooperativo de afirmação da governação global, como muitos têm antecipado?

7. “As notícias da minha morte são exageradas”, disse Mark Twain em finais do século XIX, quando um jornalista o questionou sobre os rumores que corriam de que estaria gravemente doente e a morrer. A frase, tenha ou não sido proferida exactamente assim, mostra como anúncios prematuros — e ideias não sustentadas pela realidade — se podem facilmente propagar, parecendo até ser sólidas.

A pandemia da covid-19 mostrou, mais uma vez, como as “notícias da morte do Estado soberano”, anunciadas, desde os anos 1990, por liberais radicais e outros entusiastas da governação global, foram prematuras. Na realidade, com o Estado soberano “bem vivo”, a governação global vai enfrentar duas tendências contraditórias que não lhe abrem perspectivas de fácil afirmação.

A primeira está ligada aos problemas planetários que naturalmente a impulsionam: a grave a crise ambiental que teve um crescendo de atenção nos últimos anos e agora a pandemia da covid-19, também ela global. Ambas as crises afectam toda a humanidade, embora em graus e sob formas variáveis, beneficiando de uma resposta global e coordenada.

Mas a segunda tendência é desfavorável à governação global. Resulta precisamente do regresso do Estado como interventor na economia e sociedade, usando o seu poder de soberania. É que a par do regresso do Estado é provável ocorrer um reemergir do nacionalismo económico (e político), tendência, aliás, já verificável nos anos anteriores. Não são boas notícias para nem para a governação global, nem para os mercados abertos. O cosmopolitismo globalista e o nacionalismo soberanista sempre conflituaram entre si. Vão voltar a uma acérrima competição, sendo incerto qual das duas tendências acabará por se impor nos anos 2020.

8. É muito provável que os próximos anos sejam marcados por uma grande crise da globalização. O impacto extraordinariamente negativo que a pandemia da covid-19 está a ter na economia e no comércio sugerem isso. Fundamentalmente, podemos ter aqui dois caminhos de saída.

Um primeiro onde é ultrapassada recriando um mundo aberto, no qual os desequilíbrios económicos, sociais e ambientais que a globalização anteriormente gerou serão corrigidos ou atenuados. Prevalecerão lógicas cooperativas entre Estados que irão reforçar o papel das organizações internacionais e de uma governação global. A confiança nas virtudes da globalização será então restaurada.

Mas poderá ser seguido um outro caminho — seja por opção deliberada, ou por uma conjugação negativa de circunstâncias —, que é o do acentuar das tendências de desglobalização anteriores. Aí as organizações internacionais e a governação global serão contornadas pelas grandes potências mundiais.

Esse será um caminho que levará também, de uma forma ou de outra, a uma desglobalização entendida como diminuição da interdependência e da integração planetária. Irá seguramente afectar o comércio internacional e serão encurtadas as cadeias de produção, distribuição e abastecimento. Como deixou claro o economista holandês Peter A. G. van Bergeijk, em particular em On the brink of deglobalisation... again (2018), a experiência do passado mostra-nos que não há desglobalização económica sem desglobalização política. Ao contrário do que ocorreu nos anos 1930, as maiores pressões para uma desglobalização têm agora origem nas democracias ocidentais e são oriundas das chamadas contestações populistas, à direita ou à esquerda.

9. A União Europeia terá um papel relevante a desempenhar no mundo pós covid-19, mas a capacidade de influenciar decisivamente o rumo dos acontecimentos globais vai estar nas mãos dos governos dos EUA e da China (e na forma como interagirem entre si).

A questão ambiental, na qual a União Europeia investiu muito, mostra inequivocamente essa dura realidade. Nos últimos anos, o ambiente estava a ocupar, cada vez mais, a agenda política global. Em termos optimistas, poderá agora ter um novo impulso ligado às políticas públicas de recuperação da economia e do emprego.

Mas não se pode excluir a possibilidade de o ambiente ser um dano colateral da queda abrupta dos preços do petróleo nos mercados mundiais — outro acontecimento com consequências geoeconómicas e geopolíticas difíceis de antecipar na sua plenitude —, que torne economicamente injustificáveis os investimentos em energia mais ecológica. E poderá ser novamente vítima da competição e rivalidade sino-americana, pois estas duas potências são os dois maiores poluidores a nível planetário.

Mesmo admitindo que um novo presidente nos EUA possa voltar, a partir de 2021, a uma política pró-globalização e multilateralista — e que os norte-americanos adoptem as metas ambientais do Acordo de Paris —, a margem para eficazes soluções cooperativas globais é limitada.

As sequelas económicas e políticas da rivalidade EUA-China e da pandemia da covid-19 são já uma componente estrutural do sistema internacional. Não afectam só o ambiente e o comércio. Na governação global da saúde humana as controvérsias que têm envolvido a Organização Mundial de Saúde são outra ponta visível do mal-estar e da desconfiança instalados. Após a covid-19, o espaço para um mundo globalizado mais cooperativo e equilibrado existirá, mas será um caminho estreito e com imensas dificuldades.

Post scriptum:  versão com algumas modificações do ensaio publicado originalmente na revista Norte.ar da Porto Business School na dimensão Planet [Planeta]